Energia é o assunto do momento no Brasil. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) mostram que a fonte solar corresponde à maior parte da capacidade energética adicionada no país no período. Esses números mostram a consolidação do crescimento das renováveis no país. Ao mesmo tempo, o Brasil passa por um boom no setor de data centers: empresas da área aguardam com ansiedade a tramitação e a aprovação do ReData na Câmara, o que pode acelerar ainda mais a chegada dessas infraestruturas ao Brasil. E, como cereja do bolo, o crescimento acelerado da inteligência artificial (IA) no mundo. Para Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, a variável crucial para a expansão da IA nos próximos anos não será a capacidade de desenvolvimento de software ou a oferta de GPUs, mas sim a disponibilidade de energia elétrica — especialmente limpa e em escala.

Não vai faltar gente desenvolvendo modelos e aplicações de IA. O gargalo é a infraestrutura energética, afirma o CEO.

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Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit – LinkedIn

Segundo ele, há uma defasagem estrutural entre o tempo de construção de data centers — entre dois e três anos — e o de grandes projetos de geração e transmissão de energia, que pode variar entre quatro e dez anos. Essa diferença pode criar uma janela global de restrição energética já nos próximos três a quatro anos.

Nesse cenário, o Brasil desponta como uma exceção estratégica.

Brasil: matriz limpa e energia disponível

Mendonça destaca que o Brasil possui a segunda matriz elétrica mais limpa do mundo, atrás apenas da Noruega — com a diferença de que o país escandinavo tem cerca de 5 milhões de habitantes, enquanto o Brasil é uma economia continental.

Hudson Mendonça fala sobre o fenômeno do curtailment, quando a geração — especialmente solar e eólica no Nordeste — precisa ser reduzida por falta de capacidade de escoamento ou por demanda local. Essa combinação de oferta limpa e disponibilidade coloca o país no radar das big techs globais. Empresas como o TikTok já anunciaram investimentos no Brasil, atraídas justamente pelo diferencial energético.

Mas o país consegue lidar com esse grande aumento de demanda? Em agosto de 2025, no Dia dos Pais, o Brasil enfrentou uma situação considerada crítica para a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). Naquele dia, a combinação entre demanda excepcionalmente baixa por energia e alta participação da geração distribuída (GD) levou o sistema a registrar, às 13h09, uma carga mínima líquida de 35.306 megawatts (MW) — um dos níveis mais baixos já registrados.

Em estados com forte presença de geração distribuída, especialmente na região Centro-Oeste, a produção de energia superou o consumo local, resultando em cargas líquidas negativas. Esse fenômeno, ainda raro no Brasil, cria dificuldades para o operador do sistema, que precisa manter a tensão dentro de limites seguros. A incapacidade de controlar adequadamente esses parâmetros pode desencadear instabilidades e até desligamentos em cascata.

Diante do risco, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) foi obrigado a adotar medidas excepcionais. A principal delas foi reduzir a zero a injeção de energia das usinas renováveis centralizadas, como parques solares e eólicos — que, diferentemente da GD, são despachadas pelo operador. A decisão buscou evitar que o excesso de geração comprometesse ainda mais o equilíbrio do sistema.

ReData e o novo ciclo de investimentos

A recente aprovação do programa ReData, voltado a estimular investimentos em data centers no Brasil, é vista como um passo importante para consolidar essa oportunidade (no momento, o Projeto de Lei nº 278/2026, que cria o ReData, se encontra no Senado, sem data para votação e formalmente em tramitação).

Para Mendonça, o ponto mais relevante não é apenas o incentivo tributário, mas também as contrapartidas exigidas — como investimento em pesquisa, desenvolvimento e energia renovável.

Ele ressalta que o diferencial brasileiro é estrutural e difícil de replicar. “Você consegue copiar política tributária. Mas não consegue construir uma matriz limpa em menos de uma década.”

Infraestrutura ainda não está pronta

Apesar da vantagem comparativa, Mendonça reconhece que o Brasil ainda não está preparado para uma expansão maciça imediata.

