A Eletronet, empresa de telecomunicações e TI controlada pela Axia Energia, passou a oferecer uma nova versão de seu serviço de transporte de dados, agora com criptografia pós-quântica, também chamada de quantum safe. De acordo com Cassio Ricardo Lehmann, Chief Revenue Officer (CRO) da companhia, em entrevista ao portal TI Inside, a proposta é proteger os sistemas de comunicação diretamente na camada 1, a camada física e óptica da rede, e não apenas nas camadas superiores, a partir da camada 3, onde costuma se concentrar a atenção das empresas.

Lehmann avalia que, com o lançamento, a companhia se antecipa ao próprio mercado brasileiro. Segundo ele, a iniciativa surgiu durante visitas a parceiros, fornecedores, fabricantes internacionais e laboratórios de pesquisa e desenvolvimento no exterior, onde a empresa conheceu a tecnologia e identificou o potencial de trazê-la ao país.

O executivo relata que, na Europa, a comercialização de serviços de transporte no nível óptico com criptografia quantum safe já é uma realidade. A leitura desse mercado ganhou força com a recente inauguração do primeiro Ponto de Presença (PoP) da Eletronet no continente, em Lisboa. Para Lehmann, mercados globais mais maduros já demandam esse tipo de solução em segmentos específicos, e a tendência é que a procura também apareça no Brasil, onde, segundo ele, os primeiros sinais já começam a ser percebidos.

O CRO acrescenta que o cenário geopolítico torna a proteção de dados cada vez mais relevante e que o Brasil vem se consolidando como polo digital na América Latina e no continente americano como um todo. Por isso, a empresa decidiu antecipar o lançamento para estar preparada quando a demanda se materializar.

O foco inicial está em hiperescalas, no governo e no setor bancário, além de instituições de pesquisa e desenvolvimento. No caso dos bancos, Lehmann lembra que, em países mais maduros, essas instituições já concentram uma parte relevante da procura por tecnologia. No Brasil, o setor financeiro também tem avançado no tema, como mostra a iniciativa do Bradesco com a IBM em criptografia pós-quântica.

A camada esquecida

Para Lehmann, quanto mais as telecomunicações e o ambiente digital evoluem, mais expostos ficam a ameaças capazes de atingir diferentes camadas da infraestrutura. Ainda assim, ele observa que a camada óptica, considerada a proteção mais básica, é pouco discutida e frequentemente negligenciada nas estratégias de segurança.

O executivo conta que, em conversa com parceiros que desenvolvem a tecnologia, conheceu um dispositivo que, acoplado à fibra e capaz de curvá-la, permite acessar o sinal que nela trafega. Ele pondera que esse tipo de técnica não é novo e que o exemplo ilustra como as empresas concentram esforços em estruturas como centros de operações de segurança (SOC) e na mitigação de ataques DDoS, mas, por vezes, esquecem a base física da rede.

Diante desse cenário, a estratégia da Eletronet não se limita a esperar a demanda, mas também a provocar o mercado. Segundo Lehmann, o produto tem sido apresentado em reuniões com clientes, e parte deles admite nunca ter considerado o tema. Mesmo quando a operadora não atende diretamente aos segmentos-alvo, seus clientes os atendem, o que, na visão do executivo, tende a gerar um efeito em cascata na adoção da solução.

O CRO ressalta ainda que a computação quântica também pode ser usada de forma maliciosa, já que é justamente ela que tem potencial para quebrar os padrões de criptografia atuais. Por isso, o posicionamento da companhia neste momento está centrado na segurança, com o objetivo de proteger os clientes contra ataques que envolvam soluções quânticas. O uso da computação quântica para outras finalidades ainda não está nos planos da empresa, que prefere avançar um passo de cada vez.

Expansão da rede e ReData

Em uma perspectiva mais ampla, Lehmann afirma que a Eletronet mantém um posicionamento voltado à inovação e à expansão. A companhia prevê adicionar 8 mil quilômetros de rede até dezembro, além de 85 novos Edge Data Centers, totalizando 26 mil quilômetros de fibra e 255 Edge Data Centers. O movimento integra o plano de investimento de R$ 157 milhões anunciado pela empresa, que prevê a instalação de cabos OPGW (Optical Ground Wire) no topo das torres de transmissão de energia.

A operadora também vem ampliando a integração direta com data centers, como as conexões com o complexo da Ascenty e o acordo para ancorar no Recife1, da Atlantic Data Centers.

Segundo o executivo, o volume de investimentos reflete a confiança no potencial do Brasil como polo digital, desde que haja oferta e demanda. Ele argumenta que o país reúne condições para se tornar um grande ímã para a expansão global de data centers: energia limpa a um custo competitivo, baixa incidência de desastres naturais, uma rede elétrica robusta, operadoras de telecomunicações bem conectadas e quase 20 cabos submarinos que chegam ao território nacional, o que evidencia a conectividade global do país. O tema, aliás, tem ganhado peso estratégico, como discute esse artigo sobre a nova geografia digital dos cabos submarinos.

Somam-se a esses fatores a aprovação do ReData, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, que, segundo Lehmann, cria um ambiente favorável ao crescimento do setor no país. Ele afirma que a rede da Eletronet foi construída para suportar essa nova onda de data centers e que o Brasil tem condições de se tornar um ponto de atenção global na economia digital.

O executivo destaca que a infraestrutura da companhia combina alta resiliência, baixíssima latência e elevada escalabilidade, atributos que, segundo ele, são exigidos pelos hiperescalas para expandir data centers em qualquer lugar do mundo. Com a rede OPGW, equipamentos de última geração e, agora, a camada quantum safe, a Eletronet considera estar preparada para esse cenário, conclui.