Governança e soberania de dados: assuntos que estarão, mais do que nunca, entre os principais pontos quando se fala de data centers. Leandro Lopes, diretor de engenharia de sistemas para a América Latina da Nutanix, conversou com a imprensa especializada no .NEXT Nutanix 2026, realizado em Chicago, e detalhou lançamentos da empresa, previsões sobre IA e o mercado de data centers brasileiro.
“Tivemos aquela primeira onda em que a IA era utilizada como impulsionador para machine learning, depois veio a IA passiva e agora chegamos à era dos agentes”, explicou Lopes. “Você passa uma tarefa para o agente e ele executa sem que você veja efetivamente o que está acontecendo. Isso trouxe uma dinâmica diferente e uma série de desafios: governança, segurança e uso descontrolado de GPU.”
Plataforma para controlar os agentes de IA
No .NEXT 2026, a Nutanix apresentou cinco frentes de inovação, todas convergindo para o mesmo eixo: dar ao mercado, seja service provider, neo cloud ou cliente corporativo, as ferramentas necessárias para operar nessa nova era da IA agêntica com governança, eficiência e liberdade de escolha.
- Infraestrutura de IA: Stack de governança agêntica. Nova camada de software para controle de GPU, segurança e isolamento de agentes em ambientes multicliente. Anunciado na Nvidia GTC e oficializado no .NEXT.
- Alianças: NetApp, Lenovo e storage. Parceria com a NetApp soma-se ao portfólio da Dell e da EverPure. Aliança com a Lenovo ampliada para cobrir também soluções de software.
- Banco de dados: MongoDB no NDB. O Nutanix Database Service passa a oferecer suporte oficial ao MongoDB, ampliando a cobertura para aplicações cloud-native, Kubernetes e workloads de IA.
- Kubernetes: NKP com bare metal. A plataforma de Kubernetes da Nutanix ganha suporte a servidores bare metal, estendendo casos de uso para edge computing e ambientes industriais.
- Service Providers: Nutanix Service Provider Central. Portal de gestão multitenant com o programa financeiro “Elevate” para facilitar a migração do ecossistema Broadcom/VMware, sem custos duplicados durante a transição.
O conceito de “GPU as a Service” está no centro da proposta da Nutanix para esse ciclo. Lopes usa uma metáfora direta para explicar o problema: em um ambiente com múltiplos agentes de IA rodando simultaneamente, sem controles adequados, é possível que um único agente consuma toda a capacidade de GPU, deixando os demais ociosos.
A resposta da empresa é um stack de software capaz de garantir partições justas de recursos entre aplicações, tanto em ambientes de service providers com múltiplos clientes quanto em nuvens privadas corporativas, onde diversas áreas da empresa disputam a mesma infraestrutura.
“Você tem finanças buscando antifraude, compras querendo automatizar processos e RH fazendo cruzamento de dados para contratação. São aplicações diferentes correndo na mesma infraestrutura. Nossa plataforma vai permitir um share efetivo”, detalhou Lopes.
E o mercado de data centers no Brasil e LATAM?
Quando o tema muda para o Brasil, Lopes é direto: a infraestrutura nacional de data centers está em três estágios distintos de maturidade, cada um com seus próprios desafios e oportunidades. Um dado preocupante serve de pano de fundo para a conversa: estima-se que cerca de 60% dos dados governamentais brasileiros estejam hospedados fora do território nacional.
Para Leandro Lopes, o mercado de data centers no Brasil e na América Latina ainda é mais conservador do que o norte-americano e o asiático, com adoção de novas tecnologias condicionada à comprovação de sua maturidade. A infraestrutura disponível no país, explica Lopes, se organiza em três categorias: os hiperescalas globais, tecnologicamente avançados, mas com limitações quanto à soberania de dados; os provedores locais e neo clouds, que garantem que os dados permanecem em território nacional, mas ainda precisam evoluir tecnicamente; e as infraestruturas on-premise, mantidas internamente por empresas, especialmente do setor financeiro, por exigências regulatórias como PCI e normas interbancárias.
A soberania de dados é uma tendência crescente, impulsionada pela LGPD no Brasil e por movimentos semelhantes na Europa. Estima-se que parte relevante dos dados governamentais brasileiros ainda esteja armazenada fora do país, o que abre espaço para o crescimento de players locais. As neo clouds surgem nesse contexto, oferecendo infraestrutura com GPUs para inteligência artificial, com foco em isolamento e segurança dos dados.
Entre os setores mais ativos, o setor financeiro lidera os investimentos, com uso intensivo de data centers para antifraude e automação. A manufatura e a mineração demandam processamento local via edge computing e servidores bare metal. O varejo, por sua vez, utiliza a infraestrutura para inteligência de mercado e escalabilidade operacional.
Os principais desafios técnicos incluem a gestão de ambientes híbridos — que combinam nuvem pública, privada e provedores de serviço — e os altos custos de migração entre plataformas. Para atender à demanda por IA, o setor começa a oferecer GPU as a Service, modelo que permite distribuir o processamento de alto desempenho entre diferentes aplicações de forma controlada.
Do setor financeiro à manufatura: onde a IA já mostra retorno
O setor financeiro lidera a adoção de IA no Brasil, com casos que vão de detecção de fraudes na Receita Federal à automação de processos de compras que reduziram ciclos de meses para dias. Na sequência, manufatura e varejo emergem como os próximos grandes mercados: a indústria busca automação e ganho de eficiência; o varejo, inteligência de mercado e escalabilidade.
Questionado sobre o retorno sobre investimento (ROI) em projetos de IA já implementados, Lopes reconhece que a mensuração formal ainda é rara. “Os casos que a gente escuta reduziram um pouco. O sentimento é de avanço, mas o estudo formal de ROI eu ainda não vi”, admitiu. O executivo avalia, porém, que a maioria das empresas já consolidou seu caso de uso e agora busca definir a estratégia de implementação.
As neo clouds chegam ao Brasil
O fenômeno das “neo clouds” — provedores de infraestrutura soberana com foco em IA, já consolidados em países como Portugal, Espanha e Itália — ainda está emergindo no Brasil. Lopes, porém, vê paralelos claros com o contexto regulatório europeu e acredita que o movimento é inevitável.
“Eu vejo o mercado brasileiro e latino mais conectado ao que acontece na Europa do que nos Estados Unidos em matéria de soberania”, afirmou. “A razão é uma só: soberania. Uma vez que você é daquele país, passa maior segurança ao cliente de que o dado está mantido ali.”
Para o cliente Enterprise, o futuro não será binário. Lopes projeta um cenário híbrido em que parte da IA roda on-premise, parte em neo clouds soberanas e parte nos hiperescalas — e o diferencial competitivo estará em quem conseguir gerenciar esse ambiente complexo a partir de uma camada unificada.
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