O crescimento do consumo de energia no Paraguai, que já vem reduzindo o excedente da hidrelétrica binacional de Itaipu destinado ao Brasil, deve ganhar um novo vetor com o data center anunciado nesta semana pelo governo dos Estados Unidos, segundo o site MegaWhat, da UOL. Na quinta-feira (22), a americana Crusoe divulgou detalhes da parceria com a paraguaia Araico para o desenvolvimento do empreendimento.
A primeira etapa deve entrar em operação em meados de 2027, com expansão para 106 MW de capacidade de tecnologia da informação (TI), o equivalente a cerca de 10% da energia excedente de Itaipu enviada ao Brasil em 2025, considerando uso contínuo. No longo prazo, a empresa prevê a possibilidade de ampliar para cerca de 280 MW, o que corresponderia a 23,5% do volume exportado no ano passado. A Araico já desenvolve, em Yguazú, no Alto Paraná, o Iguazú AI City, um campus de hiperescala voltado à inteligência artificial.
A usina, com 14 mil MW de potência instalada, tem a geração dividida igualmente entre os dois países, conforme o Tratado de Itaipu, assinado em 1973. Como o Paraguai historicamente não utiliza toda a sua parcela, o Brasil é obrigado a comprar o excedente por um preço definido em negociação diplomática. Pela legislação brasileira, essa energia é destinada às distribuidoras das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Após décadas de estagnação, o consumo de eletricidade no Paraguai passou a crescer, impulsionado principalmente por data centers de mineração de criptomoedas, como os da Hive Digital em Yguazú, atraídos pelo baixo custo da energia. Mais recentemente, o país também entrou no radar de projetos de IA, como o da X8 Cloud e uma iniciativa apoiada por Taiwan.
Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), entre 2023 e 2025, o fornecimento de Itaipu ao Paraguai aumentou em 32%, passando de 19,5 para 25,8 milhões de MWh. No mesmo período, a energia da parcela paraguaia comercializada no Brasil caiu 53%, de 22,2 milhões para 10,5 milhões de MWh. A geração total da usina recuou de 83,9 para 72,9 milhões de MWh.
Em entrevista à MegaWhat, o CEO da PSR, Luiz Barroso, avaliou que o volume do novo projeto é pequeno, mas pode marcar o início de um novo negócio para Itaipu e ampliar o uso dessa energia no Paraguai, com implicações para o Brasil. Para ele, a atração de novos data centers pode, a longo prazo, levar o país vizinho a consumir toda a sua parcela, eliminando o excedente atualmente destinado ao mercado brasileiro.
De acordo com o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, a redução já está considerada nos estudos de planejamento. Ele citou como exemplo a decisão de revitalizar, inicialmente, apenas um dos dois polos do sistema de transmissão em corrente contínua que liga Foz do Iguaçu (PR) a Ibiúna (SP). A modernização completa das conversoras do Bipolo 1 foi priorizada, enquanto uma intervenção equivalente no Bipolo 2 ficou condicionada à evolução da demanda paraguaia e à disponibilidade de energia no Brasil.
Embora o Brasil tenha hoje sobra estrutural de energia, a eletricidade de Itaipu ajuda a suprir os picos de consumo no fim do dia, quando não há geração solar. Por isso, a redução do envio pelo Paraguai contribuiu para a contratação do leilão de reserva de capacidade (LRCap) de março, voltado a termelétricas e hidrelétricas, e deve se refletir na demanda do certame de baterias previsto para dezembro.
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