Por mais de duas décadas, a internet brasileira fez um longo desvio antes de chegar à Europa. Um e-mail enviado de São Paulo a Lisboa percorria primeiro o Atlântico Norte, passava por Nova York, cruzava o oceano até Frankfurt ou Londres, e só então chegava ao destino. Eram milissegundos a mais, invisíveis ao usuário comum, mas críticos para bancos, bolsas de valores e qualquer aplicação sensível ao tempo de resposta. O cabo submarino ELLA representou uma mudança profunda na transmissão de dados.

O papel do ELLA em um contexto mais amplo

O projeto ELLA (Europe Link with Latin America) é uma iniciativa financiada pelo 7º Programa-Quadro da União Europeia que estudou a viabilidade de construir um cabo submarino direto entre a América Latina e a Europa, sem passar pelos Estados Unidos, que era, em 2013, o caminho padrão para esse tráfego.

O tráfego de dados entre a América Latina e a Europa era majoritariamente roteado pelos Estados Unidos, o que tornava a conexão mais cara e estrategicamente desfavorável. Um link LATAM–EUA custava mais de 10 vezes o valor do trecho EUA–Europa. Nesse contexto, o projeto do cabo ELLA surgiu como alternativa competitiva, apoiado por uma demanda crescente de capacidade (CAGR de 48,9%) e pela vantagem de ser o único cabo direto entre a América Latina e a Europa, com rota definida entre Fortaleza e as Ilhas Canárias, além de extensões para Santos e para Portugal. O plano previa preços alinhados aos praticados na rota LATAM–EUA e estimava uma participação de mercado inicial de 9,6%, que chegaria a 26,9% em 2019. No cenário financeiro base, o projeto indicava receita de US$ 269 milhões em 2021, VPL de US$ 256 milhões, TIR de 29,2%, payback de 6,8 anos e CAPEX inicial de US$ 345 milhões. As simulações mostraram variações significativas: no cenário agressivo, com preços 15% menores e maior market share, o payback cairia para 5,2 anos e a TIR subiria para 41,5%; no cenário conservador, com demanda crescendo a 18,8%, o retorno seria mais lento, com payback de 7,5 anos e TIR de 22,4%. (A reportagem utilizou como base o artigo "Feasibility Study for a direct Europe Link with Latin America", da Seventh Framework Program Research Infrastructures).

A rota selecionada teve Fortaleza como ponto de aterragem no Brasil, e não Santos, que seria mais próxima de São Paulo e Rio de Janeiro, justamente pela proximidade geográfica com a Europa. O estudo reconhecia o trade-off: Fortaleza fica mais distante dos principais centros econômicos do país, mas a vantagem em termos de latência compensa. A Europa, do outro lado, ficou com Portugal como ponto central, pela boa conectividade com o restante do continente e pela proximidade relativa com a América Latina, com as Ilhas Canárias servindo de elo intermediário.

Para falar mais sobre o tema, a DCD foi atrás de uma das pessoas que mais conhecem sobre conectividade: Darwin Costa, Regional Director para Brasil e a América do Sul da DE-CIX, um dos maiores operadores de pontos de troca de tráfego do mundo. O angolano Darwin já foi jogador de futebol e chegou a defender a seleção de seu país, mas hoje é craque quando o assunto é tecnologia. De passagem pela capital paulista durante um dos vários eventos de sua agenda, Costa conversou com nossa reportagem no saguão do hotel onde estava hospedado, na zona sul de São Paulo. Como sempre, a entrevista com Darwin Costa rendeu conteúdo muito interessante aos leitores de nosso site.

Darwin Costa
Darwin Costa, DE-CIX

A DCD tem-se debruçado especialmente sobre a conectividade e os cabos submarinos na América do Sul. Minha colega Cristina Cueto escreveu sobre a rede de fibra óptica que conecta Brasil, Colômbia, Peru e, em menor grau, a Venezuela. E eu fiz uma matéria sobre a Infovia 02 e o Norte Conectado, sobre a fibra óptica na região amazônica. Agora é a vez do Cabo ELLA e a conexão entre o Brasil e a Europa.

