A Merlin Properties decidiu jogar a carta portuguesa na corrida europeia pelas gigafábricas de inteligência artificial e apresentará, juntamente com o Governo português, uma candidatura baseada em seu campus de darta centers em construção em Lisboa.

A imobiliária, principal fornecedora de infraestruturas de data centers na Espanha, pretende arrecadar até 4 bilhões de euros (24,2 bilhões de reais) de fundos comunitários do programa InvestAI, após ter ficado de fora da proposta oficial que o Governo espanhol apresentou a Bruxelas.

A empresa tinha inicialmente proposto suas instalações em Getafe (Madri) e Álava como possíveis localizações para a gigafábrica de IA, aproveitando a ampla capacidade de crescimento dos locais. No entanto, o executivo de Pedro Sánchez optou em janeiro por outras localizações — San Fernando de Henares (Madri) e Móra de la Nova (Tarragona) — em uma candidatura apoiada pela Telefônica, ACS, MasOrange, Nvidia e SETT (a "SEPI digital"), entre outros parceiros.

Perante este cenário, a Merlin optou por continuar a desenvolver sua estratégia de data centers em paralelo: por um lado, avança com a opção portuguesa; por outro, acelera a pré-locação de seus campus espanhóis para outros usos de alto valor. Prova disso é o recente acordo assinado com a gigante americana de IA CoreWeave, que reservou uma capacidade de 48 MW na instalação de Álava, em um contexto de forte procura de potência para cargas de computação intensiva.

Lisboa, peça central do consórcio com Portugal, Edged e EDP

De acordo com a documentação enviada à CNMV, a Merlin e seu parceiro norte-americano Edged Energy constituíram um consórcio juntamente com o Governo de Portugal e a empresa de eletricidade EDP para articular a candidatura portuguesa. O campus de Lisboa, atualmente em construção, terá uma primeira fase com 80 MW de capacidade, mas foi projetado para expandir com mais 100 MW adicionais e uma terceira fase de 120 MW, até um potencial total de 300 MW.

A Merlin prevê formalizar a candidatura de Lisboa ao longo do primeiro semestre de 2026 e espera que a Comissão Europeia anuncie os projetos selecionados no final do ano. Seus data centers, desenvolvidos em conjunto com a Edged, baseiam-se num design altamente eficiente do ponto de vista energético e dispensam um fluxo constante de água para refrigeração, característica fundamental em um momento de crescente pressão sobre o uso dos recursos hídricos.

Roteiro da Merlin em data centers: da Península Ibérica aos 2 GW em Extremadura

A iniciativa faz parte do plano da Merlin para se tornar um dos grandes atores da infraestrutura digital da região. A socimi, liderada por Ismael Clemente, começou a investir decididamente em data centers no final de 2023. Em uma primeira fase, prevê implantar 64 MW de capacidade entre Madri, Álava e Barcelona, com estabilidade operacional prevista para 2027.

A segunda fase incorpora Lisboa e prevê a adição de mais de 200 MW, com horizonte de estabilização a partir de 2029. Para financiar esse crescimento, a empresa ampliou o capital no ano passado em quase 1 bilhão de euros (6,05 bilhões de reais ) e planeja somar um valor semelhante de dívida. Para além desses projetos, a Merlin mantém em sua carteira o desenvolvimento futuro de dois megacentros na Extremadura com uma potência conjunta de 2 GW, embora sem data definida para o arranque.

Enquanto Bruxelas define quais países irão receber as até cinco gigafábricas de IA que irá financiar com os 20 bilhões de euros (120,3 bilhões de reais ) do programa InvestAI, a Merlin reforça sua posição como plataforma ibérica de referência para grandes fornecedores tecnológicos, combinando capacidade na Espanha e Portugal e alinhando os seus campus com os requisitos de eficiência, potência e sustentabilidade exigidos pela nova geração de cargas de inteligência artificial.

*Texto traduzido e editado ao português por Bruno Faria