A expansão dos data centers no Brasil, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial e por novos incentivos fiscais, tem gerado discussões sobre os impactos ambientais e econômicos dessas instalações, bem como sobre a segurança das informações armazenadas. Embora o uso de energia renovável seja um dos critérios de sustentabilidade do setor, especialistas avaliam que esse fator, por si só, não garante benefícios efetivos ao país.

O tema ganhou peso após a sanção, em setembro de 2026, da lei que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData). A legislação prevê incentivos tributários condicionados ao cumprimento de exigências de sustentabilidade, de eficiência hídrica e de investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, além da destinação de parte da capacidade de processamento beneficiada ao mercado brasileiro.

Nesse contexto, o professor Leonardo David Quintiliano, da Faculdade ESEG, do Grupo Etapa, desenvolveu uma pesquisa que propõe ampliar os critérios de avaliação de data centers. A proposta inclui, além do consumo de energia e de água, a segurança das informações, a soberania digital e os impactos econômicos e sociais. O trabalho foi apresentado em 9 de outubro no AI4SDG 2026, evento científico internacional realizado em Liubliana, na Eslovênia.

Segundo Quintiliano, os data centers são essenciais para o desenvolvimento da inteligência artificial, mas a sustentabilidade dessas estruturas não pode ser medida apenas pela eficiência energética ou pelo consumo de água. O pesquisador defende que também sejam avaliados quem controla os dados, quais garantias de segurança existem e quais benefícios econômicos e sociais o empreendimento efetivamente proporciona.

O estudo cita situações em que uma instalação pode usar energia renovável, mas pressionar os recursos hídricos de uma região ou apresentar vulnerabilidades na proteção de informações. O consumo de energia e de água pelo setor no país já foi tema de levantamentos recentes, assim como de projeções sobre a participação dos data centers na demanda elétrica brasileira até 2029. Outro ponto levantado pela pesquisa é o retorno às comunidades onde as instalações são construídas, considerando a geração de empregos qualificados, a contratação de fornecedores locais e o acesso à infraestrutura tecnológica.

O trabalho propõe duas ferramentas complementares: a Avaliação de Impacto da Sustentabilidade e o Índice de Responsabilidade de Data Centers. O modelo reúne indicadores em uma pontuação de 0 a 100, distribuída em três dimensões: sustentabilidade ambiental; segurança e soberania digital; e impactos econômicos e sociais. A intenção é criar parâmetros verificáveis que auxiliem empresas e autoridades públicas na análise de projetos.

De acordo com o professor, um empreendimento pode ter bom desempenho ambiental e, ainda assim, deixar sem resposta questões sobre a proteção e o controle dos dados. Por isso, o modelo propõe avaliar essas dimensões em conjunto, de modo que os incentivos públicos fiquem vinculados a resultados verificáveis e a benefícios concretos para a sociedade brasileira.

A metodologia também prevê critérios eliminatórios que impediriam uma avaliação favorável, independentemente da pontuação, como a ausência de licenças obrigatórias, falhas críticas de segurança ou falta de transparência no controle de informações estratégicas. O índice, no entanto, ainda é uma proposta acadêmica e precisa passar por testes e validação empírica.

A pesquisa também aborda a soberania digital. Segundo o estudo, a instalação de servidores em território nacional não significa, necessariamente, que as informações armazenadas estejam submetidas apenas ao controle jurídico brasileiro, já que as empresas responsáveis pela infraestrutura podem estar sujeitas a legislações estrangeiras e os dados podem ser transferidos ou acessados a partir de outros países.

Para Quintiliano, a discussão sobre novos data centers precisa considerar quem detém o controle efetivo das informações, quais empresas participam do processamento e do armazenamento, e quais mecanismos permitem às autoridades brasileiras fiscalizar essas operações. O trabalho defende que a expansão da infraestrutura nacional venha acompanhada de garantias de transparência, de segurança jurídica e de proteção de dados.

No campo econômico, a análise considera, além da construção e da operação das instalações, se os empreendimentos ampliam o acesso de universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras à capacidade computacional, contribuindo para o desenvolvimento tecnológico do país.

O AI4SDG 2026 integrou a 29ª International Multiconference Information Society e reuniu pesquisadores de diversos países para discutir inteligência artificial, desenvolvimento sustentável, governança tecnológica e proteção de direitos. A programação contou com a participação do Centro de Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina da Universidade de São Paulo (CIAAM-USP), que mantém um acordo de cooperação acadêmica com a Faculdade ESEG desde junho de 2026.

Quintiliano é doutor em Direito do Estado pela USP e pesquisa regulação da inteligência artificial, com estudos voltados a políticas públicas, tecnologia e governança digital.