O Brasil precisará construir 120 GW de nova capacidade de geração até 2040 para atender ao crescimento da demanda por energia elétrica, informa o site Canal Energia. A estimativa foi apresentada por Rodrigo Borges, diretor executivo da Aurora Energy Research Brasil, durante o Brazil Windpower, nesta terça-feira, 27 de outubro.

De acordo com Borges, o investimento necessário em geração soma R$ 553 bilhões. A infraestrutura de transmissão para conectar essa nova capacidade deve demandar outros R$ 117 bilhões até 2030. O total chega a R$ 670 bilhões.

Até 2035, estão previstos 28.761 km de novas linhas de transmissão. Entre os projetos estruturantes estão o Bipolo Nordeste I, previsto para 2030; as linhas de exportação Nordeste/Sudeste e Nordeste/Norte, entre 2029 e 2030; compensadores síncronos, também entre 2029 e 2030; e o Bipolo Nordeste II, em 2034.

O executivo afirmou que a projeção é otimista. Segundo ele, a necessidade de expansão está diretamente ligada ao avanço das fontes renováveis intermitentes, que exigem reforço do lastro e da potência firme no sistema.

Um dos pontos centrais da apresentação de Borges foi o elevado custo do sistema elétrico brasileiro. Para o executivo, medidas como a manutenção dos leilões de baterias são fundamentais para reduzir os cortes de geração, conhecidos como curtailment, e fortalecer a cadeia de valor do setor.

Borges explicou que, embora a construção de usinas eólicas onshore custe entre 16% e 18% mais do que a de usinas solares, a fonte eólica apresenta vantagem competitiva final de 14% em contratos de compra de energia de longo prazo (PPAs). Segundo ele, a diferença está no risco. Apesar do menor custo do ativo solar, sua exposição à modulação, ao curtailment e aos preços de submercado chega a R$ 134/MWh, patamar superior ao da eólica, o que torna o preço final do PPA eólico mais competitivo.

O executivo detalhou que, ao meio-dia, a geração solar atinge seu pico e a geração hidrelétrica cai para apenas 29 GW, enquanto o pico de demanda, de 73 GW, ocorre à noite, entre 18h e 19h. De acordo com Borges, essa dinâmica tem provocado volatilidade intradiária nos preços, sobretudo no Nordeste, onde o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) cai ao meio-dia e sobe no início da noite.

O curtailment é outro desafio apontado. Segundo o estudo da Aurora, o volume de cortes, que chegou a quase 50 TWh em 2026, deve recuar entre 2028 e 2029, com queda de 3,5 pontos percentuais. Entre os fatores que explicam a melhora estão o avanço da infraestrutura de rede, a adição de 900 MW de baterias, responsável por 9% da redução, e o crescimento da demanda. A Resolução Normativa (REN) 1.170, que altera a forma de alocação do curtailment entre os geradores, também deve impactar as projeções da consultoria a partir do quarto trimestre de 2026.

Considerando uma margem de reserva de 20% sobre a demanda, o País precisará de 14 GW de capacidade firme adicional até 2030, de acordo com a Aurora. A consultoria avaliou três cenários para suprir essa flexibilidade por meio do leilão de reserva de capacidade, com custos cobertos pelo Encargo de Reserva de Capacidade (ERCAP): uso 100% térmico, um cenário central combinado e uso 100% de sistemas de armazenamento em baterias (BESS). Segundo o estudo, esta última opção reduziria os riscos, mas implicaria encargos mais elevados.

Na avaliação de Borges, o Brasil tem escala, custo competitivo e liderança para sustentar o próximo ciclo de investimentos, mas o cenário está se tornando arriscado. Para ele, previsibilidade e alocação correta de custos serão críticas.

O executivo destacou que o País lidera o mundo em penetração de energias renováveis, com 78% da matriz energética, e mantém um dos preços de energia mais baixos do mundo. No entanto, o investimento em capacidade de armazenamento é de apenas 2%, bem abaixo de mercados como a Califórnia e a Austrália, que já atingem 22%. Segundo Borges, esse descompasso representa o principal gargalo do sistema elétrico brasileiro nos próximos anos, em um momento em que a disputa por energia e por conexão se intensifica com a chegada de novas cargas, como os data centers.