Em um dos maiores desafios de infraestrutura digital do Brasil, o Programa Norte Conectado avança na implementação de uma ambiciosa rede de fibras ópticas que promete levar internet de alta velocidade a comunidades ribeirinhas e municípios isolados da Região Amazônica. No centro desse esforço está a Infovia 02, uma das principais rotas de transmissão a serem operadas em parceria com a sociedade civil e o setor privado — um projeto que representa um marco para a inclusão digital no interior do Estado do Amazonas. O primeiro e mais importante significado estratégico do projeto é Internet em fibra para o Alto Solimões, em localidades que, em grande parte, somente são atendidas em rádio e satélite. Outro aspecto que também deve ser considerado é a integração dessa região à Região Norte e ao restante do país, e, adicionalmente, ao Peru e Colômbia, na fronteira tríplice, em especial, a partir de Tabatinga e Benjamin Constant.
O que é a Infovia 02?
A Infovia 02 é uma extensa infraestrutura de comunicação que conecta Manaus a Atalaia do Norte, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, percorrendo mais de 2.000 km de cabos de fibra óptica, incluindo segmentos subfluviais (no leito do Rio Solimões) e trechos terrestres. A rede inclui 1.758 km subfluviais e 284 km terrestres, com interligações à Infovia 01 — em operação — e conectando cerca de 19 municípios do interior do Amazonas (Manaus (AM) a Atalaia do Norte (AM), e na rota a partir de Manaus (AM), as localidades de Manacapuru (AM), Iranduba (AM), Anamã (AM), Anori (AM), Codajás (AM), Coari (AM), Tefé (AM), Alvarães (AM), Uarini (AM), Fonte Boa (AM), Jutaí (AM), Tonantins (AM), Santo Antonio do Içá (AM), Amaturá (AM), São Paulo de Olivença (AM), Belém do Solimões (AM), Tabatinga (AM), Benjamin Constant (AM) e Atalaia do Norte (AM) com trechos em cabo subfluvial e trechos terrestres).
Essa rota não só conecta municípios isolados como Iranduba, Coari, Tefé, Fonte Boa, Tabatinga e Benjamin Constant, mas também se integra às demais infovias do programa, formando uma malha essencial para a conectividade regional.
Objetivos e impacto social
O projeto integra o Programa Norte Conectado, coordenado pelo Ministério das Comunicações e executado com apoio técnico da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). A iniciativa tem como objetivo reduzir a desigualdade de acesso à internet na região amazônica, trazendo conectividade a regiões historicamente excluídas dos grandes investimentos em telecomunicações tradicionais.
A Infovia 02 deve beneficiar cerca de 370 mil pessoas, além de conectar 85 escolas, 12 unidades de saúde, 19 prefeituras, centros de pesquisa, pontos de defesa e unidades do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Modelo de Operação: consórcio aberto e operador neutro
Diferentemente de modelos convencionais concentrados em grandes operadoras, a Infovia 02 seguirá o conceito de operador neutro: uma infraestrutura compartilhada por diversos entes — tanto grandes empresas como operadoras nacionais quanto fornecedores regionais — que utilizam a rede em condições equilibradas e competitivas.
Em 06 de janeiro de 2026, a RNP divulgou o resultado do processo do Consórcio Aberto do Operador Neutro da Infovia 02. As empresas selecionadas foram a Claro S.A., Future Digital LTDA, Global Fiber Brasil LTDA, Instituto de Tecnologia e Inovação Evereste, Ozônio Telecomunicações LTDA, Telefônica Brasil S.A. e Tim S.A. A formalização precisa ainda do aval do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Segundo a seleção pública realizada pelo Ministério das Comunicações, coordenada pela RNP, operadoras interessadas tiveram prazo limitado para apresentar propostas visando integrar o consórcio, com critérios técnicos e regulatórios que garantam regularidade junto à Anatel e capacidade de operação e de manutenção da infraestrutura.
