Depois de seis anos e meio à frente da área comercial da Skyone, Roberto Arruda assumiu uma função que, segundo ele, nasceu de uma constatação do comitê executivo da empresa: a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de transformação e passou a ser o motor da transformação do próprio negócio. Antes Chief Revenue Officer, responsável pela receita da companhia, o executivo agora ocupa o cargo de Chief Evangelist Officer (CEvO), com a missão de estar onde as mudanças acontecem, ao lado de clientes, parceiros e executivos de tecnologia e de negócios, e trazer esse aprendizado de volta à empresa.

Arruda Nova
Roberto Arruda, Chief Evangelist Officer (CEvO) da Skyone – Divulgação

Em entrevista à DCD, Arruda falou sobre o papel do líder de tecnologia diante da inteligência artificial, a governança e a soberania de dados, a relação da Skyone com os hiperescalas, a aquisição da Add IT e o que, em sua visão, vem pela frente para as áreas de TI das empresas. O fio condutor de todas as respostas foi o mesmo: sem dados organizados, governança e visibilidade, a IA corporativa dificilmente gera valor.

Da reserva de mercado à nuvem

Engenheiro de formação, Arruda construiu uma carreira técnica que começou nos anos 1990, no fim da reserva de mercado na informática no Brasil. Ele lembrou que, naquele momento, apenas empresas brasileiras produziam tecnologia no país e que as multinacionais levaram alguns anos para entender o mercado local antes de começarem a contratar profissionais locais.

Depois de iniciar a trajetória em uma empresa nacional, ele migrou para multinacionais de infraestrutura, começando pela canadense Nortel Networks e passando por empresas como Cisco Systems, Juniper Networks e Brocade. O foco, nesse período, era apoiar empresas que estavam montando suas infraestruturas para o tráfego de dados da internet, que então despontava. Segundo o executivo, esse contato com a indústria global despertou nele o hábito do aprendizado contínuo.

Mais tarde, Arruda decidiu voltar a empresas brasileiras, por entender que poderia contribuir com o conhecimento acumulado nas multinacionais. Ele chegou à Skyone em março de 2020, pouco antes da pandemia de Covid-19. Com o isolamento, a demanda por conectividade e por acesso remoto aos sistemas corporativos explodiu, já que muitos profissionais passaram a trabalhar da mesa da cozinha.

De responsável pela receita a evangelista

A mudança de cargo, de acordo com Arruda, vai além do nome. Desde o início de 2026, a Skyone passou a entender que o uso da tecnologia pelas empresas para construir infraestrutura, modernizar aplicações e garantir a continuidade do negócio havia mudado de natureza. A tecnologia, que até então viabilizava sobretudo a automação, passou a viabilizar novos modelos de negócio.

Diante disso, o comitê executivo decidiu que ele deveria atuar mais próximo dos clientes e do ecossistema, ouvindo o mercado e acompanhando os executivos na condução dessa transformação. Parte do trabalho é retroalimentar a própria Skyone com essas informações, inclusive o novo Chief Revenue Officer da companhia.

Para o executivo, a humanidade vive, possivelmente pela primeira vez, um momento em que a tecnologia amplia a própria capacidade humana, oferecendo insights que uma pessoa sozinha não teria ou levaria muito tempo para obter. Esse ganho vem da capacidade computacional quase infinita proporcionada pela combinação de dados e IA. Seu papel, explicou, será ajudar os líderes a enxergar o que já não conseguem ver e a perceber as mudanças que a inteligência artificial está provocando em suas próprias organizações.

O CIO diante de uma ruptura

Arruda dividiu a relação entre tecnologia e negócio em duas fases. A primeira foi a da transformação digital, quando o executivo de tecnologia se aproximou das áreas de negócio e passou a servi-las com ferramentas, painéis e soluções de apoio à decisão voltadas à eficiência e à produtividade. A segunda, que começa agora, é marcada por uma velocidade de mudança tão grande que, na avaliação dele, já não se trata de transformação, mas de ruptura.

Nesse novo cenário, as áreas de negócio, que detêm o conhecimento sobre suas próprias necessidades, querem respostas mais rápidas. E, com a simplificação da tecnologia, passaram a construir seus próprios sistemas e agentes de IA, ou a adotar agentes prontos para resolver problemas do dia a dia. O vibe coding lembrou o executivo, já está na mesa dos líderes de negócio e os agentes de IA já circulam pelas organizações.

