A expansão da inteligência artificial tem acelerado a construção de data centers em várias regiões do mundo e ampliado o debate sobre os impactos ambientais dessas estruturas. Um levantamento publicado em 2026 pela Clarity, empresa especializada em monitoramento da qualidade do ar, aborda os efeitos associados ao consumo intensivo de eletricidade, ao uso de geradores de emergência e à demanda por sistemas de refrigeração. Segundo o estudo, cerca de 56% da eletricidade consumida por data centers nos Estados Unidos vem de combustíveis fósseis, o que mostra o peso da matriz energética e das escolhas de engenharia na pegada ambiental dessas instalações. O tema também tem mobilizado o mercado brasileiro, que busca posição de destaque em eficiência energética no setor.

De acordo com Rodrigo Melo, VP de Operações da CTC Infra, empresa de engenharia e construção voltada a projetos de alta complexidade, a sustentabilidade de um data center não deve ser tratada como etapa posterior à conclusão da obra. O executivo afirma que decisões tomadas nas fases de concepção e planejamento definem o consumo de energia, a demanda por água, a eficiência operacional e os custos de manutenção por décadas. Ele lembra que, ao contrário de edificações convencionais, essas instalações mantêm sistemas críticos em operação contínua, o que exige conciliar alta disponibilidade e uso eficiente de recursos.

Na avaliação de Melo, fatores como a localização do empreendimento, a infraestrutura elétrica disponível, a tecnologia de refrigeração e a forma de integração entre os sistemas influenciam diretamente o desempenho ambiental da instalação. Para ele, uma decisão inadequada no projeto pode gerar ineficiências que acompanham o data center por toda a sua vida útil, razão pela qual a engenharia precisa considerar eficiência e confiabilidade desde o início.

A escolha do terreno é uma das primeiras etapas. Além de características geotécnicas, conectividade e acesso logístico, o planejamento deve considerar disponibilidade de energia, condições climáticas e recursos hídricos da região. A proximidade de infraestrutura energética adequada pode reduzir a necessidade de obras adicionais, enquanto a temperatura ambiente e eventuais restrições de água pesam na definição do sistema de resfriamento. Segundo a empresa, essas variáveis precisam ser analisadas em conjunto, já que uma solução eficiente em uma região pode ter desempenho inferior em outra, lógica que também explica a busca por regiões de clima favorável, como a Patagônia.

A infraestrutura elétrica é outro desafio central. Data centers dependem de alimentação redundante, equipamentos de proteção e fontes de energia de emergência para garantir a continuidade operacional. Geradores a diesel ainda são usados como contingência, mas sua operação pode emitir material particulado e óxidos de nitrogênio. Nesse cenário, a CTC Infra aponta que o dimensionamento correto dos equipamentos, a avaliação de tecnologias alternativas e a integração com sistemas de gestão energética podem reduzir impactos sem comprometer os requisitos de disponibilidade. O tema dialoga com o debate sobre o dimensionamento de baterias para UPS em sistemas críticos.

A refrigeração completa o conjunto de decisões estratégicas. Com a adoção de processadores de alta densidade para cargas de IA, a dissipação de calor ganhou ainda mais relevância, e a climatização passou a ocupar papel de infraestrutura crítica. Soluções como resfriamento líquido, climatização de precisão e circuitos fechados podem trazer vantagens em determinadas configurações, mas exigem análise específica de consumo de energia, uso de água e manutenção. O próprio mercado tem investido em validação dessas tecnologias, como mostra a rede global de centros de testes de resfriamento líquido lançada pela Equinix.

Melo sustenta que não há uma solução única de sustentabilidade aplicável a todos os data centers. Segundo ele, o sistema de refrigeração deve ser dimensionado a partir da carga térmica, do clima local, da disponibilidade de água e da eficiência energética esperada, e o mesmo raciocínio vale para os sistemas elétricos e de emergência. O executivo define o papel da engenharia como o de integrar essas variáveis para que a infraestrutura opere com segurança e com o menor desperdício possível de recursos.

Além da tecnologia, a forma como a obra é planejada e executada influencia o desempenho futuro da instalação. A compatibilização entre projetos civis, elétricos, mecânicos e de automação permite identificar interferências antes da construção, reduzir retrabalho e otimizar o uso de materiais, uma tendência que reforça a necessidade de projeto conjunto das infraestruturas na era da IA. O comissionamento, realizado antes da entrada em operação, verifica se os equipamentos funcionam conforme os parâmetros previstos e se a integração entre energia, refrigeração e controles atende às exigências do empreendimento. A escolha de materiais também entra na conta, como no debate sobre o uso de cimento sustentável no setor.

Para o VP da CTC Infra, a expansão da infraestrutura digital é uma oportunidade de incorporar critérios ambientais desde as primeiras decisões de investimento. Ele defende que indicadores como eficiência energética, consumo de água, emissões operacionais e desempenho dos sistemas façam parte do planejamento técnico, de modo que os empreendimentos sejam avaliados pelos custos e impactos ao longo de toda a vida útil, e não apenas pelo investimento inicial.

Melo conclui que o crescimento da IA demanda infraestrutura cada vez mais robusta, mas que robustez não deve ser confundida com consumo excessivo de recursos. Na visão do executivo, a engenharia pode contribuir para que novos data centers sejam concebidos com mais eficiência, integração e capacidade de adaptação, e o desafio do setor é construir estruturas que atendam simultaneamente à expansão tecnológica e às exigências de sustentabilidade — discussão que também envolve como ampliar a capacidade computacional sem elevar as emissões.