Nessa matéria de abril escrita pelo meu colega Zachary Skidmore ficamos sabendo que a energia nuclear tem potencial para atender até 10% da energia necessária a data centers na próxima década. Claro, há inúmeros fatores que entram nessa equação, como otimização da capacidade existente, retrofit de usinas nucleares fechadas (caso da usina de Three Mile Island, na Pensilvânia) e até adaptação de usinas de carvão. Existem também os pequenos reatores modulares (SMR) e os microrreatores. Essas soluções já estão ganhando espaço no setor de data centers, com gigantes como AWS, Google e Oracle firmando acordos de fornecimento de longo prazo com empresas especializadas em SMRs ao longo do último ano.

Mas e no Brasil? Como a utilização da energia nuclear para data centers é vista aqui? Em um país com uma matriz energética composta em 50% de energias renováveis, muito superior à taxa mundial, a energia nuclear pode ser uma boa opção ou não é necessária? Para tentar responder a algumas dessas perguntas, a DCD conversou com especialistas dos setores de data center e de energia nuclear para compor um quadro do cenário nuclear brasileiro.

Em fevereiro, foi postergada a definição sobre a retomada das obras da usina nuclear de Angra 3, cuja construção teve início em 1981 e passou por diversas interrupções. Para sua finalização, são estimados investimentos adicionais de aproximadamente 20 bilhões de reais. No ano de 2019, a Eletronuclear firmou contrato com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com o objetivo de desenvolver uma estrutura de financiamento voltada à conclusão do projeto. Atualmente, o BNDES avalia alternativas para contratação de serviços de engenharia e possibilidades de financiamento por meio do mercado.

Porém, em 23 de setembro, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, informou que o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) incluirá na pauta da reunião de 1º de outubro a discussão sobre a conclusão das obras de Angra 3. Segundo o ministro, trata-se de um tema relevante que requer análise aprofundada. Ele destacou que o Brasil possui reservas significativas de urânio e domínio tecnológico na área, além de considerar a energia nuclear como uma fonte limpa.

Silveira também mencionou que, com o avanço dos pequenos reatores nucleares, será possível substituir o uso de óleo diesel em regiões remotas e sistemas isolados, contribuindo para a geração de energia limpa. Acrescentou que essa tecnologia poderá ter papel estratégico para setores industriais nas próximas décadas e fortalecerá a posição do país na transição energética global, ao mesmo tempo em que promove a modernização do setor nuclear nacional.

Com a assinatura do ReData pelo presidente Lula, o Brasil deve se tornar um local atrativo para a chegada de novos data centers. Com estimativa de investimentos que podem alcançar até 2 trilhões de reais nos próximos dez anos, o ReData propõe ações como redução de tributos, estímulo à fabricação nacional de equipamentos, diretrizes ambientais e expansão da infraestrutura de data centers em diferentes áreas do território nacional. A iniciativa tem como objetivo apoiar o desenvolvimento da soberania digital e ampliar a competitividade da economia brasileira diante de um cenário global cada vez mais pautado pela gestão de dados. Mais data centers significa maior demanda de energia. Como vimos, o Brasil tem o trunfo de uma boa quantidade de energias renováveis em sua matriz, mas será suficiente?

Para Leonam Guimarães, diretor executivo da AMAZUL, a energia nuclear representa uma alternativa viável para o Brasil. Segundo ele, o país já conta com usinas nucleares em funcionamento e dispõe de extensas reservas de urânio, o que contribui para a segurança no abastecimento de combustível. Ele destacou que a energia nuclear é caracterizada por sua firmeza e estabilidade na geração, além de apresentar baixos níveis de emissão de carbono. Essas características tornam essa fonte energética adequada para complementar a matriz elétrica nacional, especialmente em cenários de instabilidade climática, oferecendo maior previsibilidade e resiliência ao sistema.