O papel do CIO, portanto, ficou mais amplo. Além de continuar responsável pela modernização das aplicações e pela continuidade do negócio, ele precisa dar visibilidade à organização sobre o que está sendo produzido e, mais do que isso, garantir a veracidade dessas informações. Sem governança alinhada à estratégia, alertou Arruda, áreas diferentes de uma mesma empresa podem desenvolver soluções duplicadas ou desconectadas dos objetivos do negócio. As perguntas centrais passam a ser com que risco, com que custo e com que alinhamento estratégico essas iniciativas estão sendo conduzidas. Segundo ele, os executivos de tecnologia estão, sim, enfrentando muita dificuldade para acompanhar esse ritmo.

O conhecimento que sai pela porta

Para ilustrar o que considera o maior risco desse momento, Arruda descreveu um caso hipotético. Uma empresa distribui licenças de modelos e agentes de IA para a área de negócios. Um colaborador passa a usá-los intensamente, consumindo créditos, até receber uma proposta de emprego e deixar a companhia. Na entrevista de desligamento, ao ser questionado sobre o que produziu com a IA, respondeu que nada de especial; a ferramenta apenas o ajudou no dia a dia.

O problema, explicou, é que todo o contexto e o aprendizado que esse profissional inseriu nos modelos ao longo do tempo se perdem com a saída dele. Cabe à área de tecnologia perceber essa mudança cultural, integrar as pessoas à nova realidade e aplicar metodologias de gestão do conhecimento e de gestão da mudança para reter, da organização, o que está sendo aprendido com o uso da IA. Para o executivo, esse é hoje o principal desafio das áreas de TI.

Soberania e rastreabilidade dos dados

A soberania de dados ganhou espaço no debate do setor nos últimos meses, impulsionada pela LGPD, pelas discussões sobre o marco regulatório da inteligência artificial e pela sanção do ReData, regime especial de tributação voltado a data centers no Brasil.

Ao ser questionado se a soberania de dados já aparece como exigência explícita nas negociações, Arruda ponderou que a resposta depende do segmento e da maturidade de cada empresa. Setores mais regulados e companhias que têm segurança e conformidade na pauta já tratam o tema como prioridade máxima, mas esse grau de maturidade ainda não é uniforme no mercado.

Do lado da Skyone, afirmou, a preocupação é garantir que toda a jornada de nuvem, dados e IA seja governada. A empresa coloca os clientes brasileiros em regiões no Brasil para assegurar que os dados permaneçam no país e oferece, em sua plataforma, recursos de monitoramento, auditoria e visibilidade sobre tudo o que trafega no ambiente. Para o executivo, mais importante do que a localização física é a previsibilidade: saber como os dados circulam, quem os consome, de que forma e quem os produz.

Arruda citou um exemplo do cotidiano para ilustrar a importância dessa rastreabilidade. Com a simplificação da tecnologia, um colaborador pode, de forma inocente, fotografar uma informação estratégica da empresa e enviá-la a um modelo de IA, sem ter consciência dos riscos. Sem uma plataforma de auditoria que mostre a origem do dado, seu uso e sua autoria, disse ele, não há como apoiar o gestor de tecnologia. O papel da Skyone é garantir que a jornada aconteça e que o faça de forma segura.

Hiperescalas como vantagem, não limitação

A Skyone se posiciona como uma camada de integração e governança sobre nuvens públicas globais, como AWS, Microsoft Azure e Google Cloud. Perguntado se esse modelo representa uma limitação à soberania e à jurisdição sobre os dados, Arruda foi enfático ao afirmar que se trata de uma vantagem estratégica. Segundo ele, a empresa está presente em 39 países, com clientes no Japão, na África do Sul e no Oriente Médio, e consegue posicionar cada cliente em sua respectiva região e país.

O executivo afirmou que o objetivo da Skyone é compreender a necessidade do cliente, e não atuar como mera representante de um hiperescala ou de uma tecnologia específica. A meta, disse, é encurtar o ciclo de adoção tecnológica. Ele lembrou que, há 13 anos, a companhia identificou que o acesso aos sistemas era um ponto de fricção e criou uma plataforma em nuvem para orquestrá-los e migrá-los com eficiência de custos, oferecendo previsibilidade e cobrança em reais numa época em que os grandes provedores de nuvem ainda nem tinham chegado ao Brasil.

Desde então, a empresa ampliou o portfólio para incluir a integração de sistemas, que, segundo Arruda, continua sendo uma das maiores barreiras à eficiência das empresas. Os silos persistem e tendem a crescer sob a pressão por decisões rápidas. Normalizar dados — garantir, por exemplo, que “Roberto Arruda” e “Roberto Arruda Silva” sejam reconhecidos como a mesma pessoa — é parte desse trabalho, que depois evoluiu para a organização de dados, a construção de agentes de IA, o desenvolvimento de aplicações via vibe coding e, mais recentemente, para uma plataforma de visibilidade sobre agentes e modelos dentro das organizações.

