1. Como você avalia a evolução da procura por financiamento bancário no setor de data centers nos últimos anos?
Nos últimos anos, os financiamentos no setor de data centers têm crescido exponencialmente. O mercado experimentou um desenvolvimento acelerado no início desta década, impulsionado pela crescente demanda por infraestrutura de cloud e, posteriormente, pelos investimentos massivos em Inteligência Artificial. Inicialmente, o setor enfrentava dificuldades para acessar crédito por ser relativamente novo no Brasil. No entanto, com o amadurecimento do mercado e uma melhor compreensão dos riscos envolvidos, houve uma ampliação na oferta de crédito, ainda que concentrada nos grandes bancos comerciais.
Entre os principais pontos de discussão no setor, destacam-se a alta alavancagem pretendida pelas companhias e o risco potencial de renovações dos contratos. No entanto, com a compreensão (i) da robustez dos contratos (a maioria take-or-pay, com bons offtakers e altas multas de rescisão), (ii) da baixa exposição às oscilações de custos operacionais (muitos contratos possuem cláusulas de pass-through de energia, o principal custo de um data center), e (iii) da importância dessa infraestrutura para o crescimento das grandes empresas de tecnologia (hyperscalers), o apetite dos bancos aumentou, atendendo à demanda existente no mercado.
Quanto às perspectivas futuras, o mercado brasileiro deve ser impulsionado pela Medida Provisória (nº 1300/2025) de Data Centers, recentemente aprovada pelo governo, que estabelece benefícios importantes para o desenvolvimento do setor como (i) a desoneração de tributos federais sobre investimentos feitos pelo setor de data centers e (ii) a redução do imposto de importação sobre equipamentos de tecnologia da informação não fabricados no Brasil. Com um ambiente mais favorável à indústria, o Brasil atrairá mais investimentos e haverá a necessidade de um mercado de crédito maduro para atender à demanda futura.
2. Como você caracterizaria o atual cenário brasileiro em termos de diversidade de fontes de financiamento para projetos de data centers?
Atualmente, o cenário brasileiro apresenta baixa diversidade de fontes de financiamento para o setor de data centers. O setor tem concentrado seus financiamentos em bancos comerciais, mas já se observa a necessidade de diversificação, principalmente devido à limitação natural de crédito dos bancos, apesar do bom desempenho do setor nos últimos anos.
O Itaú BBA tem se esforçado para amadurecer o papel do mercado de capitais, que possui um grande potencial para absorver a demanda futura. No ano passado, realizamos um evento de aproximação de investidores institucionais com alguns dos principais players do setor, e o resultado foi muito positivo. Os feedbacks dos investidores foram excelentes, e a tendência é atrair mais capital para bons projetos. Vale destacar também o papel fundamental do governo ao viabilizar a emissão de debêntures de infraestrutura para o setor. A possibilidade de emissões com prazos mais longos e a diversificação do perfil dos investidores são fatores importantes para a indústria.
Além do mercado de capitais, outras fontes de financiamento podem se tornar relevantes, como as multilaterais, que têm demonstrado interesse em apoiar o setor, e o BNDES, que possui um balanço robusto e conhecimento para apoiar o desenvolvimento da indústria. O Itaú BBA tem mantido contato próximo com essas fontes de financiamento para entender seus termos e condições, assegurando que nossos clientes tenham acesso às melhores alternativas disponíveis no mercado.
3. Qual é atualmente o nível de apetite dos bancos para financiar projetos do setor de data center?
O apetite dos bancos para financiar bons projetos de data centers continua crescendo, especialmente à medida que o setor demonstra estabilidade e entrega o desempenho esperado. No entanto, é necessário criar condições para que esses projetos não dependam exclusivamente de uma única fonte. Alguns projetos que estão sendo desenvolvidos possuem capacidade de até 200 MW, representando quase US$ 2 bilhões de investimentos em um único data center. É crucial que o mercado tenha diversas fontes de financiamento educadas e interessadas no setor para viabilizar os projetos e transformar o Brasil em um hub importante para novos investidores.
4. De que forma o mercado brasileiro de data center pode se beneficiar de outras fontes de financiamento? Que alternativas você destacaria?
