Em um mundo hiperconectado a importância dos cabos submarinos é enorme e não para de crescer. A infraestrutura é essencial para as telecomunicações, sendo responsável por mais de 95% da transmissão de dados entre os países e continentes e, além de empresas de telecomunicações, é utilizada por diversos fornecedores de conteúdo para o transporte de dados. Em um cenário global cada vez mais complexo os cabos submarinos ganham também importância estratégica e geopolítica.

O BRICS, bloco de países emergentes dos quais o Brasil faz parte, recentemente manifestou apoio à criação de cabos submarinos que conectem as nações do bloco. Com esse objetivo, os membros pretendem conduzir um estudo de viabilidade técnica e econômica para a implementação de uma rede de comunicação de alta velocidade por meio desses cabos. De acordo com a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, Luciana Santos, "os cabos de fibra óptica onde hoje circulam os dados são muito concentrado no Norte Global. Nós vamos fazer esse estudo de viabilidade. Foi uma decisão dos 11 países, e nós vamos buscar o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco Bric)".

O Brasil, através do Ministério das Comunicações, lançou a Política Nacional de Cabos Submarinos, que abrirá a possibilidade para a criação de incentivos para que novas rotas de cabos sejam instaladas em locais que estão fora do mapa da conectividade submarina. A medida tem como objetivo reforçar a infraestrutura digital do Brasil, ampliar sua relevância no contexto internacional das telecomunicações e promover maior conectividade em áreas com acesso limitado, especialmente na região Norte do país. Recentemente, o Ministério estendeu até o dia 11 de agosto o prazo para o envio de contribuições à tomada de subsídios da PNCS.

Pensando nesse tema relevante para o mundo e, cada vez mais, para o Brasil, a DCD conversou com empresas e especialistas do setor para entender um pouco mais sobre os cabos submarinos. Eduardo Augusto Pereira, gerente executivo de engenharia de conectividade da Ascenty, acredita que a implementação de cabos submarinos no Brasil tem se expandido significativamente nos últimos anos. De acordo com dados da TeleGeograph, até 2014 o Brasil possuía apenas 4 cabos e na última década experimentou uma mudança total neste cenário com a implementação de 10 novos cabos. O executivo afirma que o crescimento dessa infraestrutura é impulsionado pelo aumento exponencial do tráfego de dados, a necessidade de maior redundância nas conexões internacionais e o fortalecimento da infraestrutura digital do país. Com a demanda crescente por serviços de nuvem, streaming, Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (IA), garantir baixa latência e alta disponibilidade tornou-se um fator estratégico para empresas e governos.

Para Leonardo Miguel Estefan, advogado da área de Telecom do Machado Meyer Advogados, é imprescindível considerar as obrigações regulatórias que incidem sobre esse setor, como os requisitos de cibersegurança estabelecidos pela Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), conforme disposto na Resolução nº 740/2020. Reconhecendo a crescente importância da infraestrutura digital submarina, a ANATEL passou, em 2024, a incluir expressamente as operadoras de cabos submarinos no escopo dessas exigências. Entre as medidas previstas estão a elaboração e atualização contínua de uma Política de Segurança Cibernética, a obrigatoriedade de comunicação de incidentes relevantes e a realização periódica de avaliações de vulnerabilidades.

Já Rafael Lozano, Country Manager Brasil da EllaLink, diz que o Brasil está prestes a se tornar um hub digital transatlântico, da mesma forma que ocorre com Portugal, mas requer políticas integradas para superar entraves burocráticos e fiscais para conseguir atrair investimentos. “A implementação de cabos submarinos e rotas diversificadas é crucial para resiliência da rede, e novas cidade conectadas trazem um impacto positivo na economia e na sociedade brasileira, melhorando a conectividade, facilitando o crescimento digital e reduzindo a brecha digital em regiões com carência de uma conectividade de qualidade, estabilidade e velocidade”.

Os cabos submarinos também não escapam à onda da IA, mas para Lozano sua aplicação em larga escala nos cabos submarinos no Brasil ainda não é uma realidade. A expectativa é que a IA seja cada vez mais integrada para otimizar processos de transmissão de dados, prever picos de tráfego ou automatizar a vigilância e das redes submarinas. Com o aumento da demanda por dados e a digitalização crescente, a implementação de IA em cabos submarinos será uma realidade nos próximos anos.

