O crescimento dos data centers voltados a inteligência artificial tem um efeito físico direto: mais potência e mais conexões concentradas em áreas menores. Isso aparece nas salas elétricas, nas rotas de cabos, nos racks e nos corredores técnicos. Espaço, dissipação térmica, redundância, manutenção e prazo passam a limitar decisões que antes tinham maior margem.
Potência disponível na entrada e conectividade contratada, portanto, não definem a capacidade que o data center consegue colocar em operação. Energia e dados ainda precisam atravessar equipamentos, cabos, conexões e interfaces até chegar à carga.
Mais potência muda a distribuição elétrica
Do ponto de conexão com a rede até o rack, a cadeia elétrica pode envolver alta tensão, transformação, sistemas de energia crítica, painéis, distribuição em média e baixa tensão, cabos terminais, unidades de distribuição e conversões finais. A tensão e o ponto de transformação alteram a corrente em cada trecho e, com ela, o paralelismo, o número de terminações, as perdas e o espaço ocupado.
Um exemplo simples ajuda a visualizar a escala. Considere uma carga trifásica de 5 MW, com fator de potência unitário. A corrente é de aproximadamente 7,2 kA em 400 V, 4,2 kA em 690 V e 209 A em 13,8 kV. A potência não muda, mas a corrente altera de forma significativa a solução física. Em baixa tensão, milhares de amperes podem exigir vários condutores por fase e muitas conexões. Em média tensão, a corrente cai, mas surgem requisitos específicos de isolamento, proteção e transformação.
A definição da tensão por zona precisa vir antes do fechamento de rotas e espaços. E o dimensionamento não termina na ampacidade: também entram queda de tensão, curto-circuito, agrupamento, temperatura, raio de curvatura, puxamento, acesso às terminações e os estados de contingência, manutenção e expansão.
Basta olhar o exemplo de 5 MW: dependendo da tensão, a corrente muda de centenas para milhares de amperes. Isso altera o número de circuitos e terminações, o espaço nas rotas e a forma de instalar. Se a tensão e o ponto de transformação são definidos tarde, o impacto aparece na obra e no prazo.
Mais dados no mesmo espaço
Na conectividade, a concentração também aumenta. Mais processamento e maiores velocidades elevam a densidade de fibras, portas e conexões no data hall. O projeto precisa acomodar crescimento sem transformar cada ampliação em uma intervenção extensa sobre áreas já em operação.
Sistemas pré-conectorizados reduzem atividades em campo e ajudam a padronizar ampliações. A Prysmian reúne soluções em cobre e fibra óptica, incluindo UCCONNECT para cabeamento estruturado, distribuidores de alta densidade e trunks MPO e LC pré-conectorizados. Em maio de 2026, Prysmian e Ufinet também anunciaram uma rede subterrânea de 30 km para interligar data centers hyperscale em Alphaville, com tecnologia óptica Sirocco HD com 432 fibras em um diâmetro de 8mm produzida no Brasil.
Não basta prever mais fibras. É preciso conseguir adicionar capacidade sem desmontar o que já está funcionando. Pré-conectorização, organização do rack e densidade de fibra entram nessa decisão desde o início.
Energia, fibra e refrigeração precisam caber no mesmo projeto
Distribuição elétrica, conectividade e refrigeração têm requisitos próprios, mas dividem corredores técnicos, shafts, bandejas, acessos e áreas de manutenção. Em alta densidade, uma decisão tomada por uma disciplina pode retirar espaço ou acesso de outra.
Uma solução que fecha no cálculo pode falhar na execução. A bobina pode não acessar o local; uma sequência de curvas pode exceder o esforço de puxamento; o painel pode não acomodar condutores e terminais; uma rota preenchida na primeira fase pode bloquear a expansão seguinte. Na conectividade, ocorre o mesmo quando o aumento de portas e fibras compromete organização e manutenção.
As interfaces merecem atenção. Cabo, acessório, terminação, conexão, proteção e instalação formam um único circuito. Compatibilidade de materiais, preparação, ferramenta, torque, identificação, rastreabilidade, inspeção e critérios de comissionamento influenciam a confiabilidade do conjunto.
Prazo de energização começa no projeto
O chamado time-to-power — tempo para colocar nova capacidade efetivamente em operação — depende de decisões tomadas bem antes da obra. Uma troca tardia de cabo pode exigir nova verificação de ampacidade, terminal, raio e rota. Uma bobina incompatível com o acesso altera o plano de instalação. Um critério de ensaio definido no fim pode atrasar o comissionamento mesmo com os materiais disponíveis.
Projeto e execução, portanto, precisam compartilhar cedo os dados que condicionam a obra: estados de operação, capacidade por zona, perdas, rotas, comprimentos, pontos de puxamento, interfaces com equipamentos, critérios de substituição, responsabilidades e plano de testes. Quanto menos decisões restarem para o campo, menor o risco de retrabalho.
*Texto escrito em conjunto com Adiel Gonçalves, Gerente Comercial de Conectividade e Data Centers da Prysmian
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