A popularização da inteligência artificial generativa permite que profissionais de diferentes áreas criem automações, aplicativos, painéis e integrações nas empresas. Boa parte desse movimento, porém, ocorre fora dos processos formais de tecnologia e sem regras claras sobre quais dados corporativos podem circular nessas ferramentas. É o que mostra o Panorama Vibe Coding Brasil, pesquisa da Skyone, empresa brasileira de cloud, dados, IA e cibersegurança, em parceria com o Grupo TNS. Os resultados foram apresentados na terça-feira, 06 de outubro, em evento na sede da Skyone, em São Paulo.
Dos 1.971 participantes, 50% afirmam que eles próprios ou suas empresas já desenvolveram uma solução desse tipo sem um projeto formal de TI. O movimento é recente: 43% da amostra dizem que isso ocorreu nos últimos seis meses. Entre os que já criaram algo, 85,2% o fizeram sem envolvimento formal da área de tecnologia. Desse total, 51,1% desenvolveram a solução sozinhos e 34,1% com o próprio time. Apenas 14,8% tiveram apoio pontual da TI.
O estudo chama o fenômeno de "Shadow IT 2.0", uma extensão do conceito tradicional de Shadow IT, ligado à contratação de softwares sem conhecimento da área de tecnologia. Com o vibe coding, prática de criar sistemas a partir de instruções em linguagem natural para uma ferramenta de IA, o que escapa ao controle da TI passa a incluir também aplicações construídas pelos próprios funcionários.
A apresentação dos resultados ficou a cargo de Julia Travaioli, Marcela Lahoz e Gabriella Busse, da área comercial e de parcerias da Skyone. Travaioli lembrou que "vibe coding" foi eleita a expressão do ano de 2025 pelo dicionário Collins. Segundo ela, a pesquisa trata o termo como um comportamento, e não como uma tecnologia específica: o profissional descreve o problema, a IA escreve a maior parte do código e o usuário testa e ajusta o resultado. Na avaliação de Julia, o modelo rompe com o roteiro tradicional, em que uma demanda se transforma em um chamado e fica na fila da área técnica. O que antes levava semanas pode se transformar em um protótipo em uma tarde.
De acordo com os dados apresentados, o mercado global de vibe coding deve chegar a cerca de US$ 7 bilhões em 2026 e a US$ 15 bilhões em 2031, o que representa um crescimento projetado de 17% ao ano.
Marcela Lahoz destacou que, para quase metade dos respondentes, a IA já é a principal ferramenta de busca de informações para o trabalho, à frente dos buscadores tradicionais. Segundo ela, quem já criou alguma solução por conta própria tem duas vezes mais propensão a consultar diretamente um modelo de linguagem de grande porte (LLM).
Marcela também contestou a ideia de que esse perfil se concentra entre jovens da área de tecnologia. O índice de quem já criou soluções fora da TI chega a 62,7% entre C-levels de tecnologia, 57% entre analistas e especialistas, 55,1% entre gerentes e coordenadores, 51,8% entre desenvolvedores e 50,5% entre C-levels de negócios. A prática também é mais frequente nas grandes organizações: 58,9% dos profissionais de empresas com mais de mil funcionários já criaram algo por conta própria, contra 40% nas companhias com até 50 funcionários. Segundo Marcela, isso torna as grandes empresas mais suscetíveis a abrigar soluções que não passaram pela validação da TI. O estudo não aponta as causas dessa diferença.
Entre os que já desenvolveram soluções, 52% criaram automações de processos, 47,6% aplicativos ou sistemas internos, 33% agentes ou assistentes de IA, 18,7% integrações entre sistemas e 14,4% chatbots. A pergunta admitia múltiplas respostas.
A pesquisa mostra que as regras para o uso corporativo de dados em IA ainda estão pouco consolidadas. Para 42,9% dos respondentes, suas empresas não têm diretrizes sobre quais dados podem ser utilizados nessas ferramentas. Outros 26,3% relatam regras claras e formalizadas, 18,6% dizem que as diretrizes existem, mas são mal comunicadas, e 12,2% não souberam responder.
A adoção também é fragmentada. Para 26,8%, cada pessoa usa as ferramentas por conta própria, sem orientação oficial. Outros 24,2% dizem que cada área escolhe suas próprias soluções, sem padronização, e 18,8% trabalham em empresas que incentivam a IA, mas sem diretrizes definidas. Apenas 25,1% relatam incentivo formal acompanhado de regras claras.
O maior dos três perfis de adoção identificados, denominado "criação com orientação fragmentada", reúne 42,7% da amostra. Nesse grupo, 59,2% já criaram alguma solução, 60,9% apontam ausência de diretrizes sobre dados e 86,4% das criações ocorreram sem participação formal da TI.
Segundo Gabriella Busse, que conduziu a parte final da apresentação, a agilidade é real, mas a velocidade dificulta saber quem mais na empresa conhece a solução e quais informações estão sendo inseridas nas ferramentas de IA. Ela questionou o que acontece com essas aplicações e os dados envolvidos quando o profissional que as criou deixa a empresa. Para Gabriella, esse cenário torna a governança e a segurança da informação mais complexas e mais caras. Ela relacionou o movimento ao tempo de resposta da TI: os respondentes relatam prazos que variam de menos de um dia a mais de duas semanas para que uma demanda seja atendida.
