O avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais tem elevado a demanda por energia elétrica e pressionado o planejamento energético dos operadores de data centers, o que já tem levado o setor a buscar alternativas de eficiência, como o resfriamento líquido. Nesse contexto, a energia nuclear surge como uma das opções em discussão para o abastecimento dessas instalações, por oferecer geração contínua e baixas emissões de carbono, informa a assessoria de imprensa do IPEN.
A possibilidade de integrar pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) e microrreatores a sistemas que combinam diferentes fontes de energia foi apresentada pela superintendente do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), Isolda Costa, em evento realizado no Instituto de Engenharia, em São Paulo.
De acordo com referências da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), os SMRs podem atingir até 300 megawatts elétricos (MWe) por módulo, enquanto os microrreatores geralmente têm potência de até 10 MWe. A classificação já foi detalhada pela DCD na reportagem SMRs: uma pequena revolução nuclear.
Segundo a apresentação, essa variedade de escalas amplia as possibilidades de fornecimento de energia, inclusive para instalações de menor porte ou situadas em locais com acesso limitado à rede elétrica.
No cenário internacional, o interesse do setor de data centers pela tecnologia vem crescendo. Empresas como AWS, Google e Oracle firmaram acordos de fornecimento de longo prazo com companhias especializadas em SMRs.
A adoção dessas soluções, porém, depende da avaliação de uma série de fatores, entre eles demanda energética, custos, prazos, segurança, licenciamento, fornecimento de combustível, disponibilidade de água para resfriamento e gestão de rejeitos. O uso de água, aliás, é um ponto que já tem gerado debate no próprio setor de data centers.
A integração de fontes renováveis e de sistemas de armazenamento de energia também pode fazer parte do planejamento, compondo arranjos híbridos de suprimento.
De acordo com a superintendente, o IPEN pode contribuir para o avanço dos estudos sobre a aplicação da energia nuclear em data centers no Brasil, por meio de pesquisas em materiais e da formação de competências técnicas.
Entre as possibilidades apresentadas estão três frentes:
- Fornecimento pela rede elétrica: a energia de origem nuclear chegaria aos data centers por meio do sistema interligado. A discussão já ocorre no setor: a ABDAN apresentou a proposta de que grandes operadores de infraestrutura digital passem a adquirir energia diretamente da futura usina Angra 3.
- Polos digitais associados a SMRs: planejamento de áreas dedicadas a data centers vinculadas a projetos de pequenos reatores.
- Microrreatores para demandas localizadas: avaliação de unidades de menor porte para cargas específicas. No país, o processo formal de licenciamento do local da Unidade Crítica do primeiro microrreator nuclear brasileiro foi iniciado no fim de 2025.
A viabilidade de cada alternativa, segundo a apresentação, depende de estudos técnicos e econômicos, bem como da disponibilidade de infraestrutura e de profissionais qualificados.
O debate ganha relevância com a expectativa de expansão do mercado nacional após a sanção do ReData, regime especial de tributação voltado a serviços de data center. Especialistas ouvidos pela DCD já haviam apontado benefícios e cuidados no uso da energia nuclear pelo setor, e o tema também foi discutido em workshop sobre SMRs realizado em São Paulo.
Na avaliação apresentada pelo IPEN, a energia nuclear pode ampliar as opções para atender ao crescimento da infraestrutura digital com fornecimento firme e baixa emissão de carbono. O desafio, segundo o instituto, está em identificar as aplicações adequadas e demonstrar sua viabilidade frente às necessidades brasileiras.
Comentários