Os principais entraves para acomodar a expansão simultânea da geração renovável e do crescimento dos data centers no país concentram-se em três frentes, segundo o CEO do Energy Summit. A primeira é a infraestrutura de transmissão, especialmente no corredor que conduz a energia produzida no Nordeste até os centros de consumo do Sudeste. A segunda envolve a necessidade de sistemas de armazenamento em baterias, fundamentais para compensar a intermitência das fontes solar e eólica e garantir estabilidade ao sistema. A terceira diz respeito ao planejamento integrado entre geração, transmissão e a instalação de novos data centers, cuja demanda tende a crescer de forma acelerada e concentrada.

No Nordeste, onde há forte expansão de parques solares e eólicos, a instalação de data centers próximos às áreas de geração surge como uma solução tecnicamente viável. Essa estratégia reduz a necessidade de longas linhas de transmissão e pode aliviar a pressão sobre o sistema, desde que acompanhada por estruturas de armazenamento capazes de atenuar as variações na oferta de energia.

Já nas regiões Sul e Sudeste, que concentram grande parte do consumo nacional e tendem a atrair novos empreendimentos digitais, será indispensável ampliar a capacidade de escoamento da energia proveniente de outras regiões. Isso inclui reforços na malha de transmissão e a antecipação de investimentos para evitar gargalos futuros.

Fusão nuclear pode antecipar revolução energética

Mendonça também chama a atenção para um fator disruptivo que pode mudar o jogo global: a fusão nuclear.

Em 2023, um laboratório nos Estados Unidos conseguiu, pela primeira vez, gerar energia líquida positiva por meio da fusão nuclear. Desde então, os investimentos na área cresceram, com participação de universidades e empresas de tecnologia. A Microsoft, por exemplo, já firmou contrato para fornecimento futuro de energia baseada em fusão, com previsão inicial para 2028.

A DCD, no começo do ano, publicou uma matéria sobre a questão nuclear brasileira. O projeto do primeiro microrreator nuclear brasileiro avança em um momento em que cresce a busca por fontes de energia estáveis para sustentar a expansão dos data centers no país. O processo de licenciamento do local de construção da Unidade Crítica foi iniciado no fim de 2025. O microrreator, que será desenvolvido e testado no Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN), foi concebido para diversas aplicações, incluindo o abastecimento energético de complexos de data centers. A proposta se apoia na portabilidade do equipamento e em sua potência de 100 W, suficiente para manter uma reação nuclear em cadeia controlada em diferentes cenários operacionais.

Risco não é falta de energia — é falta de planejamento

Ao contrário de países como os Estados Unidos e a Irlanda, onde há pressão energética e resistência comunitária à instalação de data centers, o Brasil enfrenta um cenário oposto: excesso de oferta de energia renovável. O risco, segundo ele, não é estrutural, mas sim de gestão.

Sem planejamento, o país pode repetir erros do passado, gerando pressão tarifária e repassando os custos à população.

Mas Hudson Mendonça alerta sobre a percepção pública sobre o avanço dos data centers, que se tornou um ponto sensível para o setor elétrico e para a formulação de políticas, como o ReData. Há um desafio crescente tanto na comunicação com a sociedade quanto no âmbito regulatório. Caso o aumento dessas instalações seja interpretado como uma ameaça à segurança energética, seja pelo risco de apagões ou pela possibilidade de aumento nas tarifas, o tema pode ganhar contornos políticos e gerar resistência.

Esse cenário tende a criar obstáculos à aprovação de normas e ao apoio governamental a iniciativas que buscam organizar a expansão da infraestrutura digital. A falta de clareza sobre os impactos reais dos data centers no consumo de energia, somada à preocupação com a estabilidade do sistema, pode levar a pressões por regras mais rígidas, atrasos nos licenciamentos e maior escrutínio sobre novos projetos.

Data centers podem estabilizar a rede

Um dos pontos menos discutidos, segundo Mendonça, é o potencial dos data centers como estabilizadores do sistema elétrico. Com grandes sistemas de baterias, essas estruturas poderiam funcionar como virtual power plants (usinas virtuais), armazenando excedentes e devolvendo energia à rede em momentos de pico ou de emergência.

