Enquanto o mercado brasileiro de data centers vive uma onda de anúncios na casa dos gigawatts, a Locaweb segue um caminho próprio: apostar na infraestrutura que já possui para crescer em nuvem. Em entrevista à DCD, Higor Franco, vice-presidente da Locaweb e responsável pela vertical BeOnline e pela vertical SaaS do grupo LWSA, que reúne operações como Locaweb e KingHost, afirmou que manter um data center próprio continua sendo uma vantagem competitiva para a companhia, desde que a conta de custo-benefício permaneça favorável, algo que, segundo ele, é revisado periodicamente.
Com 44 anos e uma trajetória inteiramente construída na área de tecnologia, Franco convive com data centers desde 2003. O executivo passou pelo Unibanco e pela DHC Outsourcing, que mantinha uma pequena operação na região da Vila Funchal, em São Paulo, e foi adquirida pelo UOL em 2008. Dois anos depois, com a compra da Diveo, ele participou da formação da UOL Diveo, que operava um grande data center em Barueri e uma estrutura na Colômbia. Em 2014, assumiu o time de cloud da IBM para a América Latina e, mais tarde, foi para a Dasa, onde ajudou a conduzir o início da transformação digital da empresa de medicina diagnóstica.
O convite para a Locaweb surgiu quando o então diretor-geral, Fernando Cirne, estava a caminho da presidência do grupo. A missão era organizar o portfólio e modernizar a operação para a abertura de capital, que se concretizou em 2020. Desde então, de acordo com Franco, a companhia realizou um follow-on e 23 aquisições, consolidadas ao longo dos últimos anos, para formar a estrutura atual do grupo.
Data center próprio como fator de escala
Fundada em 1998 como empresa de hospedagem, a Locaweb mantém operação própria na Rua Itapaiúna, na zona sul de São Paulo, nas proximidades da ponte de mesmo nome, no complexo onde funcionou a antiga Philips. Segundo Franco, a instalação foi construída entre 2008 e 2010 já com conceito de alta densidade e padrões inspirados em projetos do Japão e dos Estados Unidos, o que permite que o site atenda com folga às exigências atuais.
O executivo explicou que o pioneirismo da empresa, que, segundo ele, concentra quase um quarto da internet brasileira, se traduz em vantagens em pontos de troca de tráfego, volume de servidores e ganhos de escala. Como outras empresas do grupo também estão hospedadas no mesmo data center, o custo operacional é diluído. Na comparação do custo unitário por cliente com o de um data center de terceiros, segundo Franco, ter a estrutura própria ainda compensa bastante.
A Locaweb tem planos de investimento para a expansão de produtos e ofertas, com execução prevista para o fim de 2026 e, principalmente, para 2027. Mesmo assim, conforme o vice-presidente, a planta atual absorve esse crescimento sem grandes investimentos em facilities e ainda dispõe de margem para ampliar a capacidade energética, já que a instalação conta com equipamentos preparados para um consumo maior. Ele ressaltou, porém, que a empresa não planeja movimentos de expansão em escala de gigawatts, como os que vêm sendo anunciados por grandes operadores, a exemplo do hub da ByteDance no Complexo do Pecém, no Ceará.
Sobre o Nordeste, que vem ganhando relevância com novos investimentos em Fortaleza, cidade apontada pelo Banco Mundial como principal hub de cabos submarinos da América Latina, Franco afirmou que a Locaweb acompanha a região de perto, mas não tem planos concretos de expansão no momento. Para ele, ainda há crescimento a ser capturado no Sudeste e no Sul. O executivo lembrou que, por se tratar de uma companhia de capital aberto, é preciso cautela ao comentar sobre planos futuros.
Por que o Brasil concentra os investimentos
O Brasil responde por 48% da capacidade em operação e por 71% da capacidade em construção na América Latina, segundo a JLL. Para Franco, o ciclo se explica por um conjunto de vantagens estruturais: a infraestrutura do país, sem paralelo na região; uma matriz energética barata; a disponibilidade de mão de obra qualificada, sustentada por universidades de ponta; e o peso da economia brasileira, que funciona como centro de gravidade da demanda. Na visão do executivo, a combinação desses fatores forma um círculo virtuoso que atrai investimentos quase por inércia.
