O Dia Internacional do Data Center, celebrado em 25 de março, chegou em 2026 com um contexto sem precedentes: a explosão da inteligência artificial (IA), a aceleração da computação em nuvem e uma demanda global por infraestrutura digital que cresce mais rápido do que qualquer previsão indicava. Para discutir esse cenário e o papel estratégico que a América Latina — especialmente o Brasil — desempenha nessa corrida, Alexandra Gheorghiu, Head of Content da DCD, conversou com Ana Franco, diretora de negócios internacionais da Elea Data Centers, no DCD>Talks.

Com uma trajetória sólida no setor e, agora, à frente da expansão internacional da Elea, Ana Franco tem uma visão clara sobre o momento em que a indústria se encontra: os data centers deixaram de ser infraestrutura invisível para se tornarem o coração pulsante da economia digital. "O que fazemos já não é invisível. Se tornou completamente essencial", afirma.

De bastidores a centro do mundo digital

Quando questionada sobre a evolução dos data centers nos últimos anos, Ana Franco destaca a transformação de percepção que acompanha a expansão técnica dessas infraestruturas. "O que mais me impressiona é que eles deixaram de ser algo que ninguém via para se tornarem algo que torna possível tudo o que acontece no mundo digital", diz. "Hoje, literalmente, grande parte da economia funciona a partir deles. É onde vivem os serviços que usamos todos os dias: pagamentos, plataformas, conteúdo e inteligência artificial."

Essa transformação vai além da escala física. Os data centers passaram a ser elementos centrais de debates sobre soberania digital, competitividade econômica e sustentabilidade — temas que dominam a agenda dos governos e das grandes corporações tecnológicas em todo o mundo.

IA, nuvem e o momento da América Latina

Para Ana Franco, a inteligência artificial reúne três ingredientes fundamentais: energia, capacidade de processamento e data centers. E a América Latina, segundo ela, possui os três — e está pronta para utilizá-los. "A diferença hoje está em quem pode executar e entregar essa capacidade quando o cliente precisa. É aí que tudo se define", avalia.

O Brasil aparece como protagonista nesse cenário. A executiva cita a matriz energética predominantemente renovável do país, a disponibilidade de energia e a conectividade como fatores que posicionam o Brasil em uma posição privilegiada nas conversas globais sobre infraestrutura digital. "Isso o coloca em uma posição muito forte nas discussões globais", ressalta.

Densidades maiores, prazos menores: as tendências que redefinem o setor

O mercado de data centers enfrenta hoje uma dupla pressão: a densidade das instalações cresce rapidamente para suportar as cargas de trabalho exigidas pela IA, enquanto os prazos de entrega encolhem. "Os clientes não estão mais planejando para cinco anos. Precisam da capacidade agora, imediatamente", observa Ana Franco. "Isso muda completamente como se projeta, como se constrói e como se entrega."

No eixo da sustentabilidade, a executiva aponta uma mudança de patamar: a conversa deixou de ser aspiracional para se tornar parte da viabilidade de cada projeto. "Desde o acesso à energia até a eficiência operacional, tudo converge para a mesma pergunta: como construir uma infraestrutura que escale de forma eficiente no ritmo que o mercado realmente exige?", sintetiza.

Rio AI City: um projeto que redefine a escala na América Latina

No centro das apostas da Elea está o projeto Rio AI City, em desenvolvimento no Rio de Janeiro, com capacidade prevista de 3,5 GW — o que o coloca entre os maiores empreendimentos do setor na região. "O Rio AI City não é uma promessa. Já está em desenvolvimento. Estamos falando de 3,5 GW de capacidade. Isso não é somente grande — redefine a escala do que pode estar acontecendo hoje na região", frisa Ana Franco.

A executiva revela que o projeto foi um dos fatores determinantes para sua decisão de ingressar na Elea. "Quando Alessandro (Alessandro Lombardi, fundador e CEO da Elea) me falou do projeto e tive a oportunidade de vê-lo de perto, entendi que isso não era uma visão. Estava sendo construído de verdade."

Um dos diferenciais do Rio AI City em relação a projetos similares nos Estados Unidos é a sua inserção urbana: diferentemente da tradição americana de construir data centers em áreas remotas e afastadas dos centros populacionais, o projeto da Elea está sendo desenvolvido literalmente dentro da cidade do Rio de Janeiro, integrado ao tecido urbano e à comunidade local. "É muito diferente de muitos projetos dessa magnitude que vemos em outros mercados. Aqui foi pensado dentro da cidade, com a comunidade, como parte do desenvolvimento", explica. "E isso muda completamente a forma como o projeto é compreendido."

A localização em uma das cidades mais relevantes da América Latina, com sua conectividade e visibilidade global, reforça a aposta estratégica da Elea em posicionar o Brasil como hub de infraestrutura digital no hemisfério.

"Infraestrutura crítica, não opcional"

Ao final da conversa, Ana Franco deixa um recado direto para o Dia Internacional do Data Center — e para os tomadores de decisão que ainda resistem à expansão dessas infraestruturas. "Existe uma percepção que ainda persiste, especialmente nos Estados Unidos, onde há muita resistência. Mas é o momento de mudar essa conversa. Os data centers não são opcionais. São infraestrutura crítica. São os que tornam possível a economia digital, a nuvem, a inteligência artificial, tudo", afirma.

E conclui com uma mensagem de teor geopolítico: "Os países que entenderem isso e agirem em consequência são os que vão liderar. Simples assim."