Gabriel Solis, um jovem enfermeiro de 20 anos, ainda se lembra quando, aos três anos, sua família se mudou para Puerto Williams. A cidade está localizada no extremo sul do continente americano, na Ilha Navarino. “Vivíamos offline”, diz ele. “Nossa vida era bastante isolada”.

Puerto Williams é uma pequena e tranquila comunidade costeira e sua principal atividade econômica é a pesca. Cercada por montanhas com picos cobertos de neve, a localidade também atende turistas em busca de paisagens deslumbrantes e muito sossego na rota do “fim do mundo”, como é apelidado o caminho até lá.

Isolar-se do universo digital e das distrações e ansiedades urbanas pode parecer atraente para alguns. Mas também tem suas desvantagens. É desafiador acompanhar notícias, acessar rapidamente serviços de emergência médica ou desenvolver novas oportunidades de negócios.

Porém, uma mudança recente começou a transformar esse cenário. Em 2019, um cabo de fibra óptica submarino chegou à marina, conectando os moradores de Puerto Williams com o resto do mundo. A opção pelo mar foi necessária para driblar a cordilheira e as geleiras que separam a Ilha Navarino do resto do Chile.

Pouco tempo depois, a operadora chilena Movistar e a Huawei se uniram para implantar cobertura 4G e 5G na vila. A geografia montanhosa da cidade permitiu a instalação de torres em locais mais elevados, estendendo a cobertura para os barcos no mar.

Williams Solís, pai de Gabriel, presenciou o desenvolvimento das telecomunicações na pequena cidade nos últimos 20 anos. Engenheiro de telecomunicações, ele foi enviado a Puerto Williams no início dos anos 2000 para fazer a manutenção da rudimentar infraestrutura de telecomunicações de então.

“Mande Williams para Puerto Williams”, ele ouviu seu supervisor gracejar naquela época. Encontrou uma vocação. “Nunca imaginei que meu trabalho aqui fosse tão importante”, diz. “Ajudo a manter a comunicação das pessoas com o resto do mundo”. Com a cobertura 4G garantida, os provedores de internet locais decidiram dar um passo adiante com o 5G.

Saúde conectada salva vidas

No hospital local, a conectividade é fundamental para a digitalização de registros médicos, que são enviados a hospitais mais distantes. O médico Derek Gützlaff diz que esta é a única maneira de obter cuidados de saúde mais sofisticados e acesso a especialistas.

“A outra alternativa é viajar de avião até Punta Arenas, cidade a 550 quilômetros de distância, no continente. Com o 5G, especialistas podem ajudar no diagnóstico e no tratamento através de videoconferência e compartilhamento instantâneo de informações digitais sobre os pacientes”, explicou.

“Um raio X pode ser avaliado à distância. Para um paciente na emergência, isso pode fazer toda a diferença. Cada segundo conta”, diz Gützlaff. “Geralmente, associamos um bom celular ou uma conexão de internet rápida a algo supérfluo. Ao contrário, hoje em dia, podem salvar a vida de alguém”.

5G desenvolve a economia local e garante mais segurança aos pescadores

A indústria pesqueira também está se beneficiando do 5G. Ela permite o acesso a previsões meteorológicas mais sofisticadas e precisas. As condições do mar costumam ser difíceis, pois são afetadas pelas muitas ilhas ao redor, bem como pelas montanhas. Historicamente, os pescadores partiam sem saber ao certo o que os esperava.

Na cidade, o comércio também nota a diferença. Na maior loja local, o proprietário Simon lembra como fundou o negócio com seu pai na década de 1990 com três caixas de bananas. “Era difícil se conectar com os fornecedores”, ele conta, “algo que mudou nos últimos anos”

“Temos tudo conectado, como o sistema de checkout e as câmeras”, diz Simon. “A conectividade melhora o atendimento ao cliente e a gestão do negócio”.

Nos últimos anos, o Chile tornou-se líder em conectividade digital na América Latina, incluindo a implantação do 5G. O país tem metas ambiciosas para fornecer cobertura em todas as áreas urbanas até 2025. A ideia é replicar a história de sucesso de Puerto Williams em escala nacional.