O segundo elo direto com a Europa

Antes do ELLA, o Brasil já tinha uma ligação submarina com o continente europeu: o Atlantis 2, que conectava o país a Portugal. Mas o cabo envelheceu e, com ele, a capacidade de banda e a eficiência da rota. O ELLA surgiu não apenas como substituto, mas como um salto tecnológico, oferecendo menor latência e muito mais largura de banda.

"O ELLA chegou ao Brasil na hora certa e no momento certo", afirma Darwin Costa. "Cada vez mais a gente vê parcerias não só do ponto de vista digital, mas também do ponto de vista governamental entre países. O Mercosul é um exemplo disso. Essas parcerias estabelecidas em outro âmbito também têm relação paralela com o mundo digital."

O cabo tem ponto de aterragem em Fortaleza, no Brasil, e faz conexão via Ilhas Canárias e Cabo Verde antes de chegar à Europa, rota que reduz significativamente a distância física percorrida pelos dados em comparação com a via Nova York.

A queda de 50% na latência

O impacto técnico é concreto e mensurável. A DE-CIX apresentou dados em um fórum do setor que ilustram bem a transformação. Um cliente brasileiro que antes roteava seus dados pelo chamado "caminho norte": Brasil, Nova York, Frankfurt e só então Madri, passou a se conectar diretamente de Fortaleza à capital espanhola. O resultado foi uma queda de latência superior a 50%.

"Quando a gente fala de 50% de queda na latência, isso é muito para os dias de hoje", explica Costa. "Isso vale para todas as aplicações utilizadas hoje, inclusive para a troca de tráfego entre o Brasil e Portugal ou entre o Brasil e o sul da Europa como um todo."

No mercado financeiro, essa diferença distingue uma operação bem-sucedida de uma penalização contratual. Mas o impacto vai além das finanças: streaming, comunicações corporativas e acesso a plataformas de nuvem europeias, todos se beneficiam de uma rota mais curta e mais rápida.

Rota antiga ainda predomina, mas isso está mudando

Apesar dos ganhos expressivos, Costa é cuidadoso ao traçar o panorama atual: a rota via Nova York ainda é a mais utilizada pelo tráfego brasileiro com destino à Europa. A transição não acontece como um passe de mágica. "A migração de todos esses dados não é algo que você faz do dia para a noite. Mas as operadoras estão fazendo isso de forma granular e paulatina", observa. "Já vemos muitos usuários e certas operadoras móveis aqui no Brasil utilizando dados provenientes diretamente de Madri, em vez de irem para Nova York, Frankfurt e, depois, Madri."

A lógica econômica também pesa na equação. Cabos mais antigos tendem a ter preços de acesso menores do que os novos. A migração, portanto, acompanha não apenas a disponibilidade técnica, mas também as decisões comerciais das operadoras.

Fortaleza ultrapassa o Rio de Janeiro

Um dos dados mais interessantes observados nesse novo cenário é o reposicionamento de Fortaleza no mapa digital brasileiro. A cidade, que historicamente ficava à sombra de São Paulo e do Rio de Janeiro em infraestrutura de dados, tornou-se o principal ponto de entrada e de saída dos cabos submarinos que conectam o Brasil ao mundo. A cidade tem sido presença constante nas manchetes da área de tecnologia, com a construção de novos data centers e o investimento do TikTok em um data center no Complexo do Pecém.

Além disso, Fortaleza foi destacada pelo Banco Mundial como o principal hub de cabos submarinos da América Latina, conectando o Brasil a três continentes e impulsionando a atração de investimentos em infraestrutura digital, com a aplicação de 2 bilhões de dólares (10 bilhões de reais) no Estado. A empresa Angola Cables avalia ampliar sua atuação em Fortaleza por meio do acesso ao backbone do Cinturão Digital do Ceará, administrado pela Etice, buscando reforçar a conectividade na capital e interligar pontos estratégicos como a ZPE do Pecém, de modo a integrar esses locais à sua rede internacional de cabos submarinos e data centers.

Além disso, no começo do ano, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza anunciaram um conjunto de investimentos destinado a impulsionar o desenvolvimento econômico e social do estado. O pacote soma 1,1 bilhão de reais em financiamentos voltados tanto ao setor público quanto ao privado. Como resultado de toda essa movimentação, Fortaleza superou o Rio de Janeiro em volume de tráfego de dados.