A pressa pela IA e o retorno que não vem

Questionado sobre os levantamentos que mostram que a maior parte dos investimentos em IA ainda não gerou retorno, Arruda avaliou que muitas empresas adotaram agentes de inteligência artificial para parecerem modernas ou para acompanhar uma tendência, sem cuidar de sua jornada na nuvem e de seus dados. Na visão dele, essa pressa ajuda a explicar por que tantos projetos ainda não deram resultado.

Por outro lado, ele observou que as companhias mais maduras já entenderam que seus dois maiores ativos são os dados e as pessoas. Essas empresas organizam seus dados para que possam ser consumidos de forma rápida e próximos ao negócio e oferecem aos colaboradores a possibilidade de construir agentes que funcionam como verdadeiros parceiros de trabalho. Isso cria um paradoxo para a liderança, que agora precisa gerenciar não apenas pessoas, mas também agentes de IA e robôs.

Para Arruda, essa jornada tem alguns pilares: conscientização e letramento em IA e em dados; construção de comunidades internas, nas quais as pessoas aprendem fazendo e trocando experiências; uma arquitetura escalável e segura, em vez da simples adoção de ferramentas; e, por fim, governança, com visibilidade e garantia de que o que é produzido pertence, de fato, à organização.

O executivo destacou ainda o conceito de contexto como um ativo estratégico. Um profissional com dez ou quinze anos de casa alimenta os modelos com tudo o que aprendeu, mas esse estoque de conhecimento se esgota. Se a empresa não se preocupar em cultivar um novo contexto, perde justamente o que tem de mais valioso. Segundo ele, as lideranças já distribuíram agentes e, nas empresas mais maduras, investiram na organização dos dados, mas ainda não aprenderam a construir o contexto que será usado no futuro para gerar valor.

A cultura organizacional também precisa se adaptar, ressaltou. Não em princípios e valores como ética e diversidade, que considera inegociáveis, mas na capacidade de absorver mudanças. Arruda recordou que, no início da carreira, se atualizava duas vezes por dia: com o jornal pela manhã e com o telejornal à noite. Hoje, as novidades surgem a cada minuto. Tecnologias de infraestrutura que antes levavam décadas para serem adotadas deram lugar a inovações absorvidas em velocidade muito maior, e aprender nesse ritmo é, para ele, o grande desafio das lideranças atuais.

Do “por onde começar” ao “como governar”

Arruda comentou a pesquisa realizada pela Skyone com a MIT Technology Review Brasil, segundo a qual 99% das empresas veem a IA como estratégica, mas 57% não têm orçamento estruturado para a tecnologia. De acordo com o executivo, o perfil das conversas com clientes mudou nos últimos meses. Antes, a pergunta mais comum era por onde começar. Agora, os clientes procuram a Skyone para governar ambientes de IA já em operação.

Ele relatou que já vê empresas incluindo em seus orçamentos créditos para o consumo de modelos de IA, algo que, admitiu, soa quase absurdo, já que o valor é reservado sem que se saiba exatamente como será utilizado. Isso acontece porque o uso de modelos e agentes já se espalhou pelas organizações, e as áreas de negócio pedem cada vez mais créditos à TI. O resultado é um ambiente que começa a sair do controle, sem clareza sobre para onde vai o dinheiro e o que está sendo produzido. Antes da governança, ressalvou, é preciso uma arquitetura escalável e segura; mas é a necessidade de visibilidade que hoje leva os clientes até a empresa.

Como vender organização de dados a quem quer resultado

Sobre o desafio comercial de oferecer organização de dados a clientes que, muitas vezes, querem apenas os resultados da IA, Arruda afirmou que tudo depende da maturidade de cada empresa. Se há ao menos uma área com dados minimamente organizados, ou uma necessidade de negócio muito clara, é possível adotar um agente de IA específico para resolvê-la.

O importante, segundo ele, é que a decisão seja motivada por uma necessidade real, que gere valor, e não por modismo ou porque os concorrentes estão fazendo o mesmo. E que a empresa não perca de vista a importância de uma arquitetura capaz de acompanhar a adoção de novos agentes e o número crescente de colaboradores que utilizam a tecnologia. O objetivo, resumiu, é que as organizações sejam “people first, AI first”: que usem a IA para ampliar a capacidade das pessoas.

Add IT e a volta da infraestrutura física

Em junho, a Skyone anunciou a aquisição da Add IT, empresa paulistana fundada em 2001, especializada em nuvem privada para pequenas e médias empresas e com operações em data centers Tier III. A transação foi a maior da história da companhia e a primeira desde a rodada Série C, liderada pela gestora Advent International, no fim de 2025.

