A expansão dos data centers no Brasil acentua um desafio que vai além da capacidade de processamento: dissipar o calor gerado pelos servidores sem elevar excessivamente o consumo de energia e de água. Com o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData), que combina incentivos fiscais com contrapartidas ambientais para novos empreendimentos, a eficiência dos sistemas de refrigeração passa a ter peso nas decisões de investimento.
Entre as exigências do regime está um índice de eficiência hídrica (WUE) de, no máximo, 0,05 litro de água por kWh. O limite evidencia os sistemas que recorrem à evaporação da água para dissipar calor, em um momento em que a inteligência artificial eleva a carga térmica dos servidores. De acordo com o Uptime Institute, o rack médio de um data center convencional opera em torno de 8 kW, enquanto os sistemas NVIDIA GB200 NVL72 atingem 125–130 kW, segundo a TrendForce. Como praticamente toda a energia consumida pelos servidores se converte em calor, configurações dessa densidade podem gerar cerca de 16 vezes mais calor por rack.
Para Eládio Pereira, Regional Sales Driver para Compressores Comerciais da Danfoss do Brasil, o ReData transforma a eficiência em condição de entrada no mercado. Na avaliação do executivo, um data center de IA que resolve a questão térmica com consumo excessivo de água ou de energia deixa de fechar a conta nas dimensões fiscal, ambiental e operacional.
As novas exigências chegam em meio a uma fase de expansão acelerada do setor. Levantamento da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield aponta que a capacidade operacional de data centers no eixo São Paulo–Campinas cresceu 91% em um ano, de 346 MW no primeiro semestre de 2025 para 661 MW no mesmo período de 2026. Principal mercado da América Latina, o corredor soma ainda 250 MW em construção e 2.066 MW em projetos planejados, com vacância de 4,1%.
A concretização desse volume depende, entre outros fatores, da disponibilidade de energia, da infraestrutura e do licenciamento. Em escala global, a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que os data centers consumiram 415 TWh em 2024, cerca de 1,5% da eletricidade mundial, e projeta que a demanda mais que dobre até 2030, para perto de 945 TWh, tendo a IA como principal vetor.
O principal indicador acompanhado pelos operadores é o PUE (Power Usage Effectiveness), que mede a relação entre a energia total consumida pelo data center e a energia efetivamente entregue aos equipamentos de TI. Segundo o Uptime Institute, a média global está em 1,56 e praticamente não se alterou nos últimos seis anos. Em algumas instalações, a refrigeração responde por mais da metade do consumo total.
Pelos cálculos apresentados pela Danfoss, em um data center com 100 MW de carga de TI, a redução do PUE de 1,56 para 1,15 representaria cerca de 41 MW a menos de consumo, volume comparável à capacidade de uma usina de médio porte dedicada apenas ao resfriamento de servidores.
É nesse contexto que a companhia posiciona o Turbocor, que descreve como o primeiro compressor centrífugo sem óleo e com mancais magnéticos do setor de climatização. Segundo a fabricante, há mais de 70 mil unidades instaladas no mundo. Por operar sem atrito mecânico e sem óleo, com motor de ímã permanente e ampla faixa de velocidade, o equipamento mantém alta eficiência em carga parcial e, segundo a empresa, não apresenta degradação de desempenho ao longo da vida útil. A linha cobre de 60 a 400 toneladas de refrigeração e já opera com fluidos de ultrabaixo potencial de aquecimento global, como o HFO-1234ze.
Entre os casos citados pela Danfoss estão os data centers da Edged, nos Estados Unidos e na Europa, onde chillers da ThermalWorks equipados com o Turbocor TGS380 dispensam o uso de água no resfriamento e mantêm um PUE médio de 1,15, com redução de 20% a 30% no consumo de energia em comparação com chillers convencionais. Em um campus de tecnologia em San Diego, três chillers de 1.400 toneladas com 21 compressores Turbocor reduziram em 30% o custo anual de energia dos compressores, segundo a empresa.
Eládio avalia que a escolha feita hoje pelo operador no sistema de resfriamento determinará o custo de energia e a licença para operar nos próximos 15 a 20 anos. Para o executivo, a tecnologia sem óleo e com mancais magnéticos deixou de ser um diferencial e passou a ser uma premissa de projeto.
A atuação da Danfoss em data centers abrange outras frentes. Na Equinix, em Amsterdã, cerca de 135 conversores de frequência VLT HVAC Drive controlam bombas e ventiladores do sistema de climatização. Segundo a fabricante, o investimento teve retorno em poucos meses, com foco na redução do PUE.
O segmento já figura entre os vetores de crescimento do grupo. No primeiro semestre de 2026, a Danfoss registrou crescimento orgânico de 15%, com vendas de EUR 5,3 bilhões, e a divisão Climate Solutions teve desempenho impulsionado por data centers e bombas de calor.
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