E se o Brasil tem capacidade de se tornar um ponto importante para a aterragem de cabos, também é verdade que o cenário do mercado de cabos submarinos no Brasil é atualmente complexo, como diz Milene Coscione, sócia da área de Telecom do Machado Meyer Advogados. São apenas 16 cabos, divididos entre três grandes hubs – Fortaleza, Rio de Janeiro e Santos –, que concentram toda a conexão à internet no Brasil. Essa concentração pode representar um risco e impor desafios à conectividade, como nas discussões em torno da criação de uma Usina de Dessalinização na Praia do Futuro, em Fortaleza, que é um dos hubs de conexão. Os debates, inclusive, motivaram a ANATEL a iniciar estudos para a descentralização do ponto de chegada dos cabos submarinos.

subsea cable
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Eduardo Pereira complementa dizendo que outra mudança significativa foi a entrada de fornecedores de conteúdo como proprietários de cabos submarinos, com destaque para empresas como o Google e a Meta, que têm liderado diversos projetos na região e em escala global. Considerando que uma parcela expressiva do tráfego internacional de dados tem origem ou destino nessas plataformas, essas empresas passaram a enxergar essa infraestrutura como um ativo estratégico fundamental.

Se para Rafael Lozano a IA ainda não é uma realidade em larga escala para os cabos submarinos – mas que virá a ser – Chiara Battaglia Tonin, advogada da área de Direito Digital e Proteção de Dados do Machado Meyer Advogados, diz que a interdependência entre inteligência artificial, cabos submarinos e data centers cria um ecossistema fértil para a inovação. Embora o elevado consumo de energia e a conectividade marítima representem possíveis gargalos para o avanço da IA, essa mesma tecnologia tem o potencial de impulsionar uma expansão contínua e sustentável da infraestrutura digital global — reduzindo custos, otimizando o uso energético e fortalecendo a resiliência frente a falhas e ameaças.

A integração eficiente entre cabos submarinos e data centers representa um elemento essencial para assegurar a continuidade da conectividade global. Nesse cenário, a inteligência artificial assume um papel estratégico, impulsionando a inovação, aprimorando a eficiência operacional e promovendo a sustentabilidade da infraestrutura digital.

Entre os diversos aspectos que podem ser otimizados com o uso da IA nessa integração, diz Pereira, destaca-se a otimização do roteamento de tráfego. Por meio de algoritmos inteligentes, é possível analisar em tempo real as condições da rede e ajustar dinamicamente os caminhos dos dados. Isso evita congestionamentos, reduz a latência e garante uma transmissão mais eficiente entre continentes — beneficiando diretamente usuários e empresas que dependem de serviços digitais com alta disponibilidade e desempenho.

Rafael Lozano elenca algumas das aplicações em que a IA pode ser utilizada nos cabos submarinos: analisar padrões de tráfego de dados em tempo real e otimizar o roteamento para garantir a melhor eficiência e menor latência; integração de sensores para avaliação das necessidades de manutenção de sistemas, aumentando a eficiência operacional e prolongando, potencialmente, a vida útil dos equipamentos; ajudar a gerenciar o consumo de energia dos data centers, ajustando dinamicamente a capacidade computacional com base na demanda e nas condições de rede; modelos de IA podem ser aplicados para detectar ameaças e anomalias de segurança em tempo real, salvaguardando os dados transmitidos via cabos submarinos e armazenados em data centers e, por fim, a IA pode automatizar processos repetitivos e complexos, liberando recursos humanos para tarefas mais estratégicas e criativas.

A gestão energética é um ponto relevante, já que a implementação da IA pode ajudar a otimizar o consumo de energia, reduzindo custos e minimizando impactos ambientais. Eduardo Pereira, da Ascenty, fala que sistemas inteligentes podem monitorar variáveis como temperatura, umidade e carga de trabalho, ajustando automaticamente o resfriamento e o balanceamento de carga para garantir um uso mais eficiente da energia disponível. Isso viabiliza que empresas que contratam apenas parceiros com boas práticas de ESG tenham cada vez mais opções disponíveis no mercado operando com eficiência energética - o que traz maior pluralidade ao setor.

O avanço da inteligência artificial exige a expansão contínua da infraestrutura digital, mas também pode atuar como catalisador desse processo, estabelecendo um ciclo virtuoso de inovação sustentável. Juliana Abrusio, sócia da área de Direito Digital e Proteção de Dados do Machado Meyer Advogados destaca o Projeto de Lei de Inteligência Artificial (PL 2338/23), aprovado pelo Senado no final do ano passado e atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados. Essa proposta tem o potencial de criar um ambiente regulatório favorável à atração de investimentos no país, especialmente nos setores ligados a data centers e à ampla cadeia econômica que os envolve. Para Abrusio, é uma janela estratégica de oportunidade que o Brasil não pode se dar ao luxo de perder.