O modelo de consórcio da Infovia 02 funciona como uma parceria em que o governo constrói a infraestrutura principal, enquanto as empresas privadas assumem a operação e a manutenção. As operadoras selecionadas não pagam pelo uso inicial do cabo, mas arcam com uma cota obrigatória de manutenção e têm até cinco anos para investir em seus próprios projetos ópticos, adquirindo equipamentos para “iluminar” seus pares de fibra e prestar serviços de forma independente. Durante esse período de adaptação, elas podem utilizar provisoriamente canais de 100 GB disponibilizados pela RNP para iniciar suas operações. O setor público, por sua vez, reserva seis pares de fibras para uso próprio e não participa dos custos de manutenção, que ficam integralmente sob responsabilidade das empresas. O modelo foi proposto, aprovado pelo CG-PAIS - Comitê Gestor do PAIS – Programa Amazônia Integrada Sustentável, também referido como Programa Norte Conectado, e utilizado inicialmente na Infovia 00, que foi a infovia piloto do programa. Posteriormente, foi sendo utilizado nas demais infovias na medida em que foram sendo finalizadas em sequência – Infovias 01, 03, 04 e 07.
As lições e aprendizados são levados para a próxima infovia na sequência. Neste tempo, a partir da Infovia 00, deu-se maior robustez principalmente nos requisitos da qualidade da Operação e Manutenção das infovias e da integralização de um fundo de reserva financeira para manutenções eventuais de grande vulto na infovia, como o rompimento do cabo subfluvial e locais de difícil acesso. Portanto, o que foi aplicado na Infovia 02 já é um acumulado de lições apreendidas nas demais infovias já compartilhadas com operadoras e provedores no modelo de Operador Neutro.
Para integrar o consórcio, as operadoras precisam vencer um processo licitatório aberto, comprovando capacidade técnica e regularidade fiscal, e garantir que qualquer empresa subcontratada para reparos tenha qualificação específica para atuar no ambiente complexo dos rios amazônicos. Paralelamente, há um esforço estratégico para equipar Manaus com embarcações modernas, dotadas de sondas e softwares especializados, capazes de localizar e reparar cabos rompidos com maior precisão. Na prática, esse arranjo funciona como um condomínio de uma rodovia digital: o Estado constrói a via principal, mas são as empresas que pagam o “pedágio” da manutenção e colocam seus próprios “veículos” — equipamentos, sistemas e serviços — para circular sobre ela.
A RNP estabelece um contrato máster com o consorciado líder e os demais consorciados como anuentes, que garante, através de cláusulas contratuais, a Operação e Manutenção da infovia. Esse contrato contém requisitos de SLA e a obrigatoriedade de seguir um Plano de Gestão que, em caso de descumprimento, está sujeito a multas e penalidades. No entanto, o objetivo principal é assegurar a melhoria contínua da qualidade desta operação e da manutenção, tanto preventiva quanto corretiva, através do aprendizado e da cooperação entre os operadores neutros destas infovias do programa. Os requisitos da operação e manutenção estabelecidos com os Operadores Neutros, na forma de consórcios abertos, representados pelos seus respectivos consórcios líderes, e anuência de seus demais consorciados, são obrigações contratuais contidas nos seus respectivos Contrato Master de Operação e Manutenção, da RNP com o consórcio, para cada Infovia e tem destacadamente a governança do CG-PAIS.
A visão da RNP e os desafios técnicos
Para Eduardo Grizendi, diretor de Engenharia e Operações da RNP, a Infovia 02 representa um salto estratégico na conectividade regional. Ele explicou que o projeto segue o modelo de consórcio colaborativo já testado com sucesso nas infovias anteriores (00 e 01) e que a sustentabilidade a longo prazo depende da pluralidade de participantes e da robustez técnica da infraestrutura.
Grizendi destacou que a Infovia 02 não é apenas um cabo de fibra: trata-se de um sistema completo que exige planejamento meticuloso, desde a instalação em ambientes complexos (rios, florestas e áreas indígenas) até a gestão da operação e manutenção em condições adversas. A expertise adquirida pela RNP e por seus parceiros ao longo de outros projetos é fundamental para enfrentar esses desafios. Ele enfatizou ainda que a manutenção preventiva e corretiva é tão crítica quanto a construção, especialmente em regiões de difícil acesso, tornando essenciais a participação de operadores preparados e a tecnologia apropriada para reduzir os tempos de interrupção.
Outro ponto destacado por Grizendi é o papel da Infovia 02 como nodo de conectividade para tecnologias emergentes, como o 5G, com backhaul em fibra, chegando às estações de radiobase. Isso amplia o impacto do projeto, indo além do acesso fixo à internet e impulsionando a infraestrutura móvel nas comunidades atendidas.
