A ARAICO desenvolve em Yguazú, no departamento de Alto Paraná, no Paraguai, o Iguazú AI City, campus de hiperescala voltado ao treinamento e à operação de modelos de inteligência artificial. A empresa, de capital norte-americano e paraguaio, prevê investir 12 bilhões de dólares (62,3 bilhões de reais) nos três primeiros anos e pretende transformar o empreendimento em um dos maiores centros de infraestrutura de IA da América Latina. O valor é apontado como o maior investimento privado já anunciado no país.
A companhia é liderada pelos empresários paraguaios Alejandro Zuccolillo e Nicolás Arréllaga e afirma contar com o apoio da Founders Fund, gestora de venture capital do Vale do Silício, conhecida por aportes em empresas como SpaceX e Nubank. Segundo a própria ARAICO, o campus soma, atualmente, 1,3 GW de capacidade em desenvolvimento.
O projeto está estruturado em três fases. A primeira prevê investimento de 300 milhões de dólares (1,5 bilhão de reais) e 6 MW, distribuídos em seis módulos, com entrada em operação prevista para dezembro de 2026. Em entrevista ao InfoNegócios, Zuccolillo afirmou que o primeiro data center será entregue em dezembro e começará a operar em março, quando deverá iniciar a exportação de capacidade de processamento. A etapa inicial contempla cerca de 2 mil supercomputadores.
As duas fases seguintes preveem 5,5 bilhões de dólares (28,5 bilhões de reais) cada. De acordo com declarações de Zuccolillo ao jornal ABC, cada uma delas terá aproximadamente 130 MW, o que levará o campus a cerca de 280 MW de demanda nas três primeiras etapas, antes de novas ampliações com geração privada. Nos estágios mais avançados, o empreendimento deve gerar cerca de 3 mil empregos diretos.
O campus vai consumir energia hidrelétrica proveniente de Itaipu Binacional, por meio de contrato com a Administración Nacional de Electricidad (ANDE), ao preço de 45 dólares (233,5 reais) por MWh, com reajustes anuais, podendo chegar a 70 dólares (363,3 reais) por MWh ao longo de 15 anos. A ARAICO prevê iniciar a operação com energia fornecida pela estatal, enquanto negocia com geradores privados interessados em desenvolver nova capacidade.
A localização também se beneficia de obras em andamento no sistema elétrico paraguaio. A ANDE constrói a linha de transmissão de 500 kV Yguazú-Valenzuela, com cerca de 200 quilômetros, destinada a reforçar o Sistema Interconectado Nacional e com entrada em operação prevista para janeiro de 2027.
A proposta da empresa é alterar o modelo de aproveitamento dos recursos energéticos do país. Em vez de exportar apenas eletricidade, a ARAICO pretende utilizá-la localmente para prestar serviços de computação voltados ao mercado internacional. Zuccolillo afirmou ao InfoNegócios que, pela primeira vez, a energia paraguaia seria usada para industrializar o próprio Paraguai, e não o Brasil. A companhia também cita a estabilidade macroeconômica do país, o nível de investimento e o excedente de energia renovável como fatores de competitividade.
O movimento já atrai empresas brasileiras. A LZA Engenharia, especializada em infraestrutura de missão crítica e data centers, esteve no Paraguai em reuniões com autoridades e governadores para avaliar grandes projetos de infraestrutura de dados. A empresa soma mais de 1 GW de potência projetada. No Brasil, entregou uma subestação de alta tensão de 250 MW para o campus da CloudHQ em Paulínia (SP), sendo responsável pelo projeto completo, incluindo o desenvolvimento estrutural, a contratação de fornecedores e a aprovação junto ao Ministério de Minas e Energia. A LZA também desenvolveu projetos de energia para data centers de V.tal, Scala, Odata, Equinix, IBM, Bradesco, Nabiax e Compass UOL, entre outros.
A Modular Data Centers é a fornecedora da solução modular utilizada no campus da ARAICO.
Projetos desse porte mobilizam uma ampla cadeia de fornecimento, que inclui obras civis e terraplenagem, estruturas metálicas e pré-moldados, subestações e linhas de transmissão, transformadores, cabos e painéis elétricos, sistemas de UPS, baterias e geradores, climatização, chillers e resfriamento líquido, automação e monitoramento, combate a incêndio, segurança patrimonial, fibra óptica e cabeamento estruturado, além de projetos de engenharia e de gerenciamento de obras. Somam-se a isso as demandas futuras de operação, manutenção e expansão. A ARAICO prevê o desenvolvimento, no entorno do campus, de um ecossistema de fornecedores de engenharia, refrigeração, fibra óptica, telecomunicações e manutenção.
Para os fornecedores, o principal atrativo é o modelo faseado: um campus que começa com 6 MW e projeta expansão para centenas de megawatts tende a gerar sucessivos ciclos de contratação ao longo dos anos. O impacto final do projeto, no entanto, dependerá da execução das fases, da disponibilidade efetiva de potência e da capacidade de atrair clientes de IA em escala internacional.
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