Ericsson Kista HQ
– Paul Lipscombe

Quando se pensa na Suécia, o mais provável é que venham à mente móveis desmontáveis, montadoras de carros confiáveis, almôndegas e, quase com certeza, o Abba.

Mas, neste ano, outro ícone sueco está em evidência: a gigante de telecomunicações Ericsson, que celebra seu 150º aniversário.

Para quem tem certa idade, o nome Ericsson pode trazer lembranças da Sony Ericsson, a joint venture de celulares da empresa com a Sony nos anos 2000. Mas a história é muito maior do que apenas aparelhos.

“A Ericsson é o que está por trás de todos os telefones celulares”, explica Gunnar Wetterberg, escritor e historiador sueco. “Ela fornece o conhecimento que torna possível nos conectarmos uns com os outros, além das estações rádio base que ligam todos os celulares e todas as redes móveis entre si.”

Wetterberg é autor do livro recém-lançado Connected: Engineering across generations, que conta os 150 anos de história da Ericsson, desde sua fundação até os dias de hoje.

De volta às origens

A DCD foi a Estocolmo em meados de junho, à sede da Ericsson, para um mergulho na história da fornecedora, no momento em que a gigante das telecomunicações olha para o futuro.

A fornecedora de redes foi criada logo depois de Alexander Graham Bell inventar o telefone. A versão moderna do trabalho de Bell é a operadora móvel norte-americana AT&T. Apenas semanas depois, Lars Magnus Ericsson fundou a Ericsson, em 1º de abril de 1876, inicialmente como uma oficina de reparos. Curiosamente, a data é exatamente 100 anos anterior à fundação da gigante de tecnologia Apple.

“Ele era autodidata”, diz Wetterberg sobre o fundador da empresa. “Nunca teve muita escolaridade, mas recebeu formação no ambiente de trabalho.”

Inicialmente aprendiz de ferreiro, Ericsson aprendeu o ofício no exterior, na Alemanha e na Suíça, depois de receber uma bolsa do Conselho Nacional de Comércio da Suécia. Durante os dois anos longe de Estocolmo, passou por diferentes oficinas alemãs e dedicou boa parte do tempo à Siemens & Halske, então a principal empresa do setor de telegrafia.

“Ele trabalhava em uma oficina que atendia a Agência Nacional de Telégrafos da Suécia, e foi lá que se formou. Mas, quando voltou da Alemanha, seu posto de encarregado já tinha sido ocupado. Então decidiu montar sua própria oficina, e começou uma pequena oficina no centro de Estocolmo”, explica Wetterberg.

No início, a Ericsson tinha apenas quatro funcionários e consertava telefones importados da Alemanha e da Bell. Pouco tempo depois, a empresa passou a fabricar seus próprios aparelhos para oferecer preços menores que os da Bell.

Lars Magnus Ericsson comandou a empresa de 1876 até 1900.

Resistindo ao tempo

Esses primeiros anos abriram caminho para uma empresa que resistiu ao tempo em meio a muitos desafios, afirma Wetterberg.

“O notável na Ericsson é que ela sobreviveu a cinco ou seis grandes mudanças tecnológicas, e todos os seus rivais, todos os concorrentes daquela época, desapareceram ou, pelo menos, deixaram as telecomunicações. Os que restam hoje, Huawei, Samsung, Nokia, têm apenas 30 ou 40 anos, e isso é bastante impressionante”, diz Wetterberg.

Ao longo desses 150 anos, a fornecedora também sobreviveu a diversas crises financeiras, observa ele.

E, um século e meio depois, os desafios continuam. Nos últimos anos, a fornecedora tem enfrentado um mercado de RAN estagnado, em um período em que as operadoras de telecomunicações lutam para maximizar seus lucros.

Isso acontece enquanto as operadoras investem pesado para construir e manter redes, ao mesmo tempo em que os consumidores veem o serviço móvel como uma commodity barata, o que pressiona as margens das operadoras.

A própria Ericsson vive um momento interessante, enquanto o mundo tenta entender as promessas da IA. A fornecedora tem a missão de incorporar recursos de IA em sua rede móvel.

Ericsson through the years
Alguns dos hardwares de consumo da Ericsson ao longo dos anos – Paul Lipscombe

Conduzir a empresa no boom da IA será responsabilidade de Per Narvinger, recém-nomeado CEO da companhia.

A notícia da transição, aliás, saiu justamente durante a visita da DCD à sede da Ericsson em Kista. Em uma tarde úmida de verão, a Ericsson anunciou que o então CEO Börje Ekholm deixaria o cargo depois de quase uma década no comando.

