A Intel vive globalmente um de seus melhores momentos em anos, impulsionada pela demanda crescente por infraestrutura de data centers, e a América Latina acompanha esse movimento, avalia João Bortone, que assumiu recentemente o cargo de diretor-geral da companhia para a região. Pegando carona na onda do ReData, que foi aprovado no Senado e segue para sanção presidencial, e levando em consideração o panorama retratado acima, a DCD conversou com Bortone para entender um pouco mais sobre o setor brasileiro de data centers, os negócios da Intel e as possibilidades do mercado no país. Bortone traçou um retrato do setor, comentou os efeitos da aprovação do ReData pelo Congresso Nacional e detalhou a aposta da Intel na inferência de inteligência artificial como o próximo grande motor de crescimento do mercado.

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Intel® Xeon®6 – Intel

Antes de assumir a posição na Intel, Bortone passou quatro anos na Lenovo, onde comandou as divisões de data center para a América Latina, e teve uma passagem de dez anos pela Dell, também atuando com data centers. Ao longo da carreira, o executivo trabalhou também em empresas como Microsoft e Google, além de ter experiência anterior na própria Intel, há cerca de 20 anos. O retorno à companhia veio a convite de Gisselle Ruiz Lanza, hoje vice-presidente da Intel EMEA (Europa, Oriente Médio e África), que o chamou para dar sequência ao trabalho na região em um momento que ela classificou como "excelente" para a Intel.

ReData: primeiro passo, mas não o único

Para começar a conversa já falando sobre o assunto da semana, Bortone afirmou que a aprovação do ReData pelo Congresso representa um avanço relevante para posicionar o Brasil como um hub de dados no cenário global e funciona como um sinal do governo de que pretende atrair investimentos para o país. Ainda assim, Bortone pondera que a lei é apenas o começo de um caminho mais longo, que também depende de um plano energético consistente, de mão de obra qualificada e, principalmente, de previsibilidade jurídica de longo prazo, fatores que, segundo ele, pesam tanto quanto o marco regulatório específico do setor de data centers.

Para o executivo, a cadeia produtiva de um data center vai muito além dos equipamentos de TI, envolvendo construção civil, mão de obra especializada e, posteriormente, o fornecimento de servidores e aplicações, incluindo as chamadas fábricas de IA. Ele ressalta que essa onda de investimentos não deve perder força tão cedo, dado o apetite crescente por capacidade computacional em todo o mundo.

Burocracia e energia como principais gargalos

O Brasil é um país conhecido por sua burocracia e a questão dos entraves regulatórios não é um obstáculo menor. Bortone classificou o ambiente de negócios do país como um ponto fraco histórico, associado à falta de uma política industrial de longo prazo que ofereça previsibilidade aos investidores, um problema que, segundo ele, não afeta apenas o setor de tecnologia, mas também a indústria brasileira como um todo nas últimas décadas.

Sobre energia, o executivo destacou que o Brasil tem uma posição privilegiada, com cerca de 80% a 85% da matriz provenientes de fontes renováveis, e que, em algumas regiões, há até excedente de energia, o que também gera desafios para a malha elétrica, já que a energia não pode ser estocada. Ainda assim, ele reconhece que o custo da energia no país segue elevado, reflexo de decisões tomadas no setor elétrico ao longo dos anos, e que a escassez de mão de obra especializada é outro gargalo estrutural relevante para o crescimento do setor.

O papel da Intel no ecossistema de data centers

Bortone explicou que a atuação da Intel no Brasil e na América Latina é comercial, com equipes de vendas, marketing e suporte técnico dedicadas a segmentos como o enterprise, o varejo e os canais. A fabricação dos processadores ocorre em unidades fabris nos Estados Unidos e na Ásia, sem produção na América Latina, enquanto o design de produtos futuros é desenvolvido em um centro de pesquisa da companhia em Guadalajara, no México.

O executivo reforçou que o trabalho da Intel se estende por todo o ecossistema do setor, incluindo fabricantes de computadores, parceiros de negócio, desenvolvedores de software, integradores e clientes finais, muitas vezes em um papel de consultoria sobre os rumos da tecnologia. Nesse contexto, ele também citou a parceria da companhia com a Foxconn para o desenvolvimento de infraestrutura de inteligência artificial de nova geração, que vai do silício às aplicações, como parte da estratégia global da Intel de somar forças a outros players para ganhar eficiência na produção e na entrega.

Inferência de IA como o novo motor de crescimento

IA, como não podia deixar de ser, foi um dos tópicos da entrevista e talvez um dos mais importantes. Hoje, não há como falar de negócios sem falar de IA, e a Intel não é diferente. Pedimos a visão de Bortone sobre a mudança de eixo da inteligência artificial, dos grandes modelos de linguagem (LLMs) treinados em nuvem para a inferência distribuída na ponta. Segundo o executivo, enquanto o treinamento de modelos concentra o processamento em data centers de grande escala, a inferência tende a se espalhar por notebooks, smartphones e dispositivos corporativos, impulsionada por fatores como a latência e a soberania de dados. Para ilustrar o potencial da inferência distribuída, o executivo citou o caso do Hospital Sírio-Libanês, que já utiliza agentes de IA capazes de analisar radiografias de pulmão em alta velocidade, sem depender necessariamente da nuvem.

