A crescente demanda por energia dos data centers tornou-se uma das questões mais debatidas na indústria de tecnologia. A expansão da nuvem, a digitalização e a inteligência artificial estão impulsionando a construção de novas infraestruturas e aumentando a pressão sobre as redes elétricas da América Latina.

No entanto, uma comparação ajuda a colocar os números em perspectiva: o Brasil consome mais eletricidade em cerca de um mês do que todos os data centers da América Latina ao longo de um ano.

A afirmação é surpreendente, mas os dados disponíveis a apoiam. Também exige algumas nuances, pois estamos comparando o consumo da maior economia regional ao de um único setor. Seu propósito não deve ser minimizar o impacto dos data centers, mas sim dimensioná-los corretamente.

Brasil: mais de 560 TWh por ano

De acordo com a Energy Research Company (EPE), o Brasil consumiu aproximadamente 561,6 TWh de eletricidade em 2024. Isso representa uma média próxima de 47 TWh por mês, embora o número varie conforme da temperatura, a atividade econômica e a sazonalidade.

Em fevereiro de 2025, por exemplo, o consumo nacional atingiu 47,85 TWh, o maior nível mensal registrado até então na série histórica iniciada em 2004. Em dezembro do mesmo ano, ela estava em 47,62 TWh.

Altas temperaturas têm uma influência crescente. A EPE associou algumas das altas recentes ao uso mais intenso de ventiladores e de sistemas de ar-condicionado durante os episódios de calor. O desenvolvimento populacional, a atividade industrial, o comércio e a eletrificação para novos usos também contribuem para o aumento da demanda.

Se tomarmos como referência um consumo entre 47 e 49 TWh por mês, os três meses do verão brasileiro representariam entre 140 e 145 TWh. Esse é um número próximo de um quarto do consumo anual de eletricidade do país.

Quanto consomem os data centers latino-americanos?

Calcular o consumo exato de data centers é mais complexo. Nem todos os países possuem sistemas de informação específicos, e muitas instalações não publicam sua capacidade contratada, sua utilização real ou sua eficiência energética.

Um documento divulgado pela Organização de Energia da América Latina e do Caribe inclui uma estimativa de aproximadamente 30 TWh por ano para data centers na região. Outra análise da OLADE, focada em infraestruturas relacionadas à inteligência artificial, estima que esse tipo de centro representou cerca de 1,6% do consumo regional de eletricidade em 2023.

Dependendo da metodologia e das facilidades incluídas, podemos estimar razoavelmente o consumo atual dos data centers latino-americanos em torno de 23–30 TWh por ano.

Isso significa que um único mês de consumo de eletricidade no Brasil, próximo de 48 TWh, supera claramente o consumo anual estimado de todos os data centers na América Latina. Além disso, um quarto do consumo brasileiro equivaleria a entre cinco e seis vezes a demanda anual atual por essas infraestruturas.

Uma comparação que precisa de contexto

Embora ambas as magnitudes sejam expressas em TWh, não representam atividades equivalentes.

O consumo brasileiro abrange residências, indústrias, empresas, serviços públicos, agricultura e outras atividades em uma economia com mais de 200 milhões de habitantes. Data centers são um setor específico e muito mais concentrado.

Essa concentração é justamente uma das razões pelas quais a demanda deles recebe tanta atenção. Um país pode ter capacidade de geração suficiente em termos agregados e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades para fornecer centenas de megawatts adicionais em um determinado local.

Campi grandes precisam de conexões de alta capacidade, subestações, redundância e disponibilidade contínua. O desafio, portanto, depende não apenas de quanta eletricidade existe no sistema nacional, mas também de onde ela está disponível, quando pode ser entregue e de qual infraestrutura de transmissão será necessária.

E quanto ao consumo de ar-condicionado?

Outra comparação potencialmente atraente seria afirmar que o ar-condicionado usado no Brasil durante o verão consome mais eletricidade do que todos os data centers latino-americanos. No entanto, ainda não há dados oficiais recentes e suficientemente completos para sustentar essa conclusão.

A EPE estimou que os equipamentos residenciais de ar-condicionado consumiram 18,7 TWh em 2017, após um aumento de 237% em doze anos. Desde então, o número de aparelhos instalados e o uso desses aparelhos provavelmente aumentaram, especialmente durante as ondas de calor.

A esse valor devem ser adicionados os sistemas utilizados em escritórios, centros comerciais, hotéis, hospitais e instalações industriais. No entanto, sem uma atualização consolidada, não seria rigoroso afirmar que o ar-condicionado brasileiro já ultrapassa os aproximadamente 30 TWh atribuídos aos data centers regionais.

O que se pode dizer é que a refrigeração está ganhando peso na demanda de eletricidade. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo global de espaços de refrigeração aumentou 50% desde 2015 e está próximo de 2.900 TWh por ano.

Data centers ainda consomem pouco, mas crescerão rapidamente

Atualmente, os data centers representam uma fração relativamente pequena da consumo de eletricidade na América Latina. No entanto, seu crescimento pode ser muito mais rápido do que o da demanda convencional.

A inteligência artificial exige servidores de alta densidade, aceleradores especializados e sistemas avançados de resfriamento. A OLADE estima que as aplicações de IA podem representar cerca de 5% da eletricidade consumida na América Latina e no Caribe até 2035, o que equivale a mais de 120 TWh por ano.

Isso seria aproximadamente equivalente ao consumo de eletricidade do Brasil em dois meses e meio. A comparação mostra que a indústria parte de uma base relativamente limitada, mas pode adquirir peso considerável em apenas uma década.

O Verdadeiro Debate: Redes, Eficiência e Planejamento

A questão não deve se limitar a determinar se os data centers consomem muito ou pouco. A questão mais relevante é como seu crescimento será integrado aos sistemas elétricos regionais.

A América Latina possui uma grande parcela de fontes renováveis e de recursos excepcionais de energia solar, eólica e hidrelétrica. Mas também apresenta limitações na transmissão, nos tempos de conexão, na segurança jurídica e no planejamento territorial.

O crescimento dos data centers pode acelerar os investimentos em geração, armazenamento e redes. Também pode impulsionar contratos de energia renovável, sistemas de refrigeração mais eficientes, baterias e soluções de flexibilidade. Para isso, será necessária uma coordenação mais estreita entre operadores, companhias de eletricidade, governos e comunidades.

Sim, o Brasil consome mais eletricidade em um mês do que todos os data centers da América Latina em um ano. Mas o que realmente importa não está na comparação atual, e sim na velocidade com que essa relação pode mudar.