"Quando você vê essa mudança de tráfego para uma certa região, em que o Rio de Janeiro era maior que Fortaleza e agora Fortaleza é maior que o Rio de Janeiro, isso diz muita coisa", aponta Costa. "Talvez seja uma cidade que precise ser observada com mais atenção nesse momento."

Para a DE-CIX, que chegou ao Brasil em meados de 2025 e já conectou 68 redes em São Paulo e no Rio de Janeiro, Fortaleza é o próximo passo estratégico, mas exige planejamento. A cidade ainda não é uma cloud region consolidada como as duas maiores cidades do país, e o ecossistema de data centers está em desenvolvimento.

Infraestrutura brasileira: boa, mas com nuances

Uma questão recorrente no debate sobre o setor é se a infraestrutura de dados do Brasil acompanhou o crescimento da demanda. Costa defende que o país está bem posicionado, mas afirma que o tamanho do Brasil cria desafios que as empresas estrangeiras muitas vezes subestimam.

"O Brasil é um continente", diz o especialista. "Se você tem um problema em São Paulo às 6 da tarde, eventualmente consegue mandar um técnico para resolver. Se o mesmo problema ocorrer às 6 da tarde em outro lugar, talvez não seja possível fazer o reparo no mesmo dia. São outras nuances."

Mas há um dado que coloca o Brasil em posição de destaque global: São Paulo é o maior ponto de intercâmbio de tráfego do mundo, com mais de 20 terabits por segundo. Após São Paulo, vem Frankfurt. Isso não é pouca coisa.

Se a infraestrutura física avança, a regulatória ainda precisa avançar mais. Costa aponta o Programa ReData, voltado à concessão de incentivos ao setor de data centers, que poderia atrair investimentos estrangeiros com maior segurança jurídica, um dos principais gargalos do setor.

"Chega o ReData, para, fica tudo parado, e ninguém mais sabe o que vai acontecer daqui para frente", lamenta. "Eu não diria que isso vai travar o crescimento de dados no Brasil, mas talvez trave investimentos planejados para o Brasil, que eventualmente serão redirecionados para outras regiões."

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, encerrou a sessão de 25 de fevereiro sem votar o PL 278/2026, que recria o regime fiscal especial para data centers (ReData), aprovado no mesmo dia pela Câmara. Embora a MP 1.318/2025, que originalmente instituiu o ReData, tenha perdido a validade, o projeto segue tramitando por reproduzir praticamente todo o conteúdo da medida, mantendo, inclusive, a data de referência de 1º de janeiro de 2026. Ou seja, o ReData está parado no Senado, e o setor aguarda com ansiedade sua tramitação.

Darwin Costa, por sua vez, cita Chile e Uruguai como exemplos de países que atraíram investimentos que poderiam ter ido ao Brasil, justamente pela maior flexibilidade da legislação de investimento externo. A Argentina, apesar do seu tamanho, enfrenta o obstáculo do próprio ambiente de negócios.

Soberania de dados

Outro tema que permeou a conversa com Darwin Costa, como não pode deixar de ser quando cabos submarinos, data centers e transmissão de dados são o tema, é o da soberania de dados. Costa observa uma mudança de paradigma entre os clientes corporativos, especialmente no setor financeiro: o ambiente de cloud primário, antes hospedado nos Estados Unidos, migra gradualmente para o Brasil. "A maior parte dos operadores, nas licitações que temos visto, requer um ambiente de cloud local, São Paulo ou Rio de Janeiro, geralmente, como primário, e ambientes de backup no exterior", relata. "Esse setup, antigamente, era o inverso."

Não se trata, contudo, de isolar os dados brasileiros do mundo. A internet, por natureza, é uma rede de redes, e os dados fluem pelo caminho que encontrarem. O que muda é a prioridade: o que for possível trocar localmente deve ser trocado localmente.

Do Atlantis 2 ao ELLA e à rede de cabos submarinos do Nordeste, passando pelas conexões de fibra óptica do país inteiro: o Brasil, cada vez mais, se torna um hub importante não só regional, mas também global. Os olhos do mercado de data centers se voltam para o país e o mercado aguarda o destravamento do ReData, entre outras medidas. Os próximos anos prometem ser bem animados para quem trabalha com tecnologia por aqui.