Já Rafael Narezzi, da Cyber Energia, considera a energia nuclear uma fonte mais estável e equilibrada em comparação com alternativas renováveis como a solar e a eólica, por oferecer geração contínua e prolongada sem depender de tecnologias complementares. No entanto, ele ressalta que essa fonte enfrenta desafios importantes, como o longo tempo e alto custo de construção das usinas, os riscos associados à segurança operacional e a complexidade para ampliar sua capacidade, o que limita sua escalabilidade e aplicação em curto prazo.

Paulo de Godoy, country manager da Pure Storage, observa que, embora o Brasil conte com uma matriz energética majoritariamente renovável, parte dela ainda está sujeita à variabilidade climática. Usinas como Angra 1 e 2 já demonstraram capacidade de contribuir com energia nuclear, e o debate sobre Angra 3 permanece relevante, mesmo com avanços lentos. Em 2025, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) adiou a decisão sobre a retomada das obras, enquanto a Eletronuclear apresentou alternativas de financiamento e revisou a previsão de comissionamento para 2031.

Ele também destaca o avanço internacional dos já citados pequenos reatores modulares (SMRs), que são unidades compactas de fissão nuclear com capacidade de até 300 MW, enquanto os microrreatores operam com até 10 MW. Essas tecnologias oferecem potencial para geração energética mais ágil e escalável. No Brasil, um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), publicado em 2024, aponta perspectivas e desafios para a adoção dos SMRs, indicando que há uma análise técnica e regulatória em curso.

Diante da expectativa de que o consumo global de energia por data centers mais que dobre até 2030, impulsionado pela inteligência artificial, ele ressalta a importância de debater fontes energéticas estáveis e com baixa emissão de carbono para assegurar a segurança energética e a competitividade nacional.

As preocupações sobre a ocorrência de um acidente nuclear existem, evidentemente. Desastres como a explosão de Chernobyl, na Ucrânia, e Fukushima, no Japão, permanecem vivos e mesmo o Brasil já teve seu incidente com material radioativo, o famoso caso do Césio 137 em Goiânia, em 1987, que afetou mais de mil pessoas. Leonam Guimarães alerta que essa fonte energética apresenta riscos e desafios relevantes. A gestão dos resíduos radioativos exige soluções técnicas seguras e de longo prazo, com impacto ambiental controlado. Além disso, é necessário manter padrões rigorosos de segurança operacional para prevenir acidentes e proteger trabalhadores e comunidades. Outro aspecto crítico é a aceitação pública, que pode ser influenciada por preocupações com segurança, impactos ambientais e percepção social sobre a tecnologia nuclear.

A energia nuclear apresenta desafios relevantes, como os elevados custos iniciais, os longos prazos de implantação dos projetos e a complexidade do processo de licenciamento, que demanda articulação entre diferentes entidades reguladoras, diz Paulo de Godoy. Uma abordagem equilibrada pode ser adotada, aliando medidas de eficiência imediata — como o uso de tecnologias de armazenamento all-flash para otimizar o consumo energético — a estratégias de longo prazo que incorporem fontes estáveis e com baixa emissão de carbono. Paulo de Godoy afirma que a energia nuclear pode atuar como um complemento estratégico à matriz energética renovável do Brasil, especialmente diante da expansão prevista do setor de data centers, cuja demanda energética pode alcançar 2,5 GW até 2037. Entre os principais benefícios estão a capacidade de geração contínua, as baixas emissões de carbono e a independência em relação às condições climáticas, fatores que contribuem para maior previsibilidade no atendimento a cargas críticas. Para os data centers, isso representa uma redução no risco de interrupções e maior estabilidade nos custos operacionais, mesmo em períodos de alta demanda.

E isso gera uma nova discussão, a questão da capacidade. O uso da energia nuclear tem seus benefícios e riscos, mas para minimizar os riscos é preciso preparo, domínio técnico e formação. Leonam Guimarães da AMAZUL diz que o Brasil possui uma estrutura consolidada no setor nuclear, com domínio técnico sobre o ciclo do combustível e instituições especializadas. No entanto, para ampliar a participação da energia nuclear na matriz energética, será necessário atualizar o marco regulatório, fortalecer a cadeia de fornecedores nacionais e estimular a entrada de capital privado, especialmente voltado ao desenvolvimento de novos reatores.