Perguntado se a compra significa que a nuvem privada volta a ganhar espaço nas conversas comerciais, inclusive com clientes 100% na nuvem pública, Arruda evitou escolher uma tecnologia. Para a Skyone, o que importa é atender às necessidades dos clientes com inovação, e a escolha entre ambientes depende de cada caso, desde que tudo esteja dentro de uma arquitetura escalável e segura, apoiada em uma plataforma.

Ele explicou que, para a empresa, aquisições significam integrar pessoas, conhecimento e relações de confiança. A Add IT, segundo o executivo, tinha uma carteira de clientes que não só confiava na companhia, mas também via em seu conhecimento técnico um diferencial para o próprio negócio, além de uma cultura semelhante à da Skyone, voltada a resolver as necessidades dos clientes. Arruda reforçou que a Skyone não acredita na multiplicação de ferramentas, mas sim em uma plataforma única que simplifique o uso da tecnologia.

Passados alguns meses da operação, o executivo avalia que os clientes da Add IT, historicamente muito atentos à continuidade dos negócios, receberam bem a capacidade de inovação da Skyone. Na leitura dele, esses clientes passaram de um ambiente centrado na modernização de aplicações e na continuidade para um ambiente de transformação do negócio, sem precisar buscar novos parceiros e mantendo uma relação já estabelecida.

Setor público via parceiros

Sobre o setor público, Arruda destacou que o governo brasileiro investiu bastante em tecnologia nos últimos anos e que o país se destaca pela quantidade de serviços digitais. Como o interesse da Skyone é resolver necessidades, disse, o segmento é uma opção para a empresa. Hoje, a companhia já atende a algumas organizações públicas por meio de parceiros e integradores que agregam valor às suas soluções e pretende expandir essa atuação.

Times de vendas por perfil de cliente

Para explicar o ritmo de crescimento da Skyone, Arruda apontou a estratégia comercial que ajudou a construí-lo quando era responsável pela receita. A empresa montou equipes de vendas específicas para cada perfil ideal de cliente (ICP, na sigla em inglês), já que as necessidades de um usuário de ERP como o SAP são diferentes das de um integrador de sistemas, de uma fábrica de software ou de uma grande companhia do varejo atacadista. Hoje, segundo ele, são mais de dez times de vendas distintos, o que dá à empresa escala e respostas mais rápidas.

Na avaliação do executivo, o mercado ainda está longe de se consolidar. Nuvem, dados e IA devem crescer muito, e novos players continuarão surgindo. A Skyone construiu, nos últimos 13 anos, uma posição de liderança, passando da inovação contínua do Skyone Autosky, plataforma de orquestração multicloud, ao Skyone Studio, voltado a dados e IA, que, neste ano, ganhou o Vertical AI, ecossistema de agentes especializados por função e setor, e o Skyone Creator, solução de vibe coding corporativo. Com mais de 25 mil clientes, a companhia sempre contou com fundos de investimento como sócios, e a chegada da Advent, segundo Arruda, mostra que a empresa está no caminho certo.

Liderar o invisível

Ao projetar o futuro, Arruda afirmou acreditar que as áreas de negócio vão se tornar, elas mesmas, entidades de tecnologia. Ninguém conhece melhor suas necessidades do que elas mesmas, e a simplificação da construção de sistemas, da integração e do consumo de dados vai colocá-las na liderança no uso da tecnologia. Um analista de logística, por exemplo, não tem formação em engenharia de sistemas e continuará precisando de apoio técnico, mas será ele quem buscará a solução para seu problema.

Isso não significa, ressaltou, que profissionais formados em ciência da computação ou em engenharia vão perder importância. Alguém continuará garantindo a continuidade do negócio, evitando que as empresas se tornem silos de dados, governando o uso de tecnologia e modernizando aplicações. Mas o papel das áreas de TI será redefinido, talvez, arriscou, até com outro nome. É por isso, explicou, que a Skyone tem investido em funcionalidades que simplificam o uso de suas plataformas e oferecem governança e visibilidade.

Para ilustrar a ideia, o executivo lembrou que, antigamente, era comum pedir a senha do Wi-Fi ao visitar um cliente; hoje, o 5G costuma bastar para uma videoconferência. Da mesma forma, os pontos de acesso que antes eram visíveis nos escritórios praticamente desapareceram. A jornada de nuvem, dados e IA, segundo ele, segue o mesmo caminho, e caberá às lideranças aprender a conduzir o que já não se vê.