As organizações do setor público superam todas as demais indústrias em governança de dados, mas ainda enfrentam lacunas significativas de acessibilidade, visibilidade e integração que comprometem sua prontidão para a inteligência artificial (IA). A conclusão está no recorte dedicado ao segmento do Data Readiness Index 2026, levantamento conduzido pela Cloudera, fornecedora de plataformas de dados e IA.

Segundo o estudo, há um descompasso crescente entre a capacidade das agências de proteger e governar dados sensíveis e a de utilizá-los de forma efetiva para apoiar a inovação em IA, a tomada de decisões e operações essenciais. Os resultados gerais da pesquisa, divulgados pela Cloudera em maio, já indicavam que a confiabilidade e a governança dos dados figuravam entre as principais preocupações dos líderes de TI, como a DCD mostrou em entrevista com Rubia Coimbra, GM e GVP da companhia para a América Latina.

De acordo com o levantamento, as organizações públicas estruturaram algumas das bases de governança de dados mais sólidas entre os setores analisados, impulsionadas por exigências regulatórias, pela prestação de contas à sociedade e pela necessidade de proteger informações sensíveis. Ao todo, 72% afirmam que a maior parte ou a totalidade de seus dados é governada, ante 66% no setor de saúde, 65% em energia e utilities e 61% em serviços financeiros.

Essa liderança, porém, não se converteu em acesso amplo às informações. Apenas 16% dos entrevistados do setor público relatam acesso total aos dados em todos os ambientes, o menor índice entre as indústrias pesquisadas. Em serviços financeiros, o percentual chega a 24% e, em telecomunicações, a 51%.

A pesquisa aponta ainda que somente 31% das organizações públicas têm visibilidade total sobre onde seus dados estão armazenados, o que dificulta localizar e aproveitar as informações entre diferentes sistemas.

Entre os principais obstáculos, 47% citam processos e requisitos complexos de acesso aos dados, enquanto 44% mencionam a visibilidade limitada sobre a localização das informações e 34% relatam dificuldades com dados isolados entre agências e sistemas.

A integração também segue incompleta: apenas 30% dizem que seus dados estão totalmente integrados entre ambientes, o que restringe o uso das informações em diferentes aplicações e fluxos de trabalho. Além disso, 24% apontam a qualidade dos dados como a principal causa do desempenho insatisfatório dos investimentos em IA.

Para Dario Perez, GVP para Federal Civilian e SLED (governos estaduais, locais e educação) da Cloudera, as agências governamentais não enfrentam um problema de IA, e sim de acesso a dados. Segundo o executivo, a pesquisa evidencia um paradoxo: os órgãos se destacam na governança de informações sensíveis, mas apenas cerca de um sexto deles consegue acessar esses dados em toda a organização.

Perez afirma que, seja na resposta a desastres naturais, na alocação de recursos críticos ou na prestação de serviços públicos essenciais, as agências precisam de informações precisas e disponíveis no momento certo para tomar decisões que afetam a vida das pessoas. Na avaliação dele, à medida que a IA é incorporada às operações de governo, conectar dados de forma segura entre sistemas, sem abrir mão de uma governança sólida, será determinante para concretizar o potencial da tecnologia.

De acordo com a Cloudera, os desafios ligados à acessibilidade, à integração e à infraestrutura legada continuam a dificultar os esforços de modernização e a limitar o potencial de tecnologias emergentes no setor público. Para escalar a adoção de IA, a empresa defende que a governança seja incorporada às estratégias de modernização desde o início, de modo a manter os dados seguros, acessíveis e utilizáveis à medida que os sistemas evoluem. A recomendação é partir das fortalezas já existentes em governança e, ao mesmo tempo, enfrentar a fragmentação persistente dos dados.

O diagnóstico converge com outras leituras recentes do mercado. O Gartner incluiu a governança da IA em escala entre as principais tendências de tecnologia para governos e projeta que metade das organizações adotará uma postura zero-trust na governança de dados até 2028. Já a Hitachi Vantara alertou que, sem governança, transparência e limpeza das bases, a IA pode se tornar um risco em vez de vantagem competitiva. No Brasil, o avanço das iniciativas de soberania digital no setor público também coloca o controle e a localização dos dados no centro do debate.