O Brasil já tem, espalhada pelo território, a base física para um parque nacional de data centers de borda, e ela está nas mãos dos provedores regionais de internet. Essa é a tese defendida por Rodrigo Schuch, presidente-executivo da Associação NEO, em entrevista concedida à DCD. Segundo o executivo, ao menos 4.280 pontos de presença (PoPs) mantidos por operadoras de telecomunicações poderiam ser convertidos em pequenos data centers, com investimento estimado em cerca de R$ 2 bilhões.
Schuch está à frente da entidade desde maio de 2022 e soma quase 27 anos de experiência no setor de telecomunicações. Antes de chegar à associação, passou pela Shell, pela Brasil Telecom, pela Oi e pelo grupo Algar. Ele contou que a NEO, também prestes a completar 27 anos, nasceu como NEO TV, voltada a operadoras independentes de TV por assinatura, e mudou de perfil à medida que o mercado de TV paga encolheu e o de banda larga cresceu.
Hoje, de acordo com o presidente-executivo, a associação reúne cerca de 150 provedores que conectam aproximadamente 15 milhões de endereços, em um universo de 56 milhões de acessos de banda larga fixa contabilizados pela Anatel. Ele acrescentou que todos os novos entrantes do 5G são associados da NEO, o que também coloca a entidade na pauta móvel.
Rede descentralizada como vantagem
O interesse da associação por data centers, explicou Schuch, decorre da própria natureza da operação de telecomunicações. Para prestar serviços de banda larga e telefonia, as operadoras precisam de PoPs, estruturas onde alocam seus equipamentos, e a chegada dos provedores regionais multiplicou essas instalações de forma descentralizada em todo o país.
Esse desenho contrasta, segundo ele, com a concentração dos data centers no Sudeste, já que São Paulo responde por metade das instalações do país, o que gera gargalos de tráfego e de latência. O executivo lembrou que o Brasil tinha apenas quatro pontos de troca de tráfego (PTTs) em 2016 e hoje conta com 38, presentes em todos os estados, de modo que já não é necessário levar o tráfego a São Paulo para a troca entre redes.
Na avaliação de Schuch, o Brasil é provavelmente o país com a infraestrutura de banda larga fixa mais descentralizada do mundo. Ele observou que o país ocupa a terceira posição global em banda larga fixa, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, e a quinta em banda larga móvel, mas aparece apenas em 12º lugar quando o assunto é data center. Distância que, para ele, indica um espaço significativo para crescimento.
Schuch citou como exemplo as redes de entrega de conteúdo (CDNs) de plataformas de streaming, que já estão hospedadas nos PoPs dos provedores. Assim, um assinante no interior do Ceará não precisa ir a São Paulo para assistir a um filme. Segundo ele, a mesma lógica pode ser aplicada aos data centers, e muitos desses serviços já mantêm mais CDNs no Brasil do que nos próprios Estados Unidos, justamente por causa da capilaridade da rede nacional.
IA, energia e o papel da borda
A inteligência artificial, segundo o presidente-executivo, reforça a necessidade de descentralização. Ele argumentou que o tráfego gerado por aplicações de IA é muito maior do que o do streaming e tende a congestionar qualquer rede se não for distribuído perto do usuário. Schuch mencionou estudos externos segundo os quais, por questões de latência e qualidade, o processamento de IA não poderá ficar a mais de 100 quilômetros do cliente.
Outro argumento é energético. Segundo o executivo, o consumo proporcional de um data center de borda é muito menor do que o de uma instalação de hiperescala. Ele afirmou que o Brasil não tem problema de geração, já que mais de 88% da matriz elétrica é renovável, nem de transmissão, mas sim de distribuição na última milha. Concentrar toda a infraestrutura no Sudeste, o maior centro consumidor, agravaria esse gargalo, enquanto estruturas espalhadas por regiões com excedente de energia, como o Norte e o Nordeste, seriam mais eficientes.
Schuch ressaltou que a proposta não coloca a borda em competição com os hiperescalas. Pelo contrário: ele prevê que, nos próximos anos, os grandes provedores de nuvem serão os maiores demandantes dessas estruturas menores, que funcionarão como complemento para processar conteúdo e executar aplicações mais perto do cliente final.
ReData é avanço, mas não basta
A NEO integrou a coalizão que trabalhou pela aprovação do ReData, o regime especial de tributação para data centers sancionado em setembro. Schuch relatou reuniões com o vice-presidente Geraldo Alckmin e com a equipe do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), bem como com seu secretário, Rodrigo Zerbone, sobre o tema.
Na leitura da associação, o regime não é exclusivo para hiperescalas, pois incide sobre os equipamentos usados em data centers, incluindo também os necessários para instalações de borda. O executivo disse que a entidade comemorou a medida, mas alertou para a corrida contra o tempo, já que a reforma tributária começa a produzir efeitos no ano que vem e os provedores precisam se apropriar do benefício rapidamente.