“Caros colegas, as montanhas estão chamando. Preciso ir”, começava o e-mail interno de Ekholm aos funcionários. A equipe na sede não se surpreendeu com o anúncio, já que a saída do CEO vinha sendo cogitada desde 2025.

Ekholm era CEO da Ericsson desde 2017. Nesse período, conduziu o lançamento do 5G pela empresa e atravessou uma pandemia global e os primeiros anos da revolução da IA. Ele deixa oficialmente o cargo no fim de setembro, mas seguirá como conselheiro executivo de Narvinger até junho de 2027.

Narvinger conhece bem a Ericsson: passou toda a sua carreira de 28 anos na empresa, onde começou como engenheiro de pesquisa. Mais recentemente, era vice-presidente executivo e chefe da área de redes.

“Este é um momento crucial para o nosso setor. À medida que a IA continua a se industrializar, ela vai exigir cada vez mais soluções avançadas de conectividade, uma área em que a Ericsson é líder”, disse Narvinger ao ser nomeado.

Trabalho a fazer no 5G

Enquanto Ekholm literalmente parte rumo às montanhas, seu sucessor terá trabalho para levar a estratégia de 5G da Ericsson a um novo patamar, em meio às mudanças em curso.

No setor como um todo, a era do 5G não decolou como se esperava. As promessas de casos de uso iniciais, como realidade aumentada, veículos autônomos e cidades inteligentes, não se concretizaram conforme o previsto.

Diversas vozes influentes do setor criticaram o impacto do 5G, mas a Ericsson ainda não desistiu da tecnologia. “A sensação é de que há muito mais a ser feito dentro do escopo do 5G”, diz à DCD Gabriel Foglander, chefe de liderança estratégica de RAN da Ericsson.

“Estamos na metade do ciclo do 5G, em que houve um foco concentrado na expansão da capacidade e da cobertura da camada de 3,5 GHz na maioria dos mercados, o que, em muitos casos, quase dobrou os ativos de espectro disponíveis para o usuário final.”

Foglander aponta o acesso fixo sem fio (FWA, na sigla em inglês) como um dos principais casos de uso do 5G.

Se as críticas ao ciclo de vida do 5G até agora são justas, é certamente algo discutível. O 5G foi a tecnologia móvel de crescimento mais rápido da história, com mais de 3 bilhões de assinantes conectados às redes no mundo.

Ericsson founder Lars Magnus Ericsson
Lars Magnus Ericsson, fundador da Ericsson – Paul Lipscombe

A Ericsson forneceu equipamentos de rede para 187 redes 5G comerciais no mundo. A maioria das operadoras e dos mercados implantou inicialmente o 5G Non Standalone (5G NSA), construído sobre o núcleo do 4G. A empresa busca apoiar as operadoras na migração a partir do 5G NSA, acrescenta Foglander.

“Acreditamos firmemente que ainda há muito a fazer na conversão de operações centradas em NSA para uma abordagem mais Standalone, liberando a diversidade de necessidades de comunicação que vem com essa transição”, diz.

“Passar do NSA para o SA libera eficiências na rede, então é um bom caso de investimento se você está modernizando seus equipamentos, porque é possível destravar muita capacidade, eficiência espectral e também eficiência energética.”

Segundo Foglander, as operadoras que adotaram o 5G SA mais cedo tiveram mais sucesso em gerar oportunidades de monetização. Elas exploram tecnologias exclusivas do 5G SA, como o fatiamento de rede (network slicing), para oferecer experiências personalizadas aos usuários.

“Não acho que tenha sido necessariamente um grande arrependimento fazer isso [NSA] na primeira fase, porque permitiu uma adoção rápida e a expansão da banda média. Acho que o arrependimento deveria ser termos permanecido nele por tempo demais”, afirma Foglander.

Ele também destaca o sucesso da China com o 5G, depois de o país desativar o NSA poucos anos após o início do ciclo. A China é, claro, a sede de uma das grandes rivais da Ericsson, a Huawei.

Aprendizados antes do 6G

Ainda assim, essas lições podem ser levadas para a era do 6G, diz Foglander. Ele sugere que o 6G provavelmente terá recursos standalone introduzidos muito mais cedo em seu ciclo de vida.

Quando o 5G foi lançado pelas operadoras móveis em 2018, as primeiras redes eram baseadas em infraestrutura 5G NSA, que aproveitava o núcleo do 4G. Para alguns críticos, o “verdadeiro 5G” só chegou com o 5G SA.

