Gestoras de recursos começaram a estruturar fundos para construir, comprar e alugar data centers no país, apostando que a oferta de espaço não acompanha a demanda gerada pela computação em nuvem e pela inteligência artificial. Entre elas estão Arch Capital, Alianza e AZ Quest, segundo reportagem da Exame.

Dados da Cushman & Wakefield indicam que a capacidade operacional em São Paulo, o principal polo da América Latina, atingiu 661 MW no primeiro semestre de 2026, com vacância de 4,1%. A capacidade em construção subiu de 148 MW para 250 MW, e há mais de 2 GW em projetos planejados. A Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) estima que o segmento voltado a grandes provedores de nuvem pode alcançar 5,1 GW em dez anos, o que exigiria cerca de 55 bilhões de dólares (perto de 300 bilhões de reais) apenas para a construção dos prédios, sem contar servidores, chips e GPUs.

Roberto Miranda de Lima, CEO da Arch Capital e fundador da 247 Data Centers, explicou que o setor dimensiona os projetos pela potência disponível, e não pela área: cada 10 MW correspondem a algo entre 8 mil e 10 mil metros quadrados construídos. A gestora investe na 247 por meio de um Fundo de Investimento em Participações (FIP) para desenvolver, do zero, instalações destinadas a hiperescalas. Segundo ele, o modelo difere dos fundos imobiliários tradicionais, que investem em ativos de menor porte. A empresa, criada em 2024 após estudos iniciados em 2020, tem dois projetos em desenvolvimento que somam 156 MW.

A Alianza atua em duas frentes. Fábio Carvalho, sócio da gestora, contou que o interesse surgiu em 2018, quando dois galpões de um condomínio logístico adquirido pela empresa estavam sendo convertidos em data centers. Dentro do fundo listado ALZR11, a gestora criou o Alianza Digital, que reúne apenas ativos prontos e geradores de renda. Hoje, são dois data centers, um alugado à Sky e outro operado pela Scala, que somam cerca de 6 MW e representam aproximadamente 13% do patrimônio do fundo. A outra frente, com capital institucional, investe em projetos em andamento. Um deles começou com 250 milhões de reais e 20 MW e pode chegar a 750 milhões após duas expansões. Carvalho afirmou que os data centers modernos são planejados para triplicar a capacidade ao longo de suas fases.

A AZ Quest, que não participou da reportagem, captou 482 milhões de reais com mais de 7 mil investidores no AZ Quest Panorama Data Centers FII. O fundo comprou quatro ativos da Scala Data Centers, controlada pela DigitalBridge, em uma operação de sale-leaseback, com contratos de dez anos. O principal ativo é um data center com subestação em Fortaleza; os demais são subestações em Tamboré e em Jundiaí (SP).

Sobre o ReData, regime especial de tributação para data centers, Miranda de Lima avaliou que o maior impacto recai sobre o custo dos equipamentos. Segundo ele, um conjunto que custa 1 milhão de dólares (5,2 milhões de reais) nos Estados Unidos chegaria ao Brasil por cerca de 1,6 milhão (8,3 milhões de reais), valor que cairia para aproximadamente 1,2 milhão de dólares (6,2 milhões de reais) com o regime e se aproximaria do patamar americano com isenção de ICMS. O executivo apontou a transmissão de energia como gargalo, já que a geração está concentrada em algumas regiões. Já Carvalho destacou a energia abundante, renovável e de custo competitivo como a principal vantagem do país, ao lado da conectividade por meio de cabos submarinos e do mercado interno.