Contexto mais amplo: Norte Conectado e expansão da malha digital
A Infovia 02 faz parte de um programa ainda mais amplo: o Norte Conectado procura implantar até 12 mil km de fibra óptica subfluvial na Amazônia, com investimentos estimados em 1,3 bilhão de reais e potencial para beneficiar 10 milhões de pessoas em 59 municípios de seis estados da Região Norte.
Esse esforço segue a trilha aberta pelas infovias anteriores, como a Infovia 00 (ligando Macapá a Santarém) e a Infovia 01 (Santarém a Manaus), agora complementadas por novos trechos como as infovias 03, 04, 05, 06 e 08, que ampliarão ainda mais a malha de conectividade.
A Infovia 05 que ligará Autazes (AM) a Porto Velho (RO) ao longo do Rio Madeira já está em implantação. As demais, 06, que ligará Manacapuru (AM) a Rio Branco (AC) e a 08, que ligará Fonte Boa (AM) a Cruzeiro do Sul (AC), ainda estão sendo planejadas.
A integração com o Peru
Eduardo Grizendi falou sobre a conexão da Infovia 02 com o Peru, por meio de Tabatinga, que transforma a rede brasileira de uma estrutura linear em uma malha internacional mais resiliente, capaz de garantir estabilidade mesmo nos pontos mais remotos da Amazônia. A chegada da Global Fiber com uma rota vinda do “Sul Global” cria a primeira alternativa real de escoamento de tráfego em caso de falhas entre cidades brasileiras, permitindo que os dados sigam por Lima e retornem ao Brasil por rotas seguras. Essa interligação, diz Grizendi, também inaugura um sistema bilateral em que Brasil, Peru — e, futuramente, Colômbia — funcionam como backups mútuos, evitando que a região fique digitalmente isolada por longos períodos de manutenção subfluvial.
Além de ampliar a redundância, a integração abre novas rotas de trânsito internacional que não dependem exclusivamente da infraestrutura brasileira até o Atlântico, diversificando a saída de dados da região Norte. A Global Fiber, agora parte do consórcio que opera a Infovia 02, reforça esse modelo de gestão compartilhada ao combinar presença física, capacidade técnica e cooperação regional. Na prática, essa rede internacional funciona como a criação de “pontes de retorno”: se um trecho brasileiro sofre um rompimento, explica Grizendi, o tráfego pode ser rapidamente desviado pelo Peru até reencontrar um caminho estável, garantindo continuidade de serviço para cidades que antes ficariam completamente isoladas.
Conexão com a Colômbia
Eduardo Grizendi explica que a conexão da Infovia 02 com a Colômbia, a partir da fronteira entre Tabatinga e Letícia, representa um passo decisivo para transformar a conectividade amazônica em uma rede em malha internacional, capaz de resistir a falhas e manter o fluxo de dados mesmo em situações críticas. O interesse do governo colombiano em replicar o modelo brasileiro e em levar fibra óptica até Letícia reforça essa cooperação, que já envolve articulações diplomáticas e estudos conjuntos. Ao lado do trecho terrestre que passa por Benjamin Constant, essa infraestrutura cria as bases físicas para uma integração que beneficia ambos os países.
O principal ganho dessa conexão é a criação de uma redundância bilateral — assim como ocorre com a ligação com o Peru —, permitindo que o tráfego colombiano seja escoado pelo Brasil e, em contrapartida, que o Brasil utilize rotas colombianas — ou peruanas — em caso de rompimentos entre cidades como Manaus e Tefé. Embora a integração com o Peru esteja mais avançada, a movimentação colombiana reforça a robustez da rede e reduz a dependência de uma única rota subfluvial, frequentemente sujeita a danos sazonais. Na prática, essa interligação funciona como uma rota de fuga digital: se o caminho principal falha, os dados encontram um desvio seguro pelo país vizinho, garantindo que a comunicação na Amazônia nunca seja totalmente interrompida.
