Às 11h33 da manhã em Portugal, a Península Ibérica mergulhou na escuridão. Um apagão elétrico massivo deixou toda a região sem energia e sem conexão com a internet. Em apenas cinco segundos, a Espanha perdeu 15 GW de potência, sem que até agora se conheça uma explicação oficial.

O apagão afetou todo o território continental de Portugal e Espanha, além do sul da França, e se prolongou por aproximadamente horas. Em algumas regiões, no entanto, a restauração total dos serviços de energia demorou ainda mais.

As consequências foram imediatas: interrupções em serviços de transporte e telecomunicações, além da paralisação de serviços essenciais, como os hospitais, que foram obrigados a operar com geradores de emergência.

As causas do apagão continuam sem ser reveladas, enquanto a população e diversos setores se perguntam o que realmente aconteceu e se isso pode voltar a ocorrer. Diante da incerteza, a DatacenterDynamics quis saber como os data centers enfrentaram a situação.

A Associação Portuguesa de Centros de Dados – Portugal DC compartilhou com a DCD uma análise preliminar sobre as consequências do apagão para o setor.​ Segundo a entidade, o caso teve início na rede elétrica espanhola devido a um aumento abrupto de tensão e foi resolvido às 20h30 com o fornecimento restabelecido. Até a normalização do abastecimento, a interrupção causou transtornos em diversas infraestruturas críticas do país, incluindo aeroportos, hospitais e data centers.

“No que respeita a data centers, caso não existam sistemas de backup adequados, (o apagão) poderá ter causado falhas nos sistemas de arrefecimento e perda de dados”, afirma a Portugal DC. No entanto, a associação avalia que “apesar da falha no fornecimento de energia, os data centers demonstraram elevada resiliência uma vez que conseguiram manter os serviços críticos operacionais e asseguraram a continuidade das comunicações essenciais, evitando impactos mais graves nas operações de empresas e serviços públicos”.

A Portugal DC vê este episódio como uma oportunidade para consolidar boas práticas, reforçar os sistemas de contingência e destacar o papel central dos data centers no suporte à economia digital e à prestação de serviços públicos. Trata-se de um sinal encorajador da capacidade instalada no país e do profissionalismo das equipes técnicas que, mesmo em situações de crise, garantem estabilidade e continuidade operacional.

Uma das empresas consultadas sobre o dia de ontem foi a Equinix. A companhia informou que "os data centers da Equinix na Espanha e em Portugal estão plenamente operacionais e estiveram assim durante todo o apagão".

A Equinix destacou que "após a interrupção no fornecimento de energia elétrica, os sistemas de emergência foram ativados para garantir a continuidade do serviço sem interrupções". "Com a restauração do fornecimento, todos os nossos data centers, tanto na Espanha quanto em Portugal, estão operando normalmente neste momento", acrescentou a companhia, garantindo que não houve notificação de clientes afetados.

Operando data centers em Madrid, Barcelona e Lisboa, a Equinix afirmou que "está monitorando de perto a situação, caso eventuais novos cortes de energia venham a ocorrer”.

Procurada pela DCD, a Start Campus afirma que o campus localizado em Sines "manteve-se totalmente estável durante todo o período e a nossa infraestrutura proporcionou um desempenho ininterrupto para os nossos clientes". Segundo a empresa, os sistemas de reserva do SIN01 ativaram-se automaticamente assim que a rede caiu e mantiveram-se operacionais durante todo o apagão, ou seja, desde cerca das 11h30 locais até aproximadamente 23h35.

Em relação à coordenação com as autoridades e os fornecedores de energia durante a emergência, a Start Campus avalia que foi "muito boa, com forte compromisso e adesão aos SLAs acordados por todos os nossos fornecedores locais e outros prestadores de serviços de utilidade pública para água e combustível HVO, que disponibilizaram pessoal e recursos para apoiar as nossas operações".

"Todos estes fornecedores estão localizados muito perto do nosso local, o que ajuda a reduzir o tempo de resposta. Importante, porque os nossos sistemas de reserva funcionam com HVO em vez de diesel, as nossas necessidades não competiram com outras infraestruturas críticas portuguesas (por exemplo, hospitais) ou com o setor dos transportes que dependem do diesel", acrescenta a empresa.

Para a Start Campus, este episódio foi uma forma de recordar toda a indústria de que os centros de dados são infraestruturas críticas que necessitam de sistemas de reserva resilientes e robustos, e que a cadeia de abastecimento em Portugal está pronta para apoiar os compromissos com os clientes do setor.

Em contato com a Merlin Edged, que possui instalações em Lisboa, Madrid (Getafe), Barcelona e Bilbao (Arasur), escutamos o relato de Enrique Ramírez Muelas, Diretor de Operações Regionais da empresa:

“O incidente recente não teve nenhum impacto significativo. Tudo funcionou corretamente, tanto no nível da infraestrutura quanto da equipe. Os centros operacionais responderam de forma eficaz, graças ao treinamento contínuo e ao profundo conhecimento dos procedimentos por parte das equipes”, comentou Ramírez.

