A expansão acelerada da inteligência artificial está redesenhando o mapa do consumo de energia no Brasil e, por consequência, do mercado de data centers. Essas infraestruturas tornaram-se atores estratégicos em um mercado que movimenta bilhões e pode colocar o país no centro do ecossistema global de infraestrutura digital. Para entender o que está mudando e o que ainda precisa mudar, a DCD conversou com Flávia Fagundes, gerente comercial da Tria Energia, comercializadora do grupo Pátria Investimentos, que, em menos de dois anos de operação, já figura entre as 15 maiores do setor em volume negociado.

A Tria Energia iniciou suas operações em março de 2024, e Flávia chegou ao time em agosto do mesmo ano para estruturar a frente comercial voltada a grandes consumidores. A trajetória dela no setor é longa: começou como estagiária em 2016 na Comerc Energia, onde ficou 4 anos e meio, e passou pela 2W Ecobank por mais 4 anos, acumulando experiência em gestão de consumidores e comercialização no atacado antes de assumir o desafio de construir a área comercial da nova empresa.

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Flávia Fagundes, Tria Energia – LinkedIn

O diferencial que a Tria levou ao mercado desde o início foi claro: o respaldo do Pátria Investimentos, maior fundo de investimentos da América Latina, presente em quatro continentes e com mais de 35 anos de história. “A presença do Pátria na operação traz uma segurança muito grande. A gente acaba tendo uma governança muito bem estruturada internamente, com política de risco, política de crédito, comitê de risco e compliance”, explica Flávia.

Esse posicionamento não é acidental. Flávia aponta que o mercado de fornecimento de energia para grandes consumidores vem se consolidando em torno de contrapartes com solidez financeira comprovada. “A energia pode representar 40% do custo de um data center. Você não pode fazer negociações com uma contraparte de quem você não sabe se daqui a dois anos vai estar em pé”, afirma. O resultado desse posicionamento já é mensurável: em fevereiro de 2026, a Tria entrou no ranking das 15 maiores comercializadoras do país em volume negociado com apenas dois anos de operação.

IA como catalisador: por que os data centers viraram clientes estratégicos de energia

A explosão do uso de inteligência artificial, que vai do ChatGPT ao Gemini, do DeepSeek ao Claude, entre muitas outras aplicações, trouxe uma consequência direta: a demanda por energia elétrica dos data centers cresceu exponencialmente. Para Flávia, não há dúvidas sobre a principal causa desse movimento.

“O maior responsável pelo aumento do consumo e pela expansão dos data centers é a inteligência artificial entrando no nosso dia a dia. Hoje, qualquer pesquisa que você faz, você vai no ChatGPT, no Gemini ou em outra plataforma de IA. Ela já resume tudo num lugar só, em vez de você varrer vários sites diferentes”, analisa a executiva.

Esse consumo crescente tem uma lógica física: data centers operam 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem interrupções. Precisam de resfriamento constante e, portanto, de sistemas de ar-condicionado de alta eficiência que também consomem grandes volumes de energia. A isso somam-se geradores de backup para garantir a continuidade operacional mesmo em caso de falhas na rede. O resultado é uma operação intensiva em energia, em que a previsibilidade de custo deixou de ser desejável para se tornar indispensável.

Contratos de longo prazo: a âncora financeira dos data centers

Diante desse contexto, a melhor estratégia de contratação de energia para data centers é optar por contratos de longo prazo, o que, de fato, os operadores do setor fazem. Os chamados PPAs (Power Purchase Agreements) com duração de 7, 10 ou até 15 anos são o padrão para operações de grande porte, como explica Flávia: “Você nunca vai ver uma empresa com volume muito alto de energia optando por ficar 100% no mercado de curto prazo. O mercado de curto prazo pode custar R$ 90 em um mês e R$ 350 no seguinte. Para uma empresa que consome 50 megawatts médios, a diferença é brutal.

O mercado de curto prazo, explica a executiva, existe como instrumento de ajuste para cobrir excessos ou déficits pontuais de consumo em relação ao volume contratado. O Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que baliza essas operações, tem piso e teto regulatórios, mas sua volatilidade é real e documentada: em 2021, quando o Brasil esteve à beira de um racionamento devido aos baixos níveis dos reservatórios, o PLD chegou a R$ 400-450/MWh.

A estratégia mais comum entre os grandes consumidores, segundo Flávia, é montar um portfólio de contratos: fechar de 50% a 60% da carga em PPAs de 10 a 15 anos e complementar o restante com contratos de 3 a 5 anos. Isso permite aproveitar eventuais quedas de preço no mercado sem renunciar à previsibilidade orçamentária que sustenta todo o planejamento do negócio.

Há ainda um efeito virtuoso nessa dinâmica: contratos de longo prazo com volumes expressivos podem viabilizar o financiamento de novos projetos de geração. “Você consegue financiar a construção de uma usina solar, por exemplo, com base em um contrato de 10 a 15 anos firmado com um data center. Você já tem o comprador, já sabe o preço e o projeto se sustenta”, explica a gerente.