A esse cenário, segundo ele, somam-se incentivos recentes, como o ReData, e forças de mercado, como a necessidade de processamento local de modelos de inteligência artificial de código aberto, que reforçam a atratividade do país para cargas de trabalho processadas no território nacional.
Energia: custo direto e sem margem de otimização
Com os pedidos de conexão de data centers à rede somando dezenas de gigawatts e o acesso à Rede Básica disputado no mercado paulista, Franco afirmou que a energia já pesa sobre os custos dos operadores. O executivo citou o aumento da tarifa, já contratado para 2027, como um problema concreto, com potencial para anular parte dos benefícios dos incentivos do governo.
Segundo ele, a energia é um insumo especialmente problemático porque, ao contrário dos equipamentos, não permite ganhos de eficiência por meio de otimização de software ou de reaproveitamento. Trata-se, nas palavras do executivo, de um custo direto que acaba sendo repassado.
Questionado sobre a resistência de comunidades à instalação de data centers, observada nos Estados Unidos e em debates no Rio Grande do Sul em torno de projetos como a Scala AI City, em Eldorado do Sul, Franco avaliou que o setor ainda comunica mal o tema. Ele ponderou que a percepção negativa tem origem em gerações anteriores de instalações que emitiam ruído, fumaça e vapores, degradando o entorno. As estruturas atuais, segundo o executivo, mitigam esses efeitos em muito maior medida.
Como exemplo, Franco citou a própria experiência como vizinho de um campus da Scala Data Centers em Tamboré, em Barueri, que, segundo ele, não causa incômodo algum e representa um caso de boa convivência com a comunidade. Para o vice-presidente, quando há comunicação adequada, geração de empregos e impacto social positivo, os benefícios superam os riscos, embora aspectos como o armazenamento de combustíveis e a prevenção de incêndios precisem ser observados.
ReData como acelerador da nuvem nacional
Sancionado em setembro, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData) é visto pela Locaweb como um grande acelerador. Na avaliação de Franco, o programa ajuda a equiparar a competição com players internacionais ao corrigir o que faltava ao país: a capacidade de comprar, de forma competitiva, equipamentos que não são fabricados localmente. O executivo afirmou que a empresa pretende aproveitar o regime no próximo ano para acelerar a inovação em seu produto de nuvem.
Dados do Ministério da Fazenda indicam que cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas fora do país. Franco disse ter convicção de que o ReData vai estimular a vinda desses workloads para o Brasil. Segundo ele, cerca de metade das médias e grandes empresas processa algo em nuvem, enquanto, entre as pequenas e médias, público central da Locaweb, esse índice cai para 36%, o que revela um espaço de crescimento que o executivo classificou como enorme.
No caso da inteligência artificial, Franco relatou que empresas de diversos portes já demonstram interesse em realizar inferência localmente, motivadas pelo controle dos dados, pela menor latência, pelo faturamento em reais e pela possibilidade de ajustar modelos com dados próprios. Além do preço, pesa o desejo de não ficar sujeito às legislações dos Estados Unidos, da Europa ou de outras jurisdições, preocupação ligada à soberania de dados que, segundo ele, está cada vez mais presente na fala dos clientes. Para o executivo, o ReData adiciona combustível a esse movimento ao tornar o preço ainda mais atrativo.
Preços estáveis e pressão do hardware
Sobre a trajetória dos preços de nuvem, Franco projeta estabilização no longo prazo. Ele explicou que, embora as APIs de IA estejam ficando mais baratas, os modelos exigem cada vez mais poder de processamento. Na prática, afirma o executivo, as empresas passaram a consumir menos infraestrutura como serviço (IaaS) tradicional e mais IA, de modo que o custo médio da infraestrutura tende a permanecer estagnado.
