Conversar com Magdalena Mardones, Sr. Marketing Manager LATAM na Vertiv, é mergulhar em uma visão privilegiada sobre como o mundo dos data centers evolui na América Latina. Com mais de 15 anos de experiência em business development, marketing e tecnologia, Magdalena acompanhou de perto as mudanças da indústria e hoje lidera a estratégia de marketing para toda a região.

Sua visão parte de uma ideia clara: embora a tendência global dos data centers trace um caminho comum, cada país tem seu próprio ritmo, prioridades e oportunidades. No Chile, por exemplo, a conversa gira em torno da eficiência energética; no Brasil e no México, a urgência está em fortalecer grandes hubs digitais que sustentam o crescimento da economia digital.

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– Vertiv

Mas além de dados e orçamentos, Magdalena destaca um desafio-chave: como fazer com que o marketing não se limite a falar em linguagem técnica. Trata-se de traduzir a complexidade da tecnologia em mensagens claras que gerem confiança, eduquem o mercado e construam relacionamentos sólidos no ecossistema B2B.

Nesse caminho, a comparação com os Estados Unidos é inevitável. A rápida adoção da inteligência artificial no mercado norte-americano torna-se uma janela para o futuro: casos de uso e aprendizados que podem inspirar e acelerar a transformação na América Latina.

Assim, entre particularidades locais e tendências globais, o marketing se revela não apenas como um conector, mas como o motor que ajuda a região a dar o próximo passo na indústria de data centers.

Qual você considera ser hoje o papel estratégico do marketing em uma indústria tão técnica e especializada como a de data centers?

O marketing é essencial para traduzir as capacidades técnicas em valor comercial tangível e construir relações comerciais sustentáveis.

Como Diretora de Marketing para a América Latina, considero que o papel estratégico do marketing na indústria de data centers é absolutamente crítico e multifacetado. Em nosso setor, altamente técnico e especializado, o marketing atua como uma ponte fundamental entre a complexidade tecnológica e as reais necessidades de negócio.

Na minha experiência, nosso papel vai muito além de comunicar especificações técnicas. Focamos em traduzir como essas capacidades impactam diretamente aspectos cruciais para as empresas: sua continuidade operacional, eficiência energética e objetivos de transformação digital. É fascinante ver como o marketing tem a capacidade de “traduzir” a tecnologia em valor tangível para diferentes públicos, desde engenheiros até executivos C-level.

O que torna nosso papel particularmente interessante é que a tecnologia de data centers está presente em praticamente todos os aspectos da vida moderna, desde uma simples transação bancária até o streaming de entretenimento. Por isso, temos a responsabilidade de educar e conscientizar sobre a natureza crítica da nossa infraestrutura.

Nesse sentido, vejo o marketing como um facilitador estratégico que não apenas comunica, mas constrói pontes de entendimento entre a tecnologia e seu impacto nos negócios. Nossa atuação é essencial para ajudar as organizações a compreenderem como os data centers são fundamentais para seu sucesso operacional e sua transformação digital.

Como o enfoque de marketing na Vertiv mudou diante do avanço de tecnologias como a inteligência artificial?

Tenho sido testemunha de uma transformação significativa em nossa abordagem de marketing na Vertiv, impulsionada principalmente pelo avanço da inteligência artificial. Essa evolução ocorreu tanto na forma como comunicamos nossas soluções quanto na maneira como executamos nossas estratégias de marketing.

Na Vertiv LATAM, passamos de um enfoque centrado em produtos para um que prioriza soluções diante dos novos desafios que a IA traz: maior densidade térmica, otimização do consumo energético e demandas de processamento no edge. Isso nos levou a desenvolver campanhas mais específicas e personalizadas para setores como saúde, finanças, manufatura e governo, mostrando como nossa infraestrutura resiliente e eficiente viabiliza a implementação de aplicações de IA.

Um aspecto fundamental dessa transformação foi mostrar à região como nossas soluções impactam os processos cotidianos, reconhecendo que o avanço tecnológico nos afeta a todos. Além disso, adotamos a IA internamente para aprimorar nossas próprias capacidades de marketing, especialmente em áreas como segmentação, geração de conteúdo e análise de dados.

Essa transformação nos permitiu ser mais precisos em nossa comunicação, mais eficazes em nossa segmentação e mais relevantes para nossos clientes enquanto navegam por seus próprios processos de transformação digital. Estamos não apenas nos adaptando à era da IA, mas também liderando o caminho em como a infraestrutura crítica pode viabilizar essas novas tecnologias de forma eficiente.

