O mercado de data centers na América Latina atravessa um momento sem precedentes. Em apenas cinco anos, a capacidade contratada e em desenvolvimento na região sofreu uma transformação vertiginosa, passando dos 1,3 GW registados no final de 2021 para os atuais 12,7 GW. Esse crescimento, comparável ao dinamismo que se verifica em mercados emergentes de importância como a Península Ibérica e o triângulo SIJORI no sudeste asiático, responde a uma procura maciça impulsionada pelas empresas hiperescaláveis, pelo ecossistema da nuvem e pela implantação vertiginosa de cargas de inteligência artificial. A empresa de análise DCByte realizou um estudo para compreender melhor o contexto em profundidade.

Por trás desse crescimento exponencial está uma melhoria substancial na conectividade estratégica. A região se beneficia de uma rede cada vez mais robusta de ligações terrestres e cabos submarinos que a conectam à América do Norte, à África e, em breve, à Oceania, por meio do projeto do cabo Humboldt, que unirá o Chile à Austrália.

Consolidação nos centros já estabelecidos e novos megaprojetos de IA

Tradicionalmente, o desenvolvimento de infraestruturas críticas na região tem avançado a um ritmo desigual, concentrando-se fortemente em três polos principais: Brasil, México e Chile.

  • Brasil: Continua a ser a potência indiscutível da América Latina, com mais de 11 GW de capacidade acumulada entre instalações operacionais, em construção e em fase de planejamento. Com São Paulo na vanguarda como hub central — e alternativas em ascensão no Rio de Janeiro, Porto Alegre e Fortaleza —, o panorama brasileiro é marcado pela presença maciça de gigantes como a Scala Data Centers, a Elea Data Centers e a Ascenty. Entre esses, destacam-se megaprojetos como o Rio AI City da Elea e a AI City da Scala no Rio Grande do Sul, iniciativas que, sozinhas, somam cerca de 8 GW dedicados à computação de alta densidade e à IA.
  • México: É o segundo polo em volume, com mais de 1 GW de projetos em fase de desenvolvimento. Sua proximidade com os EUA e o interesse dos hiperescalas (AWS, Microsoft e Google Cloud) transformaram Querétaro e a área metropolitana do Estado do México em destinos prioritários. No entanto, os gargalos na rede de transmissão elétrica e a escassez de recursos hídricos reduzem o ritmo e desviam o interesse para hubs secundários, como Monterrey e Guadalajara.
  • Chile: É o mercado que regista a aceleração mais acentuada nos últimos dois anos, duplicando sua capacidade agregada de 300 MW em 2023 para 600 MW em 2026. Fatores como o Plano Nacional de Data Centers impulsionado pelo governo, os custos competitivos dos terrenos e sua projeção como porta de entrada de fibra óptica para o Pacífico explicam a forte entrada de operadores internacionais como a Equinix, a ODATA e a EdgeConneX.

A segunda vaga: Colômbia e Peru ganham protagonismo nas telecomunicações e nas redes

À medida que a saturação energética, as restrições hídricas e os custos nos centros principais impõem barreiras à entrada, o mercado começa a diversificar-se. A Colômbia e o Peru emergem como a vanguarda da segunda onda de desenvolvimento na região.

Na Colômbia, o mercado totaliza 338 MW de capacidade, com uma projeção de quase 300 MW adicionais a curto e médio prazo. Embora cerca de 98% da atividade se concentre em Bogotá e Cundinamarca, o hub costeiro de Barranquilla desempenha um papel crucial na instalação de infraestruturas submarinas de telecomunicações. O impulso ao setor é apoiado pela política nacional de IA (CONPES 4144) e por uma procura crescente de colocation empresarial, que em breve dará o salto para o âmbito de hiperescala.

Por seu lado, o Peru (com uma capacidade atual de 51 MW) registra os primeiros grandes desenvolvimentos centrados na zona de Lurín, a sul de Lima, que se tornou o novo polo de data centers de alta densidade, graças aos investimentos de empresas como a Cirion e o Grupo Gtd. As políticas estatais de transformação digital até 2030 e o regime de investimentos da ProInversión posicionam a capital peruana como peça essencial para a descentralização do mapa digital sul-americano.

Com operadores consolidados ampliando suas posições e novos atores internacionais à procura de alternativas à saturação dos mercados norte-americanos, a América Latina avança determinada a consolidar-se como potência em infraestruturas digitais por direito próprio.

*Texto traduzido e editado ao português por Bruno Faria