O governo federal discute como atender à crescente demanda de energia dos data centers no Brasil sem elevar os custos para os demais consumidores, informa o Valor Econômico. Entre as alternativas em análise estão o uso de gás natural e o uso de baterias para armazenar energia nos períodos de maior geração de energia renovável.
Cálculos de agentes do setor elétrico estimam um custo adicional de cerca de 7 bilhões de reais por ano nas tarifas. A projeção considera um aumento de 3,5 mil MW no consumo dos data centers em 2026, atendido por novas usinas eólicas e solares. Pelo critério de rateio adotado no cálculo, 70% do valor recairia sobre o mercado regulado, que reúne residências e pequenos comércios, e 30% sobre o mercado livre. Segundo essas fontes, o custo decorre da necessidade de garantir fornecimento contínuo diante da intermitência das fontes renováveis. A regulamentação, no entanto, ainda não definiu se será exigida uma nova geração ou se a oferta existente poderá ser utilizada.
Dentro do governo, há divergência sobre a solução. O Ministério da Fazenda se opõe ao uso do gás natural e defende o aproveitamento da energia renovável disponível, enquanto o Ministério de Minas e Energia (MME) apoia o combustível como alternativa. Integrantes do governo também defendem o uso de baterias, que poderiam reduzir a pressão tarifária sem comprometer a descarbonização do setor.
Um técnico do governo aponta que os data centers podem trazer benefícios ao sistema, já que o país enfrenta excesso de geração em alguns períodos, sobretudo de energia solar, o que leva o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a reduzir a produção. Segundo ele, o desafio é desenhar a regulação para que esses empreendimentos arquem com os custos adicionais que geram.
O presidente-executivo da Brasscom, Affonso Nina, afirma que a expansão não representa um problema para a rede. Segundo ele, os data centers respondem hoje por cerca de 2% do consumo de eletricidade no país, com projeção de atingir 4% ou 5% em cinco anos, fatia que pode ser suprida pelos excedentes atuais. Nina reconhece que a transmissão é um desafio, mas avalia que o aumento da demanda distribui os custos entre mais usuários, sem pressionar as tarifas. Ele acrescenta que parte das empresas já financia subestações e trechos de linhas por conta própria e argumenta que a realidade brasileira, com sistema interligado e sobra de energia renovável, não é comparável à dos Estados Unidos.
No mercado americano, Ethan Zindler, diretor de Pesquisa em Políticas Públicas e Países da BloombergNEF, estima que a demanda por eletricidade pode dobrar em cinco anos devido aos data centers. Segundo ele, a restrição no mercado de gás nos próximos 24 meses pode elevar os preços da energia com reflexos globais, e o volume de nova geração a gás previsto é suficiente para interromper a queda das emissões do setor elétrico dos EUA.
A Associação Brasileira de Data Center (ABDC) avalia que eventuais impactos na conta de luz devem ser analisados no contexto do planejamento do sistema elétrico, e não atribuídos isoladamente a uma nova classe de consumidores.
O MME não informou se haverá impacto nas tarifas. A pasta afirma que a diretriz do governo é evitar que grandes cargas onerem os demais consumidores, com alocação justa dos custos, e cita a possibilidade de aplicar o sinal locacional na transmissão, mecanismo que atribui encargos maiores aos agentes que mais pressionam a rede.
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