Até 2027, 60% das organizações que não enfrentarem os desafios culturais ligados à governança de dados e de analytics (D&A) não conseguirão governar a Inteligência Artificial (IA) com sucesso. A projeção é do Gartner, empresa de insights em negócios e tecnologia, que aponta a cultura organizacional como um dos fatores mais negligenciados nas estratégias de governança das empresas.

No contexto da governança de dados, a consultoria define cultura como o conjunto de mentalidades, comportamentos e normas organizacionais que determinam como a governança é adotada e sustentada em toda a organização. Na avaliação do Gartner, esses elementos são decisivos para que políticas definidas no papel se tornem práticas efetivas no dia a dia.

De acordo com Anurag Raj, diretor analista do Gartner, a IA reforçou a importância de estabelecer bases sólidas para a governança de dados. Ainda assim, segundo ele, muitas organizações seguem concentradas na elaboração de políticas e na viabilização tecnológica, deixando de lado os aspectos culturais, fundamentais para operacionalizar essas políticas em escala e de forma contínua. Para o analista, uma governança de dados que não esteja acompanhada de uma cultura orientada por dados tende a ser um esforço sem resultado.

A avaliação é sustentada por uma pesquisa realizada pelo Gartner em março de 2026 com 223 líderes de D&A. O levantamento mostrou que a resistência cultural supera as restrições orçamentárias como principal motivo do fracasso das iniciativas de governança: 60% dos entrevistados apontaram fatores culturais, contra 40% que citaram limitações de financiamento.

Entre os principais obstáculos identificados estão a baixa maturidade no uso de dados, a falta de compreensão dos stakeholders sobre o valor da governança e o baixo engajamento das áreas de negócio. Segundo a consultoria, esses fatores continuam prejudicando os programas de governança e dificultando a construção das bases de confiança necessárias para que as organizações avancem em suas ambições com IA.

Raj observa que as empresas estão cada vez mais focadas em gerar dados prontos para IA. No entanto, de acordo com o executivo, esses dados também dependem de stakeholders igualmente preparados para a tecnologia, ou seja, profissionais que compreendam o valor de dados confiáveis, participem das atividades de gestão das políticas de governança e contribuam para manter uma cultura de responsabilização e confiança na organização.

Para melhorar os resultados da governança de dados e preparar as organizações para aprimorar a governança de IA, o Gartner recomenda três frentes de atuação aos líderes de D&A.

A primeira é alinhar a governança aos resultados do negócio, para manter o apoio da alta liderança. Nesse sentido, a consultoria orienta que os esforços de governança sejam priorizados com base nos objetivos estratégicos da empresa e em suas ambições relacionadas à IA, de modo a entregar valor mensurável e sustentar o engajamento dos executivos.

A segunda recomendação é reposicionar a governança de dados como facilitadora de negócios e como um esforço coletivo. Em vez de tratá-la como uma atribuição exclusiva da área de TI, o Gartner sugere estabelecer uma responsabilidade compartilhada entre as equipes de negócio e de tecnologia.

A terceira é integrar a governança e a cultura de dados aos fluxos de trabalho do negócio. Para isso, a consultoria recomenda incorporar governança de dados, alfabetização em dados, alfabetização em IA e gestão da mudança às operações diárias, com o objetivo de construir confiança e engajamento de forma sustentável.

Na visão de Raj, o sucesso futuro com IA depende tanto das pessoas quanto da tecnologia. O analista conclui que as organizações que tratarem a governança de dados e a cultura orientada por dados como bases complementares da confiança estarão em posição significativamente melhor para governar a IA com sucesso e extrair mais valor de seus investimentos em tecnologia.