Os quatro maiores mercados de data centers da América Latina somaram 1.045 MW de capacidade no primeiro trimestre de 2026, alta de 41,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da CBRE. São Paulo permanece na liderança, com 536,7 MW, mas a necessidade de ampliar capacidade e reduzir latência tem impulsionado a chegada de novos polos fora da capital paulista. Nesse contexto, Varginha inaugurou, em setembro de 2025, o primeiro data center do Sul de Minas Gerais.

O empresário Henrique Reis, fundador da Sourei, ecossistema de empresas de tecnologia com atuação em infraestrutura digital, computação em nuvem e inteligência artificial, participou da implantação do projeto, instalado no Porto Seco Sul de Minas. O empreendimento prevê investimentos de R$ 23 milhões ao longo de dois anos e a criação de cerca de 30 empregos diretos. Segundo Reis, a escolha da cidade levou em conta disponibilidade de rede, segurança, acesso ao aeroporto e proximidade entre universidades, empresas, governo e o parque tecnológico local.

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Henrique Reis – Divulgação

Para o executivo, o valor de uma estrutura desse tipo vai além dos servidores instalados: ao ganhar infraestrutura capaz de armazenar e processar dados com segurança e baixa latência, uma cidade passa a atrair negócios que antes não a considerariam, criando base para novos serviços e empresas ao longo do tempo.

O movimento acompanha a expansão da economia digital brasileira. Segundo a Brasscom, o setor de TIC movimentou R$ 919,7 bilhões em 2025 — 7,2% do PIB — e deve receber até R$ 2 trilhões em investimentos entre 2026 e 2029, dos quais R$ 765,6 bilhões em nuvem e R$ 736,6 bilhões em inteligência artificial.

A construção de um data center mobiliza uma cadeia que combina tecnologia e obras tradicionais — instalações elétricas, climatização, geradores, fibra óptica e segurança — e, na operação, gera demanda permanente por equipes especializadas em redes, energia e cibersegurança. No caso de Varginha, a expectativa é de cerca de 30 postos diretos ligados à unidade.

Segundo Reis, o efeito regional pode se estender além dos limites do empreendimento, beneficiando provedores de nuvem, softwares empresariais, cibersegurança e telecomunicações. Ele destaca que um data center isolado não transforma a economia de uma região sozinho — o diferencial está no ecossistema formado ao redor dele, com energia, conectividade, formação profissional e fornecedores capazes de operar essa infraestrutura.

A Anatel já reconhece os data centers como infraestrutura crítica para a continuidade dos serviços digitais, apontando proteção física e cibernética, eficiência energética e sustentabilidade como requisitos crescentes no setor.

A expansão também abre oportunidades de trabalho que vão além da programação, incluindo técnicos em eletrotécnica, climatização, redes e telecomunicações — muitas delas acessíveis por meio de cursos técnicos, sem exigência de graduação. A Brasscom registrou 2,125 milhões de empregos formais em TIC ao fim de 2025, com remuneração média 2,3 vezes maior que a nacional no setor de serviços de tecnologia e 3,3 vezes maior no setor de software. Reis defende que a qualificação profissional acompanhe o ritmo dos investimentos, para que jovens do interior não precisem migrar para grandes centros, como São Paulo, para atuar na área.

O crescimento do setor também pressiona a infraestrutura elétrica. Segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), divulgado em 2026, data centers já são considerados entre as grandes cargas que podem alterar o planejamento do sistema elétrico brasileiro e representar entre 1,2% e 12,9% do consumo nacional de eletricidade em 2035. Em nível global, a Agência Internacional de Energia prevê que o consumo elétrico de data centers passe de cerca de 485 TWh em 2025 para 950 TWh em 2030, impulsionado principalmente pela inteligência artificial. A EPE aponta a forte presença de renováveis no Brasil como fator favorável, mas alerta para a necessidade de planejamento de transmissão e de conexão rápida dessas cargas.

Para Reis, a experiência de Varginha mostra que construir tecnologia no interior não significa atuar em escala menor: a infraestrutura pode estar fisicamente numa cidade do interior, mas os serviços que passam por ela atendem empresas em diferentes partes do país e do mundo — cabendo à região transformar essa vantagem local em capacidade de competir em escala maior.