As vice-presidentes analistas do Gartner, Gabriela Vogel e Tori Paulman, apresentaram, em coletiva de imprensa durante a Conferência Gartner CIO & IT Executive 2026, realizada no Sheraton São Paulo WTC Hotel, um panorama dos desafios de investimento e adoção de inteligência artificial nas organizações.
Segundo Gabriela Vogel, existem três estratégias que precisam ser trabalhadas simultaneamente pelas empresas: criar momento de adoção da IA, com foco em descoberta e desenvolvimento de capacidades dentro das equipes — o que deve ser gerenciado como centro de custo, e não como investimento com retorno imediato; recalibrar a organização, redesenhando processos, sistemas e estruturas de gestão, etapa em que passa a existir, sim, uma cobrança por retorno sobre investimento; e reinventar o modelo de negócio, por meio de parcerias, fusões e joint ventures, com apetite para grandes riscos.
A analista destacou que organizações de baixa maturidade em IA tendem a concentrar investimentos em iniciativas que não geram retorno financeiro direto, enquanto companhias mais maduras equilibram melhor os recursos, com maior foco no redesenho do modelo operacional. Para Vogel, o mais importante é que, mesmo em instituições avançadas, continuam realizando investimentos sem retorno imediato, pois estão constantemente desenvolvendo novas capacidades organizacionais.
Vogel também chamou a atenção para um dado do Gartner: 72% dos trabalhadores digitais utilizam entre 16 e 25 aplicações no dia a dia. Embora se sintam produtivos, muitos têm dificuldade em localizar informações e executar seu trabalho, fenômeno associado ao que a executiva chamou de sobrecarga cognitiva. Segundo ela, as empresas precisam repensar a forma como adquirem e utilizam tecnologias, incluindo o uso de MCPs, para reduzir esse esforço cognitivo, já que a capacidade humana é limitada, embora a capacidade tecnológica pareça ilimitada.
Já Tori Paulman abordou o conceito de "flywheel" da adoção de IA, afirmando que a maioria das organizações está superindexada ao risco, em detrimento da geração de valor. A executiva citou dados segundo os quais, em 2025, apenas um em cada cinco CIOs e executivos de tecnologia viu retorno sobre o investimento em IA, proporção que se manteve em 2026. Para Paulman, organizações que utilizam os mesmos modelos de IA tendem a obter valor semelhante; por isso, a diferenciação competitiva deve vir de recursos e capacidades exclusivos de cada empresa.
A analista também citou que as empresas registraram um aumento de 400% no número de casos de uso de IA no último ano e que 40% dos trabalhadores afirmam já ter recebido conteúdo gerado por IA que não estava pronto para uso. Segundo ela, 25% dos CIOs relatam integrar proativamente a gestão de risco tecnológico à gestão de risco de negócio, o que, para Paulman, ainda é insuficiente diante do "pensamento mágico" fomentado por promessas exageradas de fornecedores, inclusive sobre a substituição de trabalhadores por IA.
Paulman defendeu a criação de um "banco central de IA" dentro das organizações, estruturado em quatro camadas, começando pela responsabilização (accountability). Como exemplo dos riscos da falta de governança, citou o caso de um agente de IA que apagou um banco de dados de produção em nove segundos e outro episódio em que uma empresa de IA não percebeu a falha por mais de uma semana.
Sobre o temor de substituição do trabalho humano, Paulman afirmou que menos de um terço dos trabalhadores acredita que a IA tomará seu emprego nos próximos anos, embora mais de dois terços acreditem que colegas possam ser afetados. Para ela, o discurso correto não deveria ser sobre a substituição de cargos, mas sobre a transformação do trabalho, considerando um fenômeno cognitivo humano que permite às pessoas resolver problemas complexos sem conseguir explicar exatamente como o fizeram.
A executiva também citou um estudo do MIT com monitoramento por eletroencefalograma (EEG) em estudantes divididos em grupos para escrever redações: os que usaram IA para gerar o roteiro antes de escrever apresentaram queda significativa na conectividade cerebral entre os lobos, fenômeno que os pesquisadores chamaram de "morte cerebral"; já os que criaram o roteiro sozinhos e depois recorreram à IA apenas para redigir o texto mantiveram a atividade cerebral, ainda que com menor criatividade. Segundo Paulman, um resultado semelhante, embora em menor grau, também foi observado entre os que utilizaram buscadores tradicionais, como o Google, para estruturar o roteiro.
Para Paulman, o maior risco à humanidade atualmente é a chamada "terceirização cognitiva", isto é, o hábito de emitir comandos simples e deixar toda a produção intelectual a cargo da IA. Segundo ela, os CIOs precisam assumir a responsabilidade pela alfabetização em IA dentro das empresas, indo além do simples treinamento em ferramentas: primeiro, é necessário que o trabalhador reconheça um problema em seu fluxo de trabalho para, depois, buscar na IA a solução, nunca o caminho inverso.
Respondendo a perguntas feitas pela imprensa especializada presente na coletiva, Vogel reforçou que o grau de maturidade em relação à transformação da IA varia entre instituições e evolui com o tempo. Segundo ela, a discussão sobre retorno sobre o investimento não deveria ser sobre eficiência genérica, mas sobre os fluxos de valor específicos de cada proposta de negócio, citando, como exemplo, a diferença entre uma empresa como a Amazon, cuja proposta de valor é a eficiência operacional, e uma marca de luxo, cuja proposta de valor está no produto, não na operação.
Questionada sobre até que ponto os trabalhadores estão preparados para um cenário de gestão de agentes de IA, inclusive nomeados individualmente, como já ocorre em algumas operadoras, Vogel respondeu que ninguém está totalmente preparado e que cabe aos próprios CIOs assumirem o papel de arquitetos dessa transformação, refletindo sobre onde a tecnologia realmente gera valor antes de adotá-la.
Sobre o tema da desaceleração dos investimentos em IA, mencionado por alguns líderes do setor, Vogel afirmou não conhecer nenhum cliente do Gartner que esteja reduzindo os aportes em IA. Segundo ela, o movimento existente é de maior discussão sobre segurança e governança, e não de recuo nos investimentos, argumentando que a tecnologia sempre avança mais rápido do que a regulação e que cabe às empresas refletir sobre os limites do uso da IA antes de ampliar sua adoção.
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