O vice-presidente de data centers da Nokia, Michael Bushong, vê o Brasil como um forte candidato a se tornar um centro estratégico no setor de inteligência artificial (IA) e automação de redes. O executivo, em entrevista ao site Tele.Síntese, destacou uma série de vantagens competitivas do país, como o acesso a fontes de energia, disponibilidade de terrenos, qualificação profissional e compromisso com metas ambientais. Esses elementos, segundo Bushong, criam um ambiente propício para o desenvolvimento de infraestruturas distribuídas voltadas à inferência de IA e à soberania dos dados, tornando o país um terreno fértil para novas iniciativas tecnológicas e aplicações em IA.
O executivo aponta que o Brasil tem potencial não apenas para atender à demanda interna, mas também para se posicionar como alternativa estratégica para cargas internacionais de computação, especialmente diante das limitações de espaço e energia enfrentadas pela Europa. Segundo ele, “para algumas cargas de trabalho, pode fazer sentido para o Brasil tentar hospedar parte dessas computações”, destacando a crescente preocupação europeia com práticas sustentáveis.
Bushong também citou o Oriente Médio e a Índia como exemplos de regiões que vêm atraindo investimentos em inteligência artificial graças a incentivos governamentais. Ele acredita que o Brasil pode competir nesse cenário global, desde que supere obstáculos de curto prazo por meio de políticas públicas que incentivem a instalação de novas infraestruturas tecnológicas.
O ciclo da inteligência artificial, explica Michael Bushong, se divide em dois grandes estágios: o treinamento de modelos fundacionais, que pode ser realizado em data centers centralizados, e a inferência, que demanda proximidade com o usuário para assegurar baixa latência. Nesse segundo estágio, a localização física dos data centers — seja em regiões metropolitanas ou no Edge — torna-se um fator estratégico para garantir eficiência e desempenho.
“Na inferência, performance é muito importante. Se os usuários não recebem feedback imediato, eles não usam. Isso favorece centros de dados distribuídos”, explicou.
Oportunidades para ISPs e operadoras no Brasil, de acordo com Michael Bushong:
- Aposta estratégica: O executivo identifica potencial de crescimento para empresas que investirem em soluções de borda e em Inference as a Service (inferência como serviço).
- Vantagens dos ISPs:
- Relação direta e consolidada com o usuário final
- Infraestrutura física já estabelecida (imóveis e ativos locais)
- Capacidade de conectividade robusta
- Presença geográfica distribuída e próxima dos clientes
- Benefício competitivo: Esses atributos permitem a entrega de soluções com baixa latência, essenciais para aplicações modernas e exigentes.
- Potencial de valorização: A combinação entre proximidade e infraestrutura pode posicionar os ISPs como protagonistas na nova geração de serviços digitais.
Bushong também destacou a crescente demanda por data centers “soberanos”, especialmente fora dos Estados Unidos, como forma de garantir conformidade legal e controle sobre dados sensíveis. “Para a maioria das pessoas fora dos EUA, os centros de dados soberanos fazem muito sentido”, disse.
Bushong defende uma estratégia “top-down” na gestão de redes de data centers, com foco em automação e interoperabilidade entre múltiplos fornecedores. No Brasil, o modelo de negócios da Nokia para esse segmento está baseado em parcerias com integradoras, responsáveis pela distribuição de produtos, softwares e serviços.
Segundo o executivo, a empresa atende desde hiperescalas até operadoras de colocation e fornecedores de Internet (ISPs). Como exemplo dessa atuação colaborativa, ele destaca a parceria com a Lightera (antiga Furukawa), reforçando o papel dos integradores na cadeia de valor: “Vendemos com eles para os usuários finais”, afirmou.
Bushong acredita que o setor de inteligência artificial vive um momento de expectativas elevadas — muitas vezes acima do que a tecnologia pode entregar no curto prazo. Ainda assim, ele pensa que há espaço significativo para expansão. “Mesmo com o fracasso de diversos projetos, a demanda supera amplamente a capacidade atual. Esse descompasso será suficiente para sustentar o crescimento do mercado nos próximos anos”, afirmou.
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