A sanção da Lei 15.504/2026, publicada em 15 de setembro, colocou em vigor o ReData. O regime especial de tributação suspende a cobrança de PIS/COFINS, IPI e Imposto de Importação na aquisição de equipamentos para data centers. A renúncia fiscal estimada é de R$ 5,2 bilhões em 2026 e de cerca de R$ 1 bilhão por ano em 2027 e 2028. De acordo com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o país tem 205 data centers em operação, e os pedidos de conexão à rede elétrica somam 38 GW.

Entre as contrapartidas exigidas das empresas habilitadas está um Índice de Eficiência Hídrica (WUE, na sigla em inglês) igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh. O índice deve ser aferido anualmente e publicado em um relatório de sustentabilidade que contenha, no mínimo, esse indicador. O patamar é mais restritivo do que os números divulgados por grandes provedores de nuvem: a AWS informa WUE global de 0,12 L/kWh e a Microsoft, de 0,27 L/kWh, ambos referentes a 2025. Com isso, a eficiência na refrigeração ganha peso nas decisões de investimento em data centers de IA.

O indicador, no entanto, mede o volume de água utilizado, e não sua origem, já que o texto da lei não diferencia água potável de água de reúso. Além disso, a adesão ao regime é opcional. Os data centers da Microsoft em Hortolândia e Sumaré, no interior paulista, utilizam torres de resfriamento evaporativo. Segundo estimativa publicada pela Folha de S.Paulo em março e citada pelo Ministério Público de Contas de São Paulo, as instalações podem consumir até 3,24 milhões de litros de água por dia. A empresa afirma que as torres devem operar apenas cerca de 10% do tempo, quando a temperatura ultrapassar 29,4 °C.

A expansão do setor tende a se concentrar em São Paulo, o que torna a disponibilidade de água uma questão central. O estado reúne quase um terço dos data centers em operação ou em construção no país, segundo levantamento da Agência Pública. Na região de Campinas, municípios como Sumaré têm atraído novos projetos. Em Vinhedo, município que abriga data centers, a população passou a enfrentar rodízio no abastecimento a partir de maio de 2024.

O consumo individual de consultas a ferramentas de IA é baixo. O Google estima que uma mensagem de texto média no Gemini consome 0,26 ml de água. A escala, porém, altera a conta. Em julho de 2025, a OpenAI já informava que havia 2,5 bilhões de mensagens diárias no ChatGPT no mundo. Segundo a empresa, que abriu um escritório em São Paulo em agosto de 2025, os brasileiros enviam atualmente 215 milhões de mensagens por dia.

Um volume diário de 3,24 milhões de litros equivale a cerca de 1,2 bilhão de litros por ano. A quantidade seria suficiente para abastecer aproximadamente 18 mil pessoas, considerando a média nacional de consumo de 175,7 litros por habitante por dia, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SINISA). Caso essa demanda fosse atendida com água de reúso, o mesmo volume de água potável ficaria disponível para o abastecimento público.

O uso de água de reúso no resfriamento de data centers já vem ganhando espaço no mercado brasileiro e no exterior. Nos Estados Unidos, a estação de reúso de Quincy, no estado de Washington, é financiada pela Microsoft. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), isso evita o consumo de cerca de 522 milhões de litros de água potável por ano. Em São Paulo, a Sabesp passou a fornecer água de reúso a um data center em Barueri em 2026.

A Aquapolo, parceria entre a Sabesp e a GS Inima, é o maior empreendimento de produção de água reciclada para uso industrial da América Latina. Com capacidade de produção de 1.000 litros por segundo, a empresa abastece o Polo Petroquímico do ABC desde 2012. Segundo a Aquapolo, a capacidade disponível atualmente seria suficiente para atender pelo menos dez data centers do porte dos projetos da Microsoft.

No exterior, o uso de água já integra a pauta regulatória. Em julho, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, assinou a primeira moratória estadual dos Estados Unidos sobre novos data centers de grande porte. A medida vale por até um ano, enquanto o estado elabora um estudo de impacto ambiental que inclui o consumo de água. Na Califórnia, a cidade de Oakley prorrogou em maio, por mais dez meses e meio, a suspensão de novas autorizações para data centers enquanto define regras próprias.

No Brasil, o governo cria incentivos para atrair investimentos ao setor. Com isso, a capacidade da infraestrutura hídrica de acompanhar essa expansão passa a fazer parte do debate.

Para Márcio José, CEO da Aquapolo, o debate precisa mudar de foco. Segundo ele, a discussão não deveria girar em torno de se os data centers vão consumir água, mas sim de qual água será usada para esse fim. O executivo avalia que o planejamento da infraestrutura necessária à economia digital deve ocorrer simultaneamente ao da infraestrutura hídrica que lhe dará suporte.