Ainda assim, Schuch avaliou que o ReData, por si só, não promoverá a transformação necessária. Segundo ele, os tributos estaduais pesam mais do que os federais e agora são o foco da mesma coalizão. Sobre o desconto de 20% previsto para projetos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o executivo ponderou que o problema de fundo é o alto custo de capital no país: enquanto um hiperescala sempre pode optar por investir em outro mercado, para uma operação pequena, a decisão é uma questão de sobrevivência, e o provedor tende a priorizar a banda larga, negócio que já conhece.
A associação também defende ampliar o uso do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para data centers. O BNDES já criou uma linha para que provedores invistam em data centers com recursos do fundo, e o primeiro projeto contemplado foi a expansão do Mega Lobster, da Tecto, em Fortaleza. Schuch afirmou que a NEO discute agora destinar até 50% dos recursos a esse fim, sob o argumento de que a universalização das telecomunicações está praticamente completa.
O desafio é a demanda
Para o presidente-executivo, o maior obstáculo dos data centers de borda não é técnico, e sim de demanda. Os pequenos operadores têm dificuldade em competir com os grandes provedores internacionais em preço e confiabilidade, e o resultado, segundo ele, é que as prefeituras acabam contratando processamento de dados fora do país.
A proposta da NEO é que o governo coordene um programa de soberania de dados capaz de direcionar demanda para esse ecossistema descentralizado. Schuch citou o SONiC, sistema operacional de rede de código aberto desenvolvido pela comunidade, que trouxe ganhos expressivos em Capex e Opex, e sugeriu que o software poderia ser adotado como plataforma brasileira sob gestão do governo. Na visão dele, com demanda garantida, os empresários brasileiros do setor investirão.
O executivo destacou ainda que o governo é hoje o maior contratante de data centers do país, com plataformas digitais como o gov.br, e que os provedores já mantêm proteções de segurança para seus clientes de banda larga, ainda que precisem reforçá-las para hospedar dados de terceiros. Ele também apontou que o Brasil importa cerca de 60% da capacidade de processamento que consome e defendeu que o país pode não só atender toda a demanda interna, como também exportar serviços de data center.
Os critérios do estudo
O levantamento da associação, divulgado anteriormente, partiu de um universo de mais de 100 mil PoPs no país. Schuch detalhou que a consultoria contratada pela NEO considerou estruturas de 25 a 100 m², instaladas em áreas térreas, e não em prédios, com dupla ou tripla abordagem de telecomunicações e diferentes formas de alimentação elétrica, incluindo energia solar.
O executivo frisou que o número não significa que haja demanda imediata para todas as unidades, nem que a conversão deva ocorrer de uma só vez. A dimensão, porém, chama a atenção: segundo ele, o país líder do setor, os Estados Unidos, tem cerca de 5 mil data centers, enquanto o Brasil conta hoje com aproximadamente 200 empresas do segmento. Um projeto dessa escala, afirmou, poderia aproximar o mercado brasileiro do norte-americano e reforçar a resiliência de uma rede que, por ser descentralizada e interconectada, já oferece redundância estratégica para a defesa nacional.
Questionado sobre a capacidade técnica dos provedores, Schuch respondeu que eles já operam estruturas desse tipo, embora sem certificação. Mencionou associados a data centers em Manaus, no Amazonas, no Ceará, em outros estados do Nordeste e no Sul, hoje voltados ao consumo próprio. Segundo ele, um PoP já reúne interconexão de redes, refrigeração e energia — todas as características de um data center —, e o passo que falta é abri-lo à venda para outros clientes.
Política de Estado e soberania
A associação defende uma política de Estado permanente para data centers, capaz de atravessar diferentes governos, nos moldes do próprio Fust. Schuch preferiu não apontar quem deveria coordená-la, observando que a definição cabe ao governo e provavelmente envolverá vários ministérios, mas afirmou que a NEO trabalha com a atual gestão para construir um ambiente jurídico e econômico estável para o investimento privado.
O executivo argumentou que os empresários de banda larga fixa são todos brasileiros e reinvestem suas riquezas no país, o que os torna peças naturais de uma estratégia de soberania. Ele também comparou a carga tributária sobre serviços, que seria cerca de três vezes a do Paraguai. Entre as ideias apresentadas ao governo está a instalação de data centers junto a institutos e universidades federais, aproveitando PoPs já localizados próximos a essas instituições, o que estimularia o desenvolvimento de aplicações e a formação de profissionais no país.
Prioridades para os próximos anos
Sobre a agenda da associação, Schuch disse que a banda larga fixa seguirá no radar, mas que o mercado se aproxima da plenitude da conectividade e deve passar por uma consolidação natural. Ele lembrou que há cerca de 19 mil empresas no segmento, número que chega a 30 mil segundo os registros da Anatel, um cenário sem paralelo no mundo.
A entidade também pretende acompanhar mais de perto o serviço móvel, uma vez que os novos entrantes no leilão do 5G têm a obrigação de atender cidades com até 30 mil habitantes. Para o executivo, a trajetória pode repetir a da banda larga fixa, em que os provedores cresceram no interior antes de chegarem às capitais. Data centers e inteligência artificial completam a lista: Schuch prevê que, no futuro, serviços de IA poderão compor as ofertas de banda larga e de telefonia, como hoje fazem o streaming e os livros digitais.
Comentários