A demanda por data centers mais sustentáveis, antes associada principalmente à agenda ambiental, começa a evidenciar uma lacuna estrutural na infraestrutura digital. Segundo estudo da consultoria Opinium, 92% dos líderes de TI priorizam parceiros capazes de reduzir o consumo de energia e a pegada de carbono. No entanto, apenas 46% avaliam que os data centers atuais estão preparados para cumprir essas metas.
A distância entre expectativa e capacidade de entrega evidencia um dos principais desafios do setor. Os modelos tradicionais de operação ainda têm dificuldade em conciliar eficiência energética, custo e redução de emissões. Os sistemas de resfriamento concentram uma parte relevante do problema, por serem entre os maiores consumidores de energia e água nessas instalações.
Nesse cenário, tecnologias de resfriamento líquido passaram a ocupar posição central nas discussões sobre infraestrutura para inteligência artificial (IA) e computação de alto desempenho (HPC). Estimativas do setor indicam que a abordagem pode reduzir em até 40% o consumo de energia em data centers. No Brasil, o movimento já aparece em contratos de fornecimento de CDUs e em novas parcerias comerciais voltadas a ambientes de alta densidade.
A RT-One é uma empresa norte-americana que atua nas áreas de tecnologia, segurança cibernética e soluções de IA. A companhia desenvolve, no país, data centers em Uberlândia (MG) e Maringá (PR), concebidos para operar com alta eficiência e baixo impacto ambiental. Os projetos integram uma plataforma para a qual a empresa anunciou a captação de R$ 15 bilhões no fim de 2025. A previsão é de capacidade inicial de 100 MW em cada campus, com possibilidade de expansão para até 400 MW por unidade.
A empresa já firmou acordos com a Hitachi Energy, para a infraestrutura elétrica, e com a construtora Engemon, para as obras em Minas Gerais. No caso de Uberlândia, a companhia encerrou o contrato do terreno originalmente escolhido e iniciou a busca por uma nova área.
Segundo a empresa, os projetos utilizam um sistema de refrigeração líquida em circuito fechado, do tipo direct-to-chip, no qual o fluido refrigerante é conduzido diretamente aos processadores. O calor é dissipado por trocadores de calor a ar (dry coolers), o que praticamente elimina a necessidade de reabastecimento de água. De acordo com a RT-One, o consumo hídrico se aproxima de zero, o que ganha relevância diante do debate crescente sobre o uso de água em data centers.
O CEO da RT-One, Fernando Palamone, afirmou que há hoje uma desconexão clara entre o que o mercado demanda e o que a infraestrutura disponível consegue entregar. Segundo ele, o projeto foi concebido justamente para reduzir essa diferença, combinando eficiência operacional e responsabilidade ambiental.
A empresa informou ainda que o data center foi projetado para ter uma participação mais ativa no sistema elétrico. A estrutura poderá operar como carga controlável, absorvendo o excedente de energia e contribuindo para a estabilidade da rede. A abordagem ainda é pouco explorada no Brasil, onde o descompasso entre a geração de energia renovável e a capacidade de escoamento tem levado a cortes na produção.
Para a RT-One, iniciativas desse tipo indicam uma mudança de paradigma no setor. Com o avanço da IA e o aumento da demanda por processamento, a sustentabilidade deixaria de ser um diferencial competitivo e passaria a ser uma condição para a viabilidade dos data centers nos próximos anos.
Palamone acrescentou que o objetivo da companhia é demonstrar que é possível ganhar escala com tecnologia de ponta sem repetir os modelos intensivos em recursos adotados no passado.
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