O que os data centers mais valorizam além do preço

Quando o assunto é a escolha de um fornecedor de energia, os operadores de data center têm prioridades bem definidas que vão além da tarifa. Flávia elenca dois fatores como os mais determinantes:

  1. Segurança financeira do fornecedor. Fechar um contrato de 10 ou 15 anos exige confiança de que a contraparte estará em pé no vencimento. A robustez financeira passou a ser um critério eliminatório na qualificação de fornecedores.
  2. Energia renovável. Empresas como Microsoft e Google já sinalizaram publicamente sua preferência por fornecedores que ofereçam energia proveniente de fontes limpas, como eólica, solar, biomassa ou pequenas centrais hidrelétricas. Esse movimento reflete metas globais de descarbonização e critérios de ESG cada vez mais rigorosos.

Um terceiro fator, não diretamente ligado ao fornecedor, mas igualmente crítico, é a qualidade da rede de distribuição: ausência de interrupções, estabilidade na entrega. “Todo data center tem geradores de backup, mas a qualidade do fornecimento de energia da rede é uma preocupação real e constante”, diz Flávia.

13,4 GW até 2038: o Brasil está preparado?

O Ministério de Minas e Energia projeta que a carga instalada de data centers no Brasil pode chegar a 13,4 GW até 2038. É uma cifra que soa ambiciosa e suscita uma pergunta inevitável sobre a capacidade do sistema elétrico nacional de absorver essa demanda. Para Flávia, a geração existe. O problema está em outro elo da cadeia: a transmissão. “O tempo de construção de um data center é muito menor do que o necessário para expandir linhas de transmissão e subestações. Esse é o maior gargalo”, afirma.

O fenômeno do curtailment, em que geradores de energia solar e eólica são instruídos a reduzir ou zerar a geração por falta de capacidade de escoamento, ilustra bem o problema. Há energia no Nordeste que simplesmente não consegue chegar ao Sudeste devido à limitação das linhas de transmissão que interligam os submercados. Além da transmissão, Flávia aponta outros gargalos que precisam ser enfrentados:

  • Uso da água: data centers consomem volumes elevados de água para resfriamento, o que pode gerar conflitos com as comunidades locais e pressionar a estabilidade hídrica regional.
  • Mão de obra especializada: há déficit de profissionais qualificados para operar infraestruturas de missão crítica que combinam engenharia elétrica de alta potência e gestão avançada de TI.

Para a executiva, o maior problema é o data center estar pronto e simplesmente não conseguir fazer a energia chegar. É preciso, diz Flávia, que isso seja resolvido junto ao ONS, com planejamento e investimento em transmissão.

Nordeste em ascensão: o novo polo de data centers do Brasil

Se São Paulo e Rio de Janeiro concentram hoje a maior parte dos data centers brasileiros, o Nordeste emerge como nova fronteira e a lógica é puramente energética. A região tem uma das melhores matrizes de geração eólica e solar do planeta, além de cabos submarinos de fibra óptica de última geração que aterram em Fortaleza, que já se consolida como hub de conectividade.

A diferença de preço entre os submercados reflete essa dinâmica: o Nordeste, com sua supersafra de geração renovável e limitações de transmissão para escoar essa energia ao Sudeste, costuma praticar preços menores, às vezes com um deságio de R$ 20 a R$ 30/MWh em relação ao submercado Sul/Sudeste. Para data centers com metas ambiciosas de descarbonização, essa combinação é difícil de ignorar: energia mais barata, majoritariamente renovável e geograficamente estratégica para conexões com a Europa e os Estados Unidos.

O Brasil como hub global: projeção ou realidade em construção

Para Flávia, o potencial do Brasil como hub regional e até global de data centers é real, mas depende de como o país navegar o momento atual, que ela classifica como o mais crítico da expansão do setor. Os fatores favoráveis são robustos: mais de 80% da energia brasileira provém de fontes renováveis, o que confere um selo verde valorizado pelas big techs globais; o país tem vasta disponibilidade de território e custos de energia competitivos em relação à Europa e a partes dos Estados Unidos; e projeções indicam que o Brasil pode atrair até 33 bilhões de dólares (164,5 bilhões de reais) em investimentos no setor até 2030.

“A gente percebe que o Brasil pode realmente se tornar um ativo estratégico para as big techs. Mas o momento mais crítico é agora: a questão da transmissão e dos volumes de energia já demandados em períodos curtos. Chegar em 2030 ou 2038 com a operação 100% redonda exige que a gente resolva esses gargalos o quanto antes”, diz Flávia.

O papel da Tria: mais do que um fornecedor de energia

A Tria se posiciona como parceira estratégica dos data centers ao longo de toda a jornada energética, não apenas na compra e venda de energia. Isso inclui gestão regulatória e burocrática no ambiente de contratação livre, consultoria estratégica com relatórios e reuniões de alinhamento, operações financeiras estruturadas (crédito, antecipação de recebíveis, swaps temporais e de submercado) e o fornecimento propriamente dito, com ênfase em contratos de longo prazo e em fontes renováveis.

A empresa também está expandindo para além das fronteiras do mercado brasileiro de energia elétrica: abriu recentemente uma mesa de comercialização de açúcar e iniciou operações de trading de energia na Colômbia, aproveitando a presença do Pátria naquele país. “Nossa mensagem é clara: não queremos apenas ser um fornecedor de energia. Queremos oferecer estabilidade, gestão de risco, compromisso com a sustentabilidade e soluções customizadas para os data centers que lideram a revolução da inteligência artificial e do processamento de dados”, resume Flávia.