O projeto Chile-China Express (CCE), um cabo submarino de fibra óptica de 19.873 km entre Concón (região de Valparaíso) e Hong Kong, prometia uma capacidade de até 16 terabits por segundo por fibra, com 266 repetidores em águas internacionais e 16 na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) chilena. Essa infraestrutura, gerida 100% pela China Mobile International (CMI), pretendia posicionar o Chile como um hub digital do Pacífico Sul, reduzindo a dependência das rotas do hemisfério norte e complementando iniciativas como o cabo Humboldt (Google-Valparaíso-Sidney).
O cabo teria conexão direta com a Ásia, transportando grandes volumes de dados para computação em nuvem, IA e telecomunicações, com um design que incluía múltiplas fibras para alta redundância. Especialistas destacam o potencial para reduzir a latência nas conexões transpacíficas, fundamental para os data centers em expansão em Valparaíso e Santiago. No entanto, a operação exclusiva pela CMI gerou alertas sobre o controle soberano e possíveis vulnerabilidades na rede de fornecimento de equipamentos.
A trava do governo e a intervenção dos EUA
O Ministério dos Transportes e Telecomunicações concedeu inicialmente a autorização em 27 de janeiro de 2026, mas a revogou apenas dois dias depois por “erros técnicos”. A decisão respondeu a alertas confidenciais dos Estados Unidos sobre riscos de cibersegurança e espionagem, o que resultou na revogação dos vistos de três funcionários chilenos, incluindo o ministro Juan Carlos Muñoz. Washington argumentou que o projeto "prejudicava a segurança regional" ao ceder o controle de infraestruturas críticas.
Crise política na transferência de poder
A polêmica fraturou a transição entre o presidente em final de mandato Gabriel Boric e o eleito José Antonio Kast, que cancelou as negociações por falta de transparência. Kast questionou a gestão do processo e exigiu maior coordenação, marcando uma das transições mais tensas desde o retorno à democracia no Chile.
Cabos submarinos: a “rodovia da informação” em disputa
Esses sistemas transportam 95% do tráfego mundial de dados, tornando-os ativos críticos vulneráveis a sabotagens e falhas, como as registradas em Tonga (2022) e no Báltico devido a tensões geopolíticas. Especialistas como John Griffiths (AthenaLab) alertam: “Quem controla os cabos tem uma vantagem substancial”. O Chile, com sua posição estratégica, também impulsiona o cabo Humboldt e avalia rotas para a Oceania para diversificar e fortalecer seu papel como plataforma digital regional.
Rumo a um quadro regulatório mais robusto
O caso evidencia a necessidade de um Comitê de Ministros (Transportes, Relações Exteriores, Defesa, Economia) para avaliar projetos sensíveis, com ênfase em cibersegurança, redundância e soberania. Como resume Pilar Lizana, “o Chile deve equilibrar investimento com segurança nessa competição entre potências”. A suspensão deixa em aberto o futuro do CCE, mas acelera os debates sobre como posicionar o país na corrida global pela conectividade submarina.
*Texto traduzido e editado ao português por Bruno Faria
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