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Intel vPro® – Intel

Nessa mesma lógica, Bortone defendeu o conceito de PC com IA embarcada (IA PC) como o "novo normal" do mercado corporativo, permitindo executar cargas de trabalho localmente e reduzir o consumo de tokens na nuvem, tema que, segundo ele, já está no radar de empresas e governos. Ele também projetou um futuro próximo em que cada usuário terá um agente pessoal de IA rodando no próprio notebook, citando o exemplo de bancos que já trabalham com consultores financeiros baseados em inteligência artificial, personalizados para cada cliente.

Escassez de componentes e nova percepção de preço

Sobre a atual escassez de componentes, como memórias e SSDs, o executivo observou que o mercado de PCs consegue equilibrar, de forma razoável, oferta e demanda, mas o segmento de data centers deve conviver com um aperto de oferta por mais tempo, já que a produção mundial não acompanha o ritmo de demanda dos grandes hiperescalas. Ele avalia que a percepção de preço dos equipamentos mudou de forma definitiva, fazendo uma analogia com o mercado automotivo, no qual o valor de referência de um carro considerado bom mudou significativamente nos últimos anos. Questionado se os preços de infraestrutura de data center podem recuar, Bortone foi cauteloso, associando o movimento à lógica básica de oferta e demanda, enquanto a compra por parte de um número reduzido de grandes hiperescalas segue aquecida.

Consumo energético e oportunidade de eficiência

O consumo de energia é um dos principais temas a serem discutidos em relação aos data centers. Especialmente a percepção da opinião pública sobre o tema. Há, com razão, desconfiança quanto à quantidade de energia consumida pelos data centers e quanto a se essas estruturas podem causar algum prejuízo à localidade em que estão ou podem estar instaladas. Sobre essa questão, Bortone citou o fenômeno observado nos Estados Unidos, em que a instalação de data centers de grande porte em cidades pequenas tem gerado debates locais sobre o impacto na matriz elétrica das comunidades, movimento que, segundo ele, já começa a se repetir no Brasil, com projetos em cidades do interior, como Atibaia, atraídas também pelo menor custo da terra. O executivo destacou que, por ter uma base instalada de servidores relativamente antiga, o Brasil tem uma importante oportunidade de eficiência energética por meio da renovação tecnológica: segundo ele, a atualização de equipamentos para processadores mais modernos pode reduzir o consumo de energia em até 30% e liberar até 70% do espaço físico atualmente ocupado.

Computação de borda: Brasil concentra metade dos investimentos da América Latina

Sobre a computação de borda (edge AI), Bortone reforçou que grande parte da inferência de inteligência artificial deve rodar fora dos grandes data centers, citando exemplos como mineradoras que processam dados próximos às minas e redes de varejo e fast-food com lojas cada vez mais inteligentes. Um dos diferenciais apontados pelo executivo é que essas cargas de inferência não necessariamente exigem GPUs, podendo ser executadas em CPUs, o que reduz consideravelmente o custo das soluções.

Ao comentar dado citado por Fabiano Sabatini, gerente de alianças e líder de Edge AI Latam da Intel, em entrevista ao DCD Studio no DCD Connect São Paulo 2025, de que o Brasil concentra metade dos investimentos em computação de borda na América Latina, Bortone atribuiu o protagonismo brasileiro à escala continental do país, à sua população numerosa e à maturidade digital em setores como o financeiro, com o Pix como exemplo de tecnologia adotada em larga escala, e ao uso disseminado de nuvem pública, apontado por grandes provedores como um dos principais mercados consumidores do mundo.

João Bortone
João Bortone – Intel

O executivo também comentou a estratégia de canais da Intel na região, afirmando que a companhia já trabalha de perto com desenvolvedores, integradores globais e locais (GSIs) e pretende aprofundar essa relação, especialmente diante da complexidade de soluções que combinam diferentes tipos de equipamentos, como em projetos de cidades digitais. Para ele, computação de borda e hiperescala não competem entre si, mas se complementam, o que abre espaço para o crescimento simultâneo de ambos os modelos em um mercado ainda carente de infraestrutura.

Ao ser questionado sobre o horizonte de dois a três anos para o setor no Brasil, Bortone disse-se otimista, na expectativa de que o país continue entre as maiores economias do mundo e se firme como referência digital. Ele citou o ReData, com um período de vigência de cinco anos, como um instrumento capaz de atrair novos investimentos de peso para o país, mencionando, como exemplo, o projeto de data center da ByteDance, dona do TikTok, no Nordeste brasileiro.

Para o executivo, atrair esse tipo de investimento gera empregos diretos e indiretos e coloca o Brasil no radar de grandes companhias globais de tecnologia — um avanço que, na sua visão, depende tanto da iniciativa privada quanto de políticas públicas consistentes. "Eu acho que a gente avançou bastante e acredito que ainda tem espaço para avançar mais", concluiu.