A proteção de data centers precisa ser planejada desde a concepção do projeto, e não apenas após a entrada em operação, segundo Yuri Romão, CEO da Plury Seguros. Na avaliação do executivo, a expansão acelerada dessas estruturas no Brasil, impulsionada pela inteligência artificial, traz um desafio ainda pouco discutido pelo mercado: como proteger instalações em que uma única falha pode paralisar, ao mesmo tempo, bancos, plataformas de comércio eletrônico, serviços públicos e aplicações de IA.

O ritmo do setor ajuda a dimensionar a questão. De acordo com o Latin America Data Center Report, da consultoria imobiliária global JLL, o Brasil reúne cerca de 48% da capacidade instalada em operação na América Latina e 71% de toda a capacidade em construção na região, como a DCD mostrou ao detalhar o recorde do setor em 2025. A consultoria projeta que o mercado brasileiro dobre de tamanho até 2030, com investimentos estimados em US$ 17,4 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 89 bilhões. Em levantamento mais recente, a JLL também apontou que 2026 deve ser o ano de maior volume de entregas de data centers no país, com 134 MW previstos até dezembro.

Romão explica que essas estruturas sustentam operações financeiras, serviços em nuvem, plataformas de comércio eletrônico, sistemas públicos e aplicações de inteligência artificial. Por esse motivo, segundo ele, proteger um data center não se resume à contratação de uma apólice patrimonial. O executivo defende que é necessário compreender as dependências da operação, identificar vulnerabilidades e combinar coberturas voltadas a riscos físicos, tecnológicos, operacionais e financeiros.

Para os especialistas, a avaliação de riscos deve acompanhar todas as etapas do projeto: a escolha do local, a construção, a contratação de fornecedores, a definição de protocolos de segurança, os planos de contingência e a capacidade de recuperação após incidentes. A recomendação de envolver consultores de risco desde o início também aparece em artigo da Aon, que cita disponibilidade de energia, atrasos na cadeia de suprimentos, incêndios e eventos climáticos entre as principais ameaças. No campo físico, falhas elétricas em instalações de hiperescala figuram entre os eventos com maior potencial de prejuízo.

O mercado segurador começa a responder a essa demanda. Em julho, a Zurich lançou uma solução específica para obras de data centers, com coberturas para falhas de fornecedores de energia e conectividade, atrasos causados por acidentes com equipamentos críticos e problemas em sistemas de climatização. No cenário internacional, porém, seguradoras têm enfrentado dificuldades para acompanhar a escala dos novos campi voltados à IA, que concentram valores bilionários em um único endereço e expõem lacunas como a cobertura de perdas de receita associadas a garantias de disponibilidade.

O impacto financeiro de uma falha ajuda a explicar a preocupação. Segundo o relatório Cost of a Data Breach 2024, produzido pela IBM, o custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$ 6,75 milhões, alta de 9% em relação ao ano anterior. Na edição de 2025 do estudo, o valor subiu para R$ 7,19 milhões. A conta vai além da recuperação dos sistemas e inclui perda de receita, paralisação das atividades, despesas jurídicas, responsabilização perante clientes, danos à reputação e eventuais sanções regulatórias.

Anderson Romani, CEO da Wiz Corporate, avalia que não existe uma solução única aplicável a todos os data centers. Segundo ele, cada operação reúne características, tecnologias, contratos e níveis de exposição distintos. O executivo alerta que a contratação de coberturas sem o conhecimento dessa realidade pode criar uma falsa sensação de proteção e revelar lacunas justamente no momento de uma crise.