Grandes bancos de baterias instalados em data centers têm potencial para desempenhar um papel mais amplo no sistema elétrico, funcionando, na prática, como uma espécie de nobreak de grande escala em determinadas regiões, explica Mendonça. Em situações de falhas na distribuição — como as registradas na cidade de São Paulo no ano passado e no começo de 2026 — esses sistemas poderiam reduzir o impacto sobre a população ao fornecer energia temporária à vizinhança até que o serviço fosse restabelecido. A capacidade de resposta rápida e a autonomia desses equipamentos os tornam uma alternativa relevante para mitigar interrupções localizadas. Em tese, packs de baterias poderiam até mitigar os efeitos desses apagões locais, funcionando como grandes sistemas de backup temporário — desde que o modelo regulatório e técnico permita.

Além disso, a expansão de sistemas de armazenamento contribui para a descentralização da rede elétrica. Diferentemente das grandes usinas, que dependem de condições geográficas específicas e exigem longas linhas de transmissão, as baterias podem ser instaladas próximas aos centros de consumo, especialmente no Sul e no Sudeste, onde a demanda é mais concentrada. Essa proximidade ajuda a estabilizar a rede localmente, reduz a pressão sobre os corredores de transmissão de longa distância e melhora a resiliência do sistema diante de oscilações de carga ou de falhas pontuais.

Comunicação ainda é desafio

Apesar da relevância crescente do tema, Mendonça acredita que energia e data centers ainda são assuntos restritos a círculos técnicos e pouco divulgados à população. Hudson Mendonça compara o momento atual ao início da internet, quando poucos compreendiam o impacto estrutural que estava por vir. Ele cita como exemplo percepções distorcidas sobre o consumo energético de IA ou temores generalizados de apagões, muitas vezes desconectados das causas reais — como falhas de distribuição ou de manutenção.

Esses setores, diz Mendonça, precisam aprender a se comunicar fora da bolha. Se a população não entender o que está em jogo, decisões políticas podem travar o desenvolvimento.

Energia e IA: um casamento inevitável

Para o CEO do Energy Summit, a escolha de localização de data centers já deixou de ser apenas uma decisão tributária ou regulatória. Tornou-se, antes de tudo, uma decisão energética. O Brasil, diz Mendonça, ainda utiliza apenas uma fração de seu potencial de geração renovável. Segundo ele, o país dispõe de capacidade solar suficiente para suprir o equivalente a 15 vezes o seu consumo atual e de potencial eólico capaz de atender a 6 vezes a demanda nacional. A avaliação reforça a percepção de que há espaço significativo para expansão dessas fontes, tanto para atender ao crescimento interno quanto para sustentar novos setores intensivos em energia.

A crescente demanda por infraestrutura digital tem aproximado definitivamente o setor elétrico e a indústria de data centers, criando uma relação de interdependência que tende a influenciar o debate econômico e industrial nos próximos anos. A expansão dessas instalações, intensivas em consumo e dependentes de fornecimento contínuo, exige que decisões sobre geração, transmissão e armazenamento de energia sejam tomadas de forma integrada.

Se houver planejamento coordenado, com investimentos antecipados em transmissão, sistemas de armazenamento e estratégias de comunicação que esclareçam à população os impactos e benefícios desse crescimento, insiste Hudson Mendonça, o Brasil pode transformar sua matriz elétrica majoritariamente limpa em uma vantagem competitiva na corrida global pela inteligência artificial. A capacidade de oferecer energia renovável em grande escala, com estabilidade e previsibilidade, é vista como um diferencial estratégico para atrair empresas de tecnologia e consolidar o país como polo de inovação.

Sem essa coordenação, porém, o país corre o risco de perder uma oportunidade histórica. A falta de alinhamento entre a expansão da demanda e a infraestrutura elétrica pode gerar gargalos, elevar custos, criar tensões regulatórias e comprometer a competitividade brasileira em um setor que avança rapidamente no cenário internacional.