Quais desafios específicos você enfrenta ao posicionar soluções técnicas diante de públicos não técnicos?

Um dos nossos maiores desafios é encontrar o delicado equilíbrio entre simplificar a comunicação sem trivializar a complexidade técnica de nossas soluções. Esse desafio é especialmente relevante quando falamos com tomadores de decisão que, embora não tenham perfil técnico, lideram orçamentos e projetos estratégicos em suas organizações.

Para lidar com esse desafio, adotamos uma abordagem consultiva baseada em casos de uso concretos, focando em comunicar benefícios tangíveis que ressoem com as prioridades de negócio: redução do custo total de propriedade (TCO), capacidade de escalabilidade e eficiência energética.

Também transformamos a forma de apresentar informações, aproveitando formatos mais acessíveis como vídeos curtos, infográficos e depoimentos de clientes. Descobri que usar uma linguagem simples e exemplos cotidianos é extremamente eficaz — como explicar que a infraestrutura crítica viabiliza desde um simples deslizar em redes sociais até uma transação bancária online.

Em essência, nosso verdadeiro desafio se resume a três elementos-chave: contar a história certa, usar a linguagem adequada e fazê-lo no momento preciso. É um exercício constante de tradução, no qual transformamos complexidade técnica em valor de negócio tangível, mantendo a precisão, mas tornando-a acessível a todos os públicos.

De que maneira a IA está mudando o papel da equipe de marketing e as habilidades necessárias hoje?

Acredito que a IA está redefinindo fundamentalmente o papel do marketing e as competências exigidas em nossas equipes. A IA não apenas amplia nossas capacidades, mas também eleva significativamente as expectativas em termos de personalização, velocidade e eficiência em cada interação com os clientes.

Nesse novo cenário, vejo que nossas equipes precisam desenvolver um conjunto mais diversificado de habilidades. Por um lado, é essencial dominar aspectos técnicos como análise de dados, automação e uso de ferramentas preditivas. Mas igualmente importante é fortalecer o pensamento estratégico e a criatividade para transformar esses insights em valor real para os clientes.

Você está há uma década na Vertiv. Como tem promovido espaços para que mais mulheres alcancem posições de liderança dentro da empresa?

Após uma década na Vertiv, sinto um orgulho profundo por ter contribuído para uma mudança cultural significativa em nossa organização, embora reconheça que ainda há caminho a percorrer. Meu compromisso com a promoção da liderança feminina se manifestou de várias maneiras.

Uma das minhas principais prioridades tem sido impulsionar a visibilidade das mulheres em fóruns técnicos e espaços de liderança. Tenho sido uma defensora ativa de iniciativas como WAVe (Women at Vertiv Excel) na LATAM, que criou uma rede vital de apoio e desenvolvimento profissional para mulheres em nossa organização.

O mentoria também foi uma parte fundamental da minha contribuição. Tenho atuado ativamente como mentora de colegas mulheres, compartilhando minha experiência e mostrando que o crescimento profissional nesta indústria é absolutamente possível. Considero crucial que as mulheres em cargos de liderança estendam a mão para as próximas gerações.

Sempre enfatizo que equidade de gênero não é apenas uma conversa sobre diversidade — é uma discussão sobre talento e perspectivas diferentes que enriquecem nossa organização. Acredito firmemente no poder da sororidade e do apoio mútuo entre mulheres nesta indústria. Essa solidariedade, combinada com o crescente reconhecimento do valor que trazemos, está contribuindo gradualmente para aumentar o percentual de mulheres em cargos de liderança.

Você acredita que a liderança feminina traz uma visão distinta para o marketing ou para a tomada de decisões estratégicas?

Estou convencida de que a liderança feminina aporta uma perspectiva distinta e valiosa ao marketing e à tomada de decisões estratégicas. Pela minha experiência, percebo que nosso enfoque tende a ser mais orientado à colaboração, à empatia e à construção de um propósito compartilhado.

No contexto específico do marketing, essas qualidades se traduzem em estratégias que colocam ênfase especial na compreensão profunda do cliente, no desenvolvimento de narrativas mais humanas e na construção de equipes mais coesas. No entanto, é importante destacar que não se trata apenas de gênero — a verdadeira riqueza vem da diversidade de pensamento.

Minha perspectiva pessoal foi enriquecida pela experiência internacional, tendo vivido em lugares tão diversos como Singapura e Irlanda do Norte. Essas vivências me ensinaram o valor incalculável da diversidade e como diferentes perspectivas podem enriquecer qualquer contexto. Isso é particularmente relevante no marketing, onde a capacidade de construir consensos e gerar ideias inovadoras é fundamental.