Felipe Wasserman, diretor de Marketing e Growth da Skyone, avalia que a IA reduziu a barreira de entrada para o desenvolvimento de soluções, permitindo que aplicações surjam e ganhem escala antes de passarem pelos controles da empresa. Segundo ele, quando uma ferramenta passa a acessar dados corporativos, a atender várias pessoas ou a sustentar um processo relevante, a falta de visibilidade se torna um problema de governança. Para o executivo, o risco não está na experimentação, mas no desconhecimento sobre o que já foi criado, quem usa, quais dados circulam e quem responde por eventuais falhas.
No debate que se seguiu à apresentação, Rennan Sanchez, CTO da Skyone, afirmou que a organização e a governança dos dados são hoje os principais desafios para converter a experimentação com IA em resultados de negócio. Na avaliação dele, a criação de soluções pelas áreas de negócio é um primeiro passo positivo, pois aproxima o desenvolvimento de quem conhece os problemas. A etapa seguinte, no entanto, envolve segurança, governança e conexão com as fontes primárias de dados transacionais, e é aí, segundo o executivo, que os problemas começam.
Para Sanchez, a matéria-prima da IA aplicada a negócios é dados privados e transacionais, organizados e estruturados. Sem eles, as aplicações tendem a ficar restritas a usos como pesquisa e descoberta. Ele citou o varejo alimentar como exemplo de silos de dados: as informações do ponto de venda (PDV) seguem para o sistema de gestão de estoque (WMS), passam por outras ferramentas de checagem e, então, chegam ao ERP. Cada sistema concentra dados de alto valor, mas, normalmente, esses dados estão dispersos e pouco integrados entre si.
Na visão do CTO, a jornada de IA começa por dar acesso a esses dados, com migração para a nuvem para ganhar escalabilidade e segurança. Depois, vem a centralização das diferentes fontes e, só então, a conexão de agentes e de outras aplicações. Ele apontou os sistemas legados como uma das principais barreiras à escalabilidade da IA, pois softwares transacionais antigos costumam ter pouca conectividade, baixa exposição de APIs e bancos de dados volumosos.
Sanchez mencionou ainda o conceito de "fábrica de IA", usado pelo mercado para descrever a cadeia que vai do chip e da energia até os modelos generativos, agentes e frameworks que chegam ao usuário final.
Questionado sobre o risco de vazamento de informações, o CTO afirmou que profissionais têm enviado a ferramentas de IA relatórios, demonstrativos de resultado, dados de faturamento e listas de clientes. Segundo ele, quando os modelos de fronteira são usados diretamente, os dados saem da empresa. Além do processamento, arquivos como planilhas, PDFs e imagens ficam armazenados em servidores externos e podem, conforme os termos de uso de cada fornecedor, ser utilizados para treinamento.
Como alternativas, Sanchez citou regras claras sobre o que pode ou não pode ser inserido em ferramentas de IA, a adoção de guardrails e, de preferência, o armazenamento desses arquivos em servidores privados e dedicados. Para empresas maiores ou sujeitas a exigências de compliance, ele apontou a inferência privada, com modelos de código aberto executados em infraestrutura própria, como forma de manter o processamento e os arquivos sob controle.
O executivo disse que CIOs, gerentes de TI e profissionais de dados vêm sendo cobrados por essas questões, mas ainda não encontraram soluções. Ele afirmou ter se surpreendido com a incidência da criação fora da TI em grandes empresas.
Segundo Sanchez, as lideranças enfrentam um dilema entre bloquear o uso de IA, o que reduz a produtividade e a inovação, e permitir a adoção e estabelecer controles depois. Ele comparou o momento à evolução da cibersegurança em empresas que começam com redes pouco protegidas e só passam a tratar o problema à medida que crescem. Mercados mais regulados, devido a exigências de proteção e certificação, têm menos margem para ampliar o uso.
Sobre o retorno do investimento, o CTO afirmou que muitas empresas ainda estão em fase de experimentação. Ele comparou o custo de inferência ao da energia elétrica, o que é difícil de correlacionar diretamente com o valor gerado. Em vez de comprar licenças individuais, das quais, segundo ele, parte relevante fica ociosa, citou a criação de pools de créditos que permitem acompanhar quem usa as ferramentas e como.
A Skyone propõe um framework em seis etapas: mapear o que já foi criado; definir limites para dados e segurança; capacitar os profissionais; oferecer ambientes controlados de experimentação, como sandboxes que não envolvam dados de produção; aproximar negócio e TI; e estabelecer critérios para que um protótipo passe a ser tratado como solução corporativa.
Para Wasserman, a questão deixou de ser se as pessoas vão usar IA para construir soluções, porque isso já acontece. Segundo ele, a oportunidade é transformar essa experimentação em inovação sustentável, com limites claros para dados, segurança e governança. O papel da TI também muda: de área que recebe demandas para uma camada que ajuda o negócio a transformar experimentos em soluções seguras e escaláveis.
Hernane Ferreira, CEO do The News, afirmou que o número de participantes surpreendeu para um tema de nicho e atribuiu o interesse à popularidade do termo "vibe coding", ainda pouco compreendido pelo público. Segundo ele, a produção de dados primários tende a ganhar relevância para veículos de mídia.
O levantamento foi conduzido pelo The News, por encomenda da Skyone, entre 10 e 25 de setembro de 2026, de forma online e anônima, com assinantes da publicação. Foram registradas 1.971 respostas completas e 1.539 parciais. Por se tratar de uma pesquisa com audiência própria, os resultados não representam necessariamente todos os profissionais brasileiros. As questões sobre o que foi criado e como tiveram uma base de 986 respondentes.
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