O executivo detalha que, no momento em que ocorreu o corte de energia, os protocolos de contingência foram imediatamente ativados, incluindo a entrada em operação dos geradores. Esses planos, treinados várias vezes por ano, permitiram que cada pessoa assumisse seu papel e executasse as ações previstas para esse tipo de crise, em que não havia um tempo de recuperação definido.

“Contamos com sistemas e acordos adequados para prolongar o funcionamento dos centros em situações adversas”, afirmou. Nesse sentido, a resposta dos data centers foi exemplar: “Tanto a infraestrutura quanto as pessoas estiveram à altura, e a gestão foi realizada com tranquilidade e eficácia, demonstrando compromisso e profissionalismo".

“Essa experiência mostrou que estamos preparados para enfrentar esse tipo de falha. Situações de crise são previstas e treinadas periodicamente. Cada incidente nos oferece oportunidades para aprender, identificar pontos de melhoria e reforçar nossas capacidades”, avaliou o diretor da Merlin Edged.

José Luis Herrero, CEO da Walhalla, explicou que “foi um dia complicado”. O executivo destacou que foram ativados os protocolos internos, assim como “os recursos de comunicação com os clientes, porque estávamos todos vivendo aquilo. Outra questão é se os clientes conseguiam receber a informação. Houve muitos que, acredito, também ficaram no escuro”.

Questionado sobre o impacto econômico do apagão, Herrero afirmou: “Ainda é muito cedo para saber. Precisamos revisar tudo e conversar com os clientes. Estivemos a noite inteira e todo o dia de ontem focados em atendê-los, mais do que em qualquer outra coisa. Internamente, ainda não nos sentamos para fazer esse balanço”.

Sobre o papel das autoridades na gestão informativa da emergência, sua avaliação foi direta: a coordenação entre autoridades e fornecedores de energia foi “zero”.

Já a Barcelona Cable Landing Station, por meio de sua conta no LinkedIn, informou que operou sem problemas durante a queda de fornecimento de energia: “Apesar dos problemas no fornecimento elétrico que afetam o sul da Europa, todos os cabos submarinos e os clientes hospedados na Estação de Aterrissagem de Cabos de Barcelona (CLS) permanecem totalmente operacionais e sem prejuízos".

O data center da Nixval, localizado em Valência, informou que suas operações não foram afetadas pelo apagão de ontem. Segundo o CEO da empresa, José Luis Gómez-Pardo, “estamos preparados para esse tipo de contingência e não houve nenhum impacto para os clientes”.

Durante a interrupção no fornecimento de energia, os sistemas de backup precisaram funcionar por cerca de dez horas. A infraestrutura da Nixval conta com grupos geradores que garantem autonomia de até quatro dias, período que pode ser estendido com o reabastecimento de diesel, se necessário.

Gómez-Pardo destacou que o bom desempenho se deve aos testes periódicos realizados para garantir o funcionamento em situações como essa. “Foi apenas mais um caso de contingência que enfrentamos e para o qual estamos preparados”, afirmou. Comentou ainda que alguns clientes, por não conseguirem se comunicar por telefone celular, foram pessoalmente ao data center para verificar o estado dos serviços e confirmar que tudo funcionava normalmente.

Para Francisco Ramírez, Country Managing Director da DATA4 na Espanha, é importante que a informação seja transmitida de forma correta, sem buscar o sensacionalismo. “Vamos ter cuidado com a informação”, alerta.

Sobre como viveu a situação, o executivo explica que o data center é uma instalação moderna, de última geração, com cinco anos de operação: “Fazemos testes todos os meses, testamos todos os sistemas de contingência de emergência”. Para garantir a continuidade dos serviços, “os geradores entraram em ação”, permitindo que continuassem operando. “Tudo funcionou automaticamente, todos os geradores foram acionados, e a partir daí o que precisávamos era entender até quando conseguiríamos manter a operação. Temos uma autonomia de no mínimo dois dias — na verdade, mais, porque sempre temos um pouco mais de precaução", acrescentou.

Sobre a situação em si, o executivo afirma que prefere “ver o copo meio cheio”, e que o episódio serviu para mostrar que estavam preparados. “Na verdade, eu, que gosto de ver o copo meio cheio, vejo isso como uma forma de provar que, diante de um problema inesperado como esse, que ninguém prevê, que ninguém avisa, estávamos prontos. Porque os trabalhos que fazemos, às vezes programados, você já sabe que vai cortar a energia, que vai para os geradores, está tudo organizado, e não envolve o campus inteiro ao mesmo tempo — é um prédio primeiro, depois outro. Isso, por acontecer tudo ao mesmo tempo, mostra que estamos preparados para que funcione — e funcionou automaticamente, no fim tudo foi restaurado automaticamente. Ou seja, isso serve como uma prova de fogo: quando você faz bem, mantém bem, projeta bem, constrói bem etc., então tudo funciona", comentou.

Com relação à comunicação por parte das autoridades, Ramírez destacou a complexidade da situação e ressaltou o papel da Spain DC, que criou um canal de comunicação com todos os membros da associação.