Há um volume recorde de solicitações para conectar grandes consumidores à rede de transmissão de energia do país, informa reportagem da Folha de S. Paulo. Em algumas regiões, especialmente onde a demanda supera a capacidade instalada, a conexão só deve ocorrer após 2030, segundo dados públicos e relatos do setor.

Nesses pontos críticos, empresas interessadas em acessar o grid terão de participar de um processo competitivo criado pelo governo federal em dezembro de 2023. O modelo funciona como um leilão: vence quem oferecer o maior bônus financeiro por quilowatt de capacidade disponível. Os projetos em análise envolvem cargas de centenas de milhares de kW.

A Abrace, que representa grandes consumidores responsáveis por 40% do consumo de energia no Brasil, afirma que o problema não é falta de geração, mas limitações na transmissão, sobretudo em São Paulo e no Nordeste, com destaque para a região do Porto de Pecém.

O Ministério de Minas e Energia informa que já estão planejadas obras para ampliar a margem de conexão em cerca de 8 GW, principalmente nas regiões de São Paulo e Campinas. A pasta reconhece que a Grande São Paulo opera historicamente com alta utilização da rede e que o avanço acelerado de pedidos ligados a data centers aumentou a pressão sobre a infraestrutura.

Em dezembro, o governo também extinguiu a fila cronológica de pedidos e instituiu as “temporadas de acesso”, um sistema que organiza a disputa pela capacidade. A portaria transferiu, ainda, ao ONS a análise de 94 solicitações pendentes no ministério.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informa que 39 dos 94 protocolos transferidos pelo Ministério de Minas e Energia foram formalizados. Atualmente, o órgão analisa 61 pedidos de conexão direta à rede básica, dos quais 38 são de data centers. Esse volume já supera o total de solicitações feitas entre 2022 e 2024 e se aproxima do recorde de 107 pedidos registrados em 2025.

Outras solicitações ainda serão avaliadas na primeira “temporada de acesso”, cujo período de inscrição terminou em 15 de janeiro. O ONS não divulgou o número de empresas participantes.

Especialistas afirmam que o processo de análise segue critérios técnicos rigorosos, como a capacidade física das subestações. Caso a potência demandada ultrapasse os limites, há risco de aquecimento da rede em horários de pico ou de curtos-circuitos em períodos de baixa carga.

A Abrace aponta preocupação com a disputa entre indústrias e data centers pela capacidade de conexão. Segundo a entidade, pedidos industriais de expansão entre 5% e 10% podem não ser atendidos, enquanto centros de dados solicitam cargas de 200 MW a 300 MW de uma só vez. As regras do ONS não diferenciam entre pedidos de novos acessos e de ampliações de carga de consumidores já conectados.

A entidade alerta que a incerteza pode afetar os planos de expansão industrial, normalmente projetados com três a quatro anos de antecedência. O resultado dos leilões de acesso deve ser divulgado até outubro, conforme cronograma do ONS.

A primeira temporada de acesso definirá quais grandes consumidores poderão se conectar à rede de transmissão entre 2027 e 2029. Entre os inscritos estão empresas de tecnologia, como Scala e Microsoft, e indústrias de base, como Unipar e Gerdau.

Um relatório do ONS e da EPE, previsto para 31 de agosto, detalhará a margem disponível em cada ponto de conexão. Informações preliminares do operador já indicam que áreas próximas ao porto de Pecém (CE) terão capacidade zero até 2031. A região metropolitana de São Paulo também apresenta indisponibilidade até 2030, enquanto o entorno de Campinas — polo de data centers — opera no limite. Em 2024, o ONS negou 25 pedidos de ligação de centros de dados no estado.

Segundo especialistas, o novo modelo permitirá ao ONS planejar a demanda com horizonte de até cinco anos. Onde houver capacidade sobrando, a análise será apenas técnica; onde houver disputa, o acesso será definido por leilão, vencido pelo maior ágio. Consumidores têm prioridade sobre geradores, já que o país possui excedente de energia.

O setor de tecnologia avalia positivamente o novo formato, considerado mais transparente. A Brasscom afirma que não há dados consolidados sobre a fila de espera, pois a situação varia conforme o tipo e a localização dos projetos.

O planejamento energético prevê a entrada de cargas intensivas, como data centers e plantas de hidrogênio de baixo carbono, no Nordeste, com potencial para adicionar 4 GW de capacidade até 2040. Estudos semelhantes estão em andamento no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

Além dos data centers, a lista de pedidos inclui empresas como GM, Unipar, Gerdau, LHG Mining, Companhia Siderúrgica Vale do Paraíba, Castertech, Centaurus e Riograndense. A Abrace defende que parte da capacidade seja reservada para indústrias já instaladas, argumentando que esses setores não podem se deslocar para regiões com maior disponibilidade e não dispõem do mesmo volume de capital imediato que os complexos de dados.

A entidade afirma que a mudança nas regras foi impulsionada pelo avanço de projetos de alto consumo de energia, como data centers e futuras plantas de hidrogênio verde.