“Isso definitivamente molda as estratégias de introdução do 6G”, diz Foglander. “Estamos totalmente de acordo que esse seria um bom modelo de transição, porque garante que, se você investir em uma rede SA adequada, evita ficar preso na fase inicial do 6G e cometer um erro, ou permanecer tempo demais no NSA.”

Ericsson's radios
Detalhe da tecnologia de rádio da Ericsson – Paul Lipscombe

Segundo ele, a distância entre o 5G e o 6G será mais fácil de superar do que a do 4G para o 5G. Para isso, a Ericsson aposta em seu compartilhamento de espectro com múltiplas tecnologias de acesso por rádio (multi-RAT), visando uma convivência “eficiente” entre 5G e 6G.

“Havia certa complicação porque o 4G e o 5G tinham propriedades físicas diferentes, então era difícil fazer essa ponte do ponto de vista da eficiência de overhead”, diz. “Mas agora, como o 5G e o 6G estão mais alinhados na camada física, conseguimos projetar uma solução de compartilhamento de espectro do 5G para o 6G de forma muito mais eficiente.”

Embora os padrões 3GPP do 6G ainda estejam sendo definidos, a Ericsson se prepara para a tecnologia desde 2019, quando o 5G ainda engatinhava.

A Ericsson conduziu diversos projetos de pré-padronização do 6G, em âmbito regional e nacional. No início deste ano, a fornecedora concluiu uma sessão over-the-air (OTA) de 6G pré-padrão.

Ainda não está totalmente claro como será o 6G quando essas redes chegarem comercialmente, o que deve ocorrer no fim desta década e no início dos anos 2030. A aposta, porém, é que essas redes serão construídas em torno da IA.

Em fevereiro, Erik Ekudden, vice-presidente sênior e diretor de tecnologia da Ericsson, afirmou que o objetivo da empresa é ser “a fornecedora das melhores redes para IA”.

Em vez de esperar pelo 6G, a fornecedora já lançou uma série de rádios preparados para IA e incorpora AI RAN em seu software, para criar redes mais inteligentes e eficientes em energia.

Foglander indica ainda que a estratégia de Open RAN da empresa vai continuar no 6G. Inicialmente cética em relação ao conceito, a fornecedora mudou consideravelmente de posição e fechou contratos lucrativos com operadoras como AT&T, Vodafone e Orange, entre outras.

“Apostamos que isso [Open RAN] vai continuar”, diz Foglander. “Eu diria que estamos executando todas as camadas da nossa estratégia de Open RAN e, atualmente, temos 160 rádios prontos para Open RAN.”

“Estamos totalmente comprometidos com a ideia de que isso se torne a interface do 6G e continuamos investindo em SMO (gerenciamento e orquestração de serviços). Acho que agora isso terá um papel importante também como plataforma para incorporar IA agêntica à RAN.”

Passando o bastão

A Ericsson já incorpora IA em sua RAN, como parte da transição de sistemas manuais para sistemas mais autônomos, orientados por IA.

O fato de a empresa já fazer isso em sua rede 5G é animador para as operadoras às vésperas da chegada do 6G, especialmente porque a demanda por inferência com latência ultrabaixa deve crescer ainda mais.

Na sede da Ericsson, a fornecedora faz questão de mostrar suas tecnologias mais recentes no Imagine Studio, que oferece um vislumbre dos casos de uso que a empresa espera viabilizar.

Ao mesmo tempo, a Ericsson se orgulha igualmente de sua herança como uma das instituições de telecomunicações mais antigas do mundo. A empresa exibe parte de seus equipamentos históricos e destaca seu papel no desenvolvimento de tecnologias-chave como o Bluetooth, que surgiu em seus laboratórios no início dos anos 1990 e foi batizado em homenagem a um rei viking.

Por ora, o foco principal da empresa está em sua infraestrutura de rede, na qual a IA terá um papel enorme. “Começamos a investir em IA há mais de uma década e, nos próximos dois a três anos, a IA fará cada vez mais parte das nossas soluções”, afirmou Ekholm em 2023.

Narvinger recebe o bastão de Ekholm para conduzir a fornecedora mais fundo na era definida pela IA. No início do século 20, a Suécia era um dos mercados de telecomunicações mais importantes do mundo, principalmente graças a Lars Magnus Ericsson. Cento e cinquenta anos depois, a empresa continua tão importante quanto antes para o setor.