O mercado de capitais pode exercer um papel fundamental no setor. Muitos dos grandes projetos de data center serão dolarizados, permitindo estruturar dívidas acessando o mercado local e realizando swaps desses financiamentos, ou até mesmo acessando o mercado externo diretamente, dependendo do volume da emissão. Apesar de o setor ainda ser recente no Brasil, entendemos que é papel do banco fomentar e educar os investidores para alinhar o apetite ao risco inerente ao setor. O amadurecimento do setor nos EUA e na Europa, que já se demonstrou resiliente e possui vários casos de sucesso nessas localidades, pode facilitar a atração de recursos estrangeiros para o país.
Além disso, destaco o potencial papel do BNDES para o setor. Caso consigam desenhar uma linha de financiamento com flexibilidades que atendam às demandas dos clientes e tragam a segurança de crédito necessária, poderão agregar bastante valor aos players de data centers.
5. Para ampliar o acesso a novas fontes de financiamento, o setor precisa superar algumas barreiras. Quais seriam essas barreiras e quais passos podem ser tomados para superá-las?
Além das barreiras macroeconômicas enfrentadas atualmente no Brasil, as maiores barreiras no setor de data centers estão relacionadas (i) ao desconhecimento dos riscos envolvidos em um projeto na indústria, e (ii) ao alto nível de alavancagem esperado pela indústria em um ambiente de taxa de juros elevada. Um bom ponto de partida é aprender com os benchmarks de outros países onde o setor já está mais desenvolvido. O banco tem desempenhado um papel importante em adquirir o know-how técnico necessário para estruturar os financiamentos demandados e auxiliar o mercado a desenvolver esse conhecimento. Quanto à alavancagem, é necessário usar a criatividade para adaptar as melhores práticas internacionais à realidade brasileira.
Do ponto de vista de riscos para um financiamento no setor de data center, podemos separar a discussão em duas partes: (i) o risco de construção e (ii) o risco de geração de caixa para fazer frente ao financiamento obtido. Para o risco de construção, trata-se de uma obra de menor complexidade em comparação a outros setores de infraestrutura. Caso as companhias comprovem que possuem um bom contrato de construção para a parte civil, acordo para fornecimento dos principais itens do CAPEX, como geradores e chillers, e uma boa estrutura de capital no projeto, há uma propensão à tomada desse risco sem exigência de garantias adicionais.
Vale lembrar que, para a maioria dos projetos, é exigência da própria contraparte do contrato que a empresa de data center comprove tanto a posse do terreno onde será construído o ativo, quanto a estrutura de abastecimento de energia necessária para a tese. Esses são temas essenciais para a assunção do risco de construção pelo financiador. Uma vez que o data center esteja operacional, o risco de geração de caixa é baixo, e as grandes empresas do setor possuem a expertise necessária para a operação, além de passarem por um crivo exigente das contrapartes dos contratos. Ressalto que os contratos em geral são robustos, com prazos longos, cláusulas de pass-through de energia, multas relevantes de rescisão, e outros pontos importantes para garantir a previsibilidade dos fluxos operacionais da companhia.
Outra grande barreira nas discussões de crédito é a renovação de contratos no setor. Pela falta de histórico no Brasil, alguns credores ainda resistem em considerar a premissa de renovação. No entanto, dado o histórico baixíssimo de churn em outras localidades e o desincentivo econômico devido ao custo elevado de desmobilização e remobilização de um data center, alguns financiadores que já adotam a premissa de renovação para grande parte dos contratos têm se diferenciado e ganhando maior participação de mercado. Com o tempo, ao exemplificar essa premissa com mais teses no mercado brasileiro, mais credores poderão assumir esse risco para suas aprovações de crédito.
6. Como o setor de data centers pode se preparar para aproveitar melhor as oportunidades de financiamento disponíveis no mercado?
Para aproveitar ao máximo as oportunidades de financiamento, é importante que as companhias estejam preparadas para as demandas do mercado de crédito: (i) estruturação de projetos sólidos: qualidade dos contratos e das contrapartes, contratação de bons fornecedores para o risco de construção e estrutura de capital adequada são critérios essenciais para a avaliação de crédito; (ii) capacidade e experiência prévia do time de gestão e dos acionistas aumentam a credibilidade da empresa e reduzem riscos percebidos pelos financiadores; (iii) proximidade com o mercado financeiro: o conhecimento das fontes de financiamento disponíveis permite que a empresa escolha as melhores alternativas para cada projeto, dependendo do momento de mercado; e (iv) na medida do possível, estruturar financiamentos na modalidade project finance para novos investimentos, blindando e isolando os perímetros financiados, o que pode aumentar o apetite do mercado financiador.
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