Esse cenário, no entanto, depende de dois fatores: novos aumentos de energia, que desorganizariam a base de custos dos operadores, e o comportamento do hardware, cujos preços subiram de forma expressiva nos últimos meses e, segundo Franco, ainda não pararam de subir. Por isso, ele classificou a estabilização como um cenário otimista.
Fim da exposição ao dólar e fatura simplificada
Para o executivo, a exposição ao dólar ainda trava a adoção de nuvem pelas PMEs por dois motivos: a volatilidade cambial, que faz a cotação oscilar de um dia para o outro, e as mudanças nas alíquotas de IOF, que acrescentam incerteza tributária. Somam-se a isso as dificuldades de pagamento em moeda estrangeira no cartão de crédito. A cobrança em reais, segundo Franco, elimina esses problemas.
Outro diferencial apontado é a simplicidade da fatura. Enquanto diversos provedores cobram separadamente por tráfego de entrada e de saída e por operações de I/O, a Locaweb Cloud cobra apenas por três componentes: máquina, IP público consumido e snapshot de disco por dia, o que torna o consumo mais fácil de entender.
Locaweb Cloud: de produto interno a aposta de mercado
A Locaweb Cloud nasceu da necessidade de modernizar a nuvem interna da empresa. Após avaliar alternativas, a equipe optou pelo Apache CloudStack, uma plataforma open source amplamente difundida, e passou cerca de dois anos desenvolvendo a solução. De acordo com Franco, o processo envolveu muito aprendizado até que a plataforma se estabilizasse sob a carga da própria Locaweb, que atende cerca de 350 mil clientes.
A partir daí, a adoção pelas demais empresas do grupo — várias delas clientes da AWS e do Google Cloud — ocorreu de forma orgânica, depois que os preços unitários foram apresentados em reuniões internas e os CTOs de cada operação pediram para testar a plataforma. O caso mais emblemático, segundo o executivo, é o da Tray, que migrou há cerca de um ano e meio, atravessou duas Black Fridays na nova estrutura, com ajustes após a primeira, e hoje opera 100% de suas cargas na nuvem da Locaweb. Outras empresas do grupo seguem migrando gradualmente os workloads que ainda estão em hiperescalas.
A economia observada, segundo Franco, varia entre 40% e 70% em relação aos provedores globais. Ele reconheceu que a plataforma não oferece recursos sofisticados dos hiperescalas, como modelos de IA gerenciados ou serverless, mas afirmou que, no segmento de IaaS, o desempenho tem sido muito bom.
Lançada ao mercado em março, em soft launch, e liberada amplamente em abril, a Locaweb Cloud tinha a meta de chegar a 1.800 clientes e a mais de 2 mil projetos até o fim de 2026. Franco disse que a empresa ainda não atingiu esses números, que não são divulgados, mas que avança bem em relação à meta, com o volume mensal de novos clientes quase dobrando.
O produto foi lançado com foco no público que a empresa chama de varejo, isto é, desenvolvedores e pequenas empresas com projetos de poucas máquinas. Agora, a Locaweb estrutura uma frente para projetos maiores e de missão crítica. Para isso, a plataforma conta com duas zonas de disponibilidade totalmente replicadas, no data center da Itapaiúna e no Equinix SP4, em Barueri, permitindo arquiteturas ativas-ativas ou de recuperação de desastres (DR).
Insegurança jurídica é o maior risco
Questionado sobre o principal risco para que a expansão dos data centers no Brasil se traduza em uma nuvem mais acessível, Franco apontou o ambiente regulatório e a incerteza jurídica. O cenário macroeconômico também preocupa, embora, segundo ele, executivos e empreendedores brasileiros tenham se acostumado a lidar com essas variáveis, o que não as torna menos relevantes.
Para o vice-presidente, o caminho é continuar fortalecendo a capacidade das empresas brasileiras de competir e de atender à demanda interna já existente. Ele se declarou entusiasta do país e afirmou que, sem insegurança jurídica e outras travas, o Brasil tem talentos e potencial de sobra para aproveitar esse momento.
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