O Governo colombiano volta a colocar os data centers no centro de sua estratégia digital. O presidente Gustavo Petro mantém sua aposta no desenvolvimento de três grandes data centers em Santa Marta, por meio do projeto BioNube, iniciativa destinada a criar uma "nuvem soberana" para armazenar e processar informações estatais no território do país. O plano, impulsionado em conjunto com empresas públicas e parceiros tecnológicos internacionais, visa tornar a Colômbia um ator regional relevante em inteligência artificial e infraestrutura de nuvem.
A proposta prevê a construção de três campus de dados de grande escala na costa caribenha colombiana, ligados a serviços de computação avançada, armazenamento governamental e futuras aplicações de IA. O projeto é coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com a participação da InterNexa — filial da ISA e do Grupo Ecopetrol — como peça essencial na conectividade e operação da futura infraestrutura.
O Executivo colombiano considera que o desenvolvimento de infraestruturas próprias permitirá reforçar a soberania sobre os dados públicos e reduzir a dependência tecnológica de plataformas estrangeiras. A estratégia visa também impulsionar as capacidades nacionais em inteligência artificial e serviços na nuvem para organismos públicos, universidades e centros de pesquisa.
No entanto, o projeto gerou controvérsia política, técnica e ambiental antes do início da sua construção. As dúvidas centram-se principalmente no elevado consumo energético previsto, na viabilidade operacional em uma cidade com stress hídrico recorrente e na complexidade financeira de uma infraestrutura dessa magnitude.
IA, soberania digital e capital estrangeiro
O projeto BioNube ganhou força após os acordos alcançados entre o Governo colombiano e empresas dos Emirados Árabes Unidos, especialmente o grupo tecnológico G42 e a Khazna Data Centers, especializada em infraestruturas para inteligência artificial e nuvem. Durante uma visita oficial a Dubai em 2025, Petro defendeu a iniciativa como uma infraestrutura estratégica para posicionar a Colômbia na nova economia digital baseada em IA.
O investimento estimado ultrapassa os 80 milhões de dólares (398,8 milhões de reais) e parte dos recursos proviria do Sistema Geral de Regalias e do Fundo de Serviço Universal. O objetivo oficial passa pelo desenvolvimento de uma infraestrutura nacional capaz de abrigar grandes volumes de informação pública e futuras plataformas de IA aplicadas à bioeconomia, transição energética e serviços estatais.
O Governo também apresenta o projeto como uma oportunidade para impulsionar a formação especializada e a transferência tecnológica. Entre os planos anunciados figuram a colaboração com instituições acadêmicas dos Emirados Árabes Unidos e o desenvolvimento de capacidades locais em inteligência artificial e computação avançada.
No entanto, a iniciativa envolveu-se em tensões políticas e administrativas. A saída de Saúl Kattan da InterNexa, dirigente próximo do Executivo e um dos impulsionadores do projeto, alimentou o debate sobre a governança e a transparência do processo. Paralelamente, a Procuradoria colombiana iniciou um acompanhamento preventivo de alguns contratos relacionados com a estratégia nacional de nuvem soberana e IA.
Energia, água e pressão ambiental
Um dos principais focos de discussão é o impacto energético e ambiental dos futuros data centers. Diversas estimativas apontam que o complexo possa necessitar de mais de 260 GWh por ano para funcionar de forma contínua, o que equivale a uma parcela significativa do consumo elétrico de Santa Marta.
A situação é especialmente delicada em uma região onde persistem problemas históricos de abastecimento de água e limitações na infraestrutura energética. O debate intensificou-se ainda mais devido à necessidade de sistemas de refrigeração de alta capacidade em uma cidade costeira com temperaturas elevadas durante grande parte do ano.
As dúvidas sobre a utilização dos recursos coincidem com outras controvérsias recentes em Santa Marta relacionadas com projetos estratégicos de infraestruturas hídricas e ambientais. Nos últimos meses, o próprio presidente Petro questionou publicamente a localização de uma estação de dessalinização prevista para a cidade, defendendo que se devia dar prioridade ao abastecimento de água às comunidades vulneráveis, em vez de às regiões turísticas.
Paralelamente, o Governo colombiano acaba de declarar como reserva ambiental temporária cerca de um milhão de hectares na Sierra Nevada de Santa Marta, reforçando a sensibilidade política e ecológica em torno de novos desenvolvimentos de infraestruturas na região.
Apesar das críticas, o Executivo mantém a intenção de acelerar o projeto antes do fim do atual mandato presidencial. Petro considera que o desenvolvimento de infraestruturas digitais soberanas será um dos pilares estratégicos para a próxima etapa tecnológica do país e um elemento crucial para competir no mercado regional de inteligência artificial.
*Texto traduzido e editado ao português por Bruno Faria
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