O Brasil segue firme para ocupar um espaço de destaque no mapa global de infraestrutura digital. A projeção da Moody’s indica que o país pode atrair cerca de 3 trilhões de dólares (15,8 trilhões de reais) em investimentos destinados a data centers nos próximos cinco anos, impulsionados sobretudo pela expansão acelerada da Inteligência Artificial em setores econômicos e industriais, informa o Serviço de Comunicação Social do Instituto de Engenharia Nuclear.

O levantamento mostra que, embora os Estados Unidos liderem com folga o ranking mundial — com mais de 5 mil instalações —, o Brasil aparece na 12ª posição, sendo o país mais bem colocado da América Latina. Atualmente, o território brasileiro abriga cerca de 200 data centers e tem previsão de receber entre 60 e 100 bilhões de reais em novos aportes até 2030.

A avaliação do ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, aponta que a posição de destaque do Brasil no cenário internacional de infraestrutura digital está diretamente ligada à disponibilidade de energia necessária para operar grandes complexos tecnológicos.

Segundo o ministro, o país reúne condições estratégicas para a instalação de data centers. “O Brasil é um país muito atrativo para a infraestrutura de data centers. Além de contar com abundância de água e energia, temos uma posição estratégica no tráfego internacional de dados, impulsionada pela rede de cabos submarinos que conecta continentes”, afirmou.

Os planos do Ministério das Comunicações incluem a criação de uma Política Nacional de Data Centers, integrada ao programa Nova Indústria Brasil (NIB). A proposta deve abordar temas como segurança jurídica, eficiência energética, formação de profissionais e articulação com as cadeias industriais.

O país ainda não dispõe de uma regulação específica para o setor. Por isso, o governo considera essencial que o Congresso Nacional aprove, até 25 de fevereiro, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (ReData), medida que busca reduzir custos relacionados à exportação de dados e evitar a perda de validade do projeto.

Segundo o ministério, essas iniciativas têm como objetivo estruturar uma política pública robusta, capaz de garantir infraestrutura avançada, segurança e sustentabilidade para a instalação de data centers em todo o território nacional, além de possibilitar parcerias futuras com empresas e instituições públicas ligadas ao setor nuclear.

A energia nuclear tem ganhado espaço como alternativa para suprir, de forma sustentável e com baixa emissão de carbono, a crescente demanda energética de grandes empresas de tecnologia. Um exemplo recente é a parceria firmada pela Meta, em janeiro deste ano, com três companhias do setor nuclear dos Estados Unidos — TerraPower, Oklo Inc. e Kairos Power — para garantir o abastecimento de seus complexos de data centers.

Se os acordos forem implementados, a empresa responsável por WhatsApp, Facebook e Instagram poderá contar com até 6,6 gigawatts de capacidade instalada, volume suficiente para atender a quase 5 milhões de residências norte-americanas. A Meta pretende direcionar essa energia ao Prometheus, um supercluster de inteligência artificial previsto para entrar em operação em 2026, reforçando a estratégia da companhia de ampliar investimentos em soluções energéticas ligadas ao setor nuclear.

Além da Meta, outras multinacionais de tecnologia também têm buscado acordos com instituições do setor nuclear para garantir o funcionamento contínuo de seus data centers. Em outubro de 2024, a Amazon anunciou três parcerias voltadas ao desenvolvimento de tecnologia nuclear, incluindo estudos de viabilidade para a instalação de um pequeno reator modular próximo a uma unidade da Energy Northwest, no estado de Washington, com a possibilidade de adquirir eletricidade proveniente de quatro módulos.

No mesmo período, o Google firmou um acordo com a empresa de energia Kairos Power para utilizar pequenos reatores modulares (SMRs) no abastecimento de centros de processamento de dados voltados à inteligência artificial, com previsão de que o primeiro reator entre em operação ainda nesta década.

O movimento dessas grandes companhias indica um momento de retomada do setor nuclear, impulsionado pelo interesse em projetos de pequenos e microrreatores desenvolvidos por empresas privadas e instituições de pesquisa. Entre as iniciativas que podem ser favorecidas por esse cenário está o projeto do primeiro microrreator nuclear brasileiro, cujo processo formal de licenciamento do local de construção de sua Unidade Crítica foi iniciado no fim de 2025.

O projeto do microrreator nuclear brasileiro, cuja Unidade Crítica será desenvolvida e testada no Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN), prevê uma ampla gama de aplicações. Entre elas está o fornecimento de energia para complexos de data centers, favorecido pela portabilidade do equipamento e por sua potência de 100 W, suficiente para sustentar uma reação nuclear em cadeia de forma controlada em diferentes cenários.

Segundo o diretor substituto do IEN/CNEN, Francisco José de Oliveira Ferreira, a expansão dos data centers voltados à inteligência artificial tem elevado a demanda por energia contínua e altamente confiável. “Nesse cenário, os microrreatores nucleares surgem como uma alternativa compacta, eficiente e sustentável, capaz de garantir alta disponibilidade energética para operações críticas”, afirmou.

A iniciativa, que reúne o IEN/CNEN e outros 13 parceiros institucionais, pode posicionar o Brasil na vanguarda tecnológica em um momento em que grandes empresas intensificam a busca por soluções energéticas sustentáveis, recorrendo a microrreatores e pequenos reatores modulares (SMRs) para apoiar projetos de inteligência artificial.