No meu papel atual, pude comprovar como essa diversidade de perspectivas nos ajuda a nos conectar melhor com diferentes públicos e a desenvolver estratégias mais inclusivas e eficazes. O marketing moderno exige essa multiplicidade de visões para criar soluções verdadeiramente inovadoras e relevantes para nossos diversos stakeholders.

Você teve mentores ou mentoras que marcaram sua trajetória profissional? Como retribui isso hoje?

Com gratidão, posso dizer que tive a sorte de contar com mentores extraordinários que foram fundamentais no meu desenvolvimento profissional. Essas pessoas não apenas me desafiaram a dar o melhor de mim, mas também me ouviram e, o mais importante, acreditaram no meu potencial antes mesmo que eu mesma o reconhecesse.

Essa experiência transformadora me inspirou a retribuir ativamente tudo o que recebi. Hoje, considero ser minha responsabilidade profissional e pessoal atuar como mentora informal para colegas, especialmente para aqueles que estão iniciando sua trajetória ou enfrentando novos desafios.

Meu enfoque se concentra em três aspectos principais: primeiro, criar e promover espaços onde outros talentos possam ganhar visibilidade; segundo, gerar ambientes seguros onde as pessoas se sintam à vontade para compartilhar ideias, reconhecer erros e dividir aprendizados; e terceiro, fomentar uma cultura de apoio mútuo e crescimento coletivo.

Acredito firmemente que a verdadeira liderança se constrói em rede, por meio do aprendizado mútuo e do crescimento em equipe. Todos os dias me esforço para criar as mesmas oportunidades que meus mentores criaram para mim, contribuindo assim para formar a próxima geração de líderes em nossa indústria.

Qual tem sido sua estratégia para alinhar objetivos globais às realidades locais da região?

Desenvolvi uma abordagem fundamentada na escuta ativa como ponto de partida de qualquer estratégia. Minha experiência me ensinou que é crucial entender primeiro os matizes culturais, econômicos e as necessidades específicas dos clientes locais antes de implementar qualquer iniciativa global.

Nesse sentido, conseguimos traduzir com sucesso os objetivos globais em pilares regionais e planos específicos por país, garantindo que cada mercado possa executar a estratégia de maneira eficaz de acordo com suas particularidades.

Um exemplo disso foi nossa turnê de soluções de IA na região. Pegamos o conceito global e o adaptamos a verticais específicas como saúde e manufatura, garantindo que a execução fosse relevante para cada mercado local. Essa personalização nos permitiu nos conectar de maneira mais efetiva com as necessidades específicas de cada país, mantendo ao mesmo tempo a coerência com a visão global.

A chave do nosso sucesso tem sido manter o delicado equilíbrio entre a consistência da estratégia global e a flexibilidade necessária para nos adaptarmos às realidades locais. Isso exige comunicação constante tanto com os times globais quanto com os locais, além da capacidade de traduzir grandes objetivos em ações concretas que ressoem em cada mercado.

Como você imagina o futuro do marketing em indústrias críticas como a energética ou a de infraestrutura digital?

Visualizo um futuro do marketing em indústrias críticas que será mais ágil, mais integrado ao negócio e, paradoxalmente, mais humano. Estamos testemunhando uma evolução em que o marketing deixa de ser apenas uma função de suporte para se tornar um verdadeiro motor de crescimento, inovação e posicionamento estratégico.

Na minha opinião, o perfil do profissional de marketing do futuro precisará ser cada vez mais versátil, capaz de se comunicar efetivamente tanto com engenheiros quanto com CEOs, compreendendo não apenas a tecnologia, mas também seu impacto social mais amplo. Essa versatilidade será crucial em indústrias como a energética e a infraestrutura digital, onde a complexidade técnica se encontra com necessidades críticas de negócio.

Vejo três eixos fundamentais que continuarão moldando nossa narrativa para o futuro: propósito corporativo, eficiência energética e transformação digital. Esses elementos não são apenas tendências, mas imperativos estratégicos que definirão como as empresas se relacionam com seus stakeholders.

Além disso, temos uma responsabilidade cada vez maior na educação de nossas audiências. À medida que a tecnologia avança e se torna mais complexa, nosso papel como comunicadores e educadores se torna ainda mais crítico. Precisamos seguir traduzindo a complexidade técnica em valor tangível, informando para transformar e ajudando nossos clientes a navegar nesse cenário tecnológico em constante evolução.