Desafios logísticos e ambientais
A construção de cabos subfluviais em rios amazônicos exige ferramentas e conhecimentos específicos. Grizendi mencionou que a experiência da RNP nesse tipo de infraestrutura — incluindo métodos próprios de instalação e recuperação de cabos, além de um licenciamento ambiental complexo — foi construída ao longo de anos de trabalho e de parcerias com diversas entidades. Lançar cabos de fibra óptica submersos em rios por trechos de 800 km a 2.000 km não consta de nenhum manual técnico. A equipe responsável precisou buscar referências em projetos internacionais, apenas para descobrir que, fora da Amazônia, cabos subaquáticos fluviais raramente ultrapassam 40 km.
A comparação deixa clara a escala amazônica: enquanto o mundo trabalha com riachos, o Brasil está conectando verdadeiros oceanos de água doce.
A instalação em áreas indígenas e regiões remotas demanda não só conhecimento técnico, mas também diálogo e aprovações ambientais rigorosas, como as licenças de instalação e de operação exigidas pelo Ibama, que consideram impactos à flora e fauna locais.
Os desafios técnicos, afirma Eduardo Grizendi, não têm sido diferentes das demais infovias do programa. Em especial, a extensão da Infovia 02, predominantemente em cabo subfluvial, maior do que todas as infovias do programa, já é por si só um grande desafio. A existência de trechos terrestres, construídos nos dois extremos da infovia, também tem sido desafiador. Um outro desafio de destaque tem sido o aproveitamento da infovia PAC 01, do Programa Amazônia Conectada, no trecho de Manaus a Tefé, que está sendo substituído por parte terrestre e parte subfluvial.
DWDM e capacidade
O cabo óptico é de 48 fibras. Metade dele, portanto 24 fibras/12 pares, está dedicado para o Setor Privado. Por isto, o limite de 12 empresas, que perfazem o total de 24 fibras. Cada par de fibra pode ser iluminado com Sistema Óptico com potencialmente 20 ou 40 canais ópticos, dependendo do espaçamento óptico espectral, podendo atingir cerca de 4 Tb/s. Potencialmente, as 7 empresas ocupando todos os canais de seus respectivos Sistemas Ópticos, pode-se chegar a 28 Tb/s.
Grizendi explica que esses números não são o aspecto mais importante do projeto no momento, e sim a capilaridade desse dorsal da infovia, com aberturas nas 19 localidades. O uso de um só canal do Sistema Óptico de um consorciado já pode prover 100 ou 200 Gb/s e este, aberto em cada localidade, já é uma capacidade significativa ofertada para a população daquela localidade. 7 empresas, competindo entre si, naquela localidade, cada um com 100 ou 200 Gb/s para atendê-la, já configura uma oferta abundante em um ambiente competitivo que seguramente trará benefícios para ela.
Estes benefícios devem atingir as mais variadas aplicações críticas, incluindo saúde, educação e pesquisa. Em especial, a educação superior e pesquisa deverá ser atendida pela própria RNP, fazendo uso de canais do sistema óptico DWDM, que já opera com canais de 200 Gb/s e capacidade de até 20 canais em um dos seus pares de fibra destinados ao Setor Público.
Grizendi espera que o setor privado, as Prestadoras de Serviços de Telecomunicações que são os consorciados que integram o Consórcio Aberto do Operador Neutro, ofertem todos os seus serviços de seu portfólio de serviços, para que toda população, pessoas físicas e jurídicas, setores públicos e privados, de cada localidade, seja beneficiada com a oferta destes serviços. E que a competição entre elas promova preços acessíveis para estes serviços à população em cada localidade.
O futuro da conectividade amazônica
Com a Infovia 02 prestes a entrar em operação completa, o foco se volta para sustentabilidade, manutenção, expansão e integração com redes nacionais e internacionais, como as discussões em andamento com países vizinhos — especialmente com a Colômbia e o Peru — para a criação de novas rotas e redundâncias da rede.
A expectativa é que, em 2026, as operadoras e fornecedores qualificados comecem a implantar serviços de conectividade em uma série de localidades, com impacto direto nas vidas de milhares de pessoas, na educação, na saúde pública, nas secretarias municipais e no desenvolvimento econômico local.
Eduardo Grizendi finaliza afirmando esperar que a oferta de serviços de telecomunicações, em especial, da Internet, contribua com o desenvolvimento e fortaleça econômica e socialmente a região, com sustentabilidade operacional, financeira e, principalmente, ambiental. Que essa Amazônia também possa ser vista como Amazônia Digital, sem deixar de ser a Amazônia que encanta a todos nós.
Comments