Paulo de Godoy, da Pure Storage, avalia que o Brasil já conta com uma estrutura funcional no setor nuclear, evidenciada pela operação de usinas, pela vigência das regulamentações da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e pela integração da energia nuclear à matriz energética nacional. Ele considera esse cenário como parte de um processo em desenvolvimento e aponta que, com planejamento adequado e maior clareza regulatória, o país tem condições de avançar na adoção de tecnologias nucleares, ampliando a oferta de energia estável e com baixa emissão de carbono para segmentos estratégicos, como os data centers.

O consumo de energia dos data centers tem registrado crescimento expressivo, alcançando patamares inéditos nos últimos anos. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), essas instalações consumiram cerca de 460 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2022, com projeções indicando que esse número pode ultrapassar 1.000 TWh até 2026, refletindo uma tendência acelerada de expansão.

Diferentemente de outras indústrias que operam em horários específicos, os data centers funcionam de forma contínua, 24 horas por dia e sete dias por semana, o que exige um fornecimento energético constante, confiável e de alta disponibilidade. Além da operação dos servidores, os sistemas de resfriamento representam uma parcela significativa desse consumo. Estimativas indicam que, em alguns casos, o resfriamento pode responder por 30% a 50% do total de energia utilizada, evidenciando a importância de soluções eficientes para manter a temperatura ideal e garantir o desempenho dos equipamentos.

Tendo isso em mente, a questão do gasto energético dos data centers será cada vez mais crucial nos próximos anos. Leonam Guimarães destaca que o setor de data centers pode se beneficiar da energia nuclear por sua capacidade de fornecer eletricidade de forma contínua, confiável e com baixa emissão de carbono. Essa fonte energética opera 24 horas por dia e oferece estabilidade de preços em contratos de longo prazo, o que é especialmente relevante para operações críticas e de alta demanda. Ele também aponta que projetos com pequenos reatores modulares (SMRs) podem ser considerados próximos a polos de data centers, ampliando a eficiência no fornecimento.

Entre os principais benefícios da energia nuclear, diz Guimarães, estão a segurança energética, a redução de emissões de gases de efeito estufa e a autonomia proporcionada pelas reservas nacionais de urânio.

Paulo de Godoy aponta uma trajetória em duas frentes para o setor energético. No longo prazo, destaca o potencial da energia nuclear — especialmente dos pequenos reatores modulares (SMRs) — como alternativa viável para fornecer energia dedicada e com baixa emissão de carbono. Os SMRs apresentam vantagem em termos de tempo de implantação, podendo ser construídos em cerca de 2 a 3 anos, enquanto usinas convencionais demandam entre 8 e 10 anos, o que os torna atrativos para os próximos ciclos de expansão industrial.

Entretanto, ele ressalta que é necessário agir desde já para enfrentar o crescimento acelerado do consumo de energia. Isso envolve revisar e otimizar todas as etapas da infraestrutura tecnológica — incluindo processamento, redes, sistemas de refrigeração e armazenamento — com foco em eficiência.

Como exemplo prático, o executivo menciona a substituição de discos rígidos (HDDs) por soluções de armazenamento totalmente baseadas em tecnologia flash, que podem reduzir o consumo energético de 5 a 10 vezes, além de oferecer maior confiabilidade por não possuírem partes móveis. Em configurações mais avançadas, como módulos de alta densidade com sistemas otimizados, os ganhos podem atingir até cinco vezes a eficiência dos SSDs convencionais, cerca de 85% de redução nas emissões de carbono e até seis vezes mais confiabilidade operacional.

Tudo isso posto, a energia nuclear pode ser uma alternativa para os data centers. Os especialistas entrevistados para a matéria listaram as possibilidades, benefícios e ganhos do uso desse tipo de energia. O Brasil já tem a capacidade e domínio técnico do uso do combustível nuclear e vive um momento decisivo no setor de data centers. Há riscos e inúmeros cuidados a se tomar, obviamente, mas com o mundo discutindo a redução da utilização de combustíveis fósseis e o crescimento de energias renováveis, é importante que o país participe do debate sobre a energia nuclear.