O setor de cibersegurança deve enfrentar um ponto de inflexão no próximo ano. Após 2025 marcar a consolidação da inteligência artificial como recurso utilizado por atacantes, especialistas avaliam que o período seguinte será decisivo para distinguir organizações preparadas daquelas que ainda atuam de forma reativa.

As projeções são de Pedro Eurico, gerente de segurança da Tenable no Brasil, e Bob Huber, Chief Security Officer (CSO) e líder de pesquisa da companhia. Segundo os executivos, a combinação entre o avanço da IA, a modernização de ataques tradicionais, a crescente demanda por resiliência e a persistência de problemas de governança deve redefinir as prioridades dos diretores de segurança da informação (CISOs) e dos conselhos de administração.

O cenário descrito aponta para um ambiente comum em diferentes mercados: maior superfície de ataque, uso intensivo de automação por parte de criminosos e redução das margens para improviso.

Inteligência artificial

A Tenable avalia que 2025 foi o ano em que a inteligência artificial passou a integrar de forma definitiva o arsenal de criminosos digitais. Para 2026, a expectativa é de que a tecnologia se torne o principal fator de diferenciação entre organizações preparadas e aquelas que permanecerão vulneráveis.

Segundo a empresa, os ataques tendem a ganhar velocidade, personalização e maior capacidade de evasão, já que ferramentas de IA permitem a qualquer agente malicioso produzir e-mails de phishing sofisticados, criar áudios e vídeos em formato deepfake capazes de enganar equipes treinadas e coordenar campanhas completas com bots automatizados. O golpe da “voz clonada”, que hoje causa surpresa, deve se consolidar como mais uma modalidade recorrente de fraude nos próximos meses.

O cenário aponta para uma transição: a fase de novidade da IA generativa dá lugar à etapa de utilidade da chamada Agentic AI, em que agentes autônomos passam a executar tarefas de ponta a ponta.

Do lado corporativo, a Tenable prevê uma mudança de postura. Em vez de apenas adquirir soluções com IA embarcada, mais diretores de segurança da informação (CISOs) devem investir na construção de modelos e agentes próprios, adaptados às necessidades específicas de cada negócio. Quando bem projetados e governados, esses sistemas personalizados podem transformar operações de segurança, automatizar tarefas repetitivas, reduzir ruídos e mitigar pontos de desgaste que hoje contribuem para o burnout das equipes da área.

Ataques tradicionais ainda persistirão, mas serão atualizados

As projeções para 2026 indicam que o ransomware não deve desaparecer, mas tende a assumir novas características. A expectativa é de que os ataques deixem de priorizar a criptografia de dados e passem a focar no roubo de informações e na extorsão direta, explorando a ameaça de divulgação pública. Para os criminosos, trata-se de um modelo mais simples, menos custoso e igualmente eficaz.

Outro ponto de atenção é o aumento dos ataques à cadeia de suprimentos. Cada novo software, plugin, API ou fornecedor de serviços representa uma possível porta de entrada, ampliando significativamente a superfície de ataque. O ecossistema digital das empresas, segundo especialistas, nunca foi tão extenso e complexo de monitorar.

Setores como finanças, indústria e saúde permanecem entre os mais vulneráveis. Esses segmentos operam em ambientes altamente conectados, com sistemas legados, múltiplas integrações e forte dependência de terceiros. Essa combinação cria condições para que uma única falha digital resulte em impactos diretos no mundo físico, como a interrupção de operações ou a indisponibilidade de serviços essenciais à população.

A reputação na linha de frente

Em 2026, a resiliência deve assumir papel de objetivo estratégico nas empresas, deixando de ser tratada apenas como requisito técnico. Interrupções globais recentes em provedores como Cloudflare, Amazon, Microsoft e CrowdStrike evidenciaram o impacto bilionário do tempo de inatividade e os danos duradouros à reputação das marcas quando incidentes ganham repercussão pública.

Na prática, o foco das discussões passa de “como evitar falhas” para “quão rápido é possível retomar as operações antes que o problema se espalhe nas redes sociais”. Métricas como tempo de detecção, contenção e recuperação deixam de ser indicadores internos e passam a ser acompanhadas de perto por diretores financeiros (CFOs), conselhos de administração e investidores.

Nesse cenário, a Tenable aponta para uma maior integração entre áreas de segurança, operações de TI, equipes de negócio e comunicação. A avaliação é de que não basta manter planos de resposta a incidentes apenas no papel: é necessário testá-los, automatizar processos sempre que possível e assegurar que a retomada seja ágil, coordenada e transparente, de modo a preservar a confiança de clientes, parceiros e reguladores.

Velhos problemas, novas ameaças

Apesar dos avanços tecnológicos, os principais desafios das empresas permanecem recorrentes. Muitas organizações ainda enfrentam dificuldades na gestão de identidades, em ambientes de nuvem mal configurados, na dependência excessiva de fornecedores externos e em estruturas operacionais fragmentadas. A esse cenário soma-se a adoção acelerada de inteligência artificial sem mecanismos adequados de governança.

De acordo com a Tenable, é inevitável que a mesma IA desenvolvida para apoiar processos também introduza novos riscos. Entre os pontos críticos estão modelos internos treinados com dados sensíveis, agentes autônomos executando tarefas sem supervisão e pipelines de MLOps (Desenvolvimento e Operação de Machine Learning) abertos ou pouco controlados. Esses fatores ampliam discretamente a superfície de ataque das organizações. A avaliação é de que muitas empresas só terão plena compreensão do problema após enfrentarem o primeiro grande incidente.

Como aprimorar defesas em 2026

A expectativa para 2026 é que disciplinas como CTEM (Continuous Threat Exposure Management, ou gestão contínua de exposição a ameaças) deixem de ser tendência e passem a ser consideradas um requisito básico. O volume de ataques, integrações e mudanças diárias é considerado excessivo para abordagens tradicionais, exigindo programas contínuos, dinâmicos e orientados a risco. Essa perspectiva está alinhada ao posicionamento da Tenable, que defende a exposição, priorização e remediação de riscos com base no contexto de negócio.

A empresa também projeta maior investimento em segurança de identidade e ITDR (Identity Threat Detection and Response), proteção nativa de nuvem (CNAPP) e, de forma crescente, em segurança voltada especificamente para inteligência artificial. Controles aplicados a modelos, dados de treinamento e agentes devem passar a ser exigidos em auditorias e em apólices de seguro cibernético.

De acordo com a análise, 2026 tende a penalizar rapidamente as organizações que permanecerem sem visibilidade, governança e automação. Outro ponto de inflexão previsto é a automação da resposta a incidentes. Após anos em que a remediação automática foi tratada como tabu, a Tenable avalia que esse paradigma deve mudar. Para acompanhar o ritmo das ameaças e a expansão da superfície de ataque, equipes de segurança terão de adotar níveis mais elevados de automação em correção, mobilização de recursos e mitigação, sempre com políticas claras e supervisão humana.

Se as projeções se confirmarem, 2026 marcará a consolidação de duas realidades distintas: de um lado, empresas que utilizam IA, CTEM e automação para defender seus ambientes de forma proativa; de outro, organizações sobrecarregadas por atacantes que exploram essas mesmas tecnologias contra elas. Segundo os executivos da Tenable, o fator decisivo não será apenas o orçamento disponível, mas também o grau de maturidade na gestão de exposição e na capacidade de aprendizado contínuo a partir do próprio ambiente.