Brasil e Malásia formalizaram um acordo de cooperação na área de semicondutores, com foco em pesquisa e desenvolvimento conjuntos e no apoio à cadeia de suprimentos do setor. A iniciativa ocorre em um momento em que a indústria automotiva brasileira enfrenta dificuldades relacionadas à escassez de chips, atribuída a instabilidades no mercado asiático, especialmente envolvendo a China, informa o Valor Econômico.

O acordo, assinado em Kuala Lumpur, destaca a relevância estratégica da tecnologia no contexto geopolítico atual. A parceria tem duração inicial de dois anos e está condicionada à disponibilidade de recursos financeiros por ambas as partes.

A Malásia ocupa uma posição relevante na cadeia global de produção de tecnologia, sendo uma das principais exportadoras de semicondutores para os Estados Unidos. O país movimenta bilhões de dólares com a comercialização de componentes utilizados em diversos setores, como informática, telecomunicações, automóveis, brinquedos e equipamentos médicos.

A atividade de semicondutores está concentrada no estado de Penang, no norte do país, onde empresas europeias e norte-americanas têm ampliado suas operações com o objetivo de diversificar e fortalecer suas cadeias de suprimentos. Os semicondutores são fundamentais para o funcionamento de tecnologias modernas, com bilhões de unidades em uso diariamente. No entanto, a cadeia de fornecimento apresenta vulnerabilidades, especialmente devido à concentração da produção de chips mais avançados em uma única empresa taiwanesa, a TSMC.

Em entrevista ao site Brasil de Fato, a ministra da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ressaltou o potencial do Brasil na produção de terras raras, um grupo composto por 17 elementos químicos fundamentais para a fabricação de motores, baterias, dispositivos eletrônicos e outras tecnologias avançadas. O país detém a segunda maior reserva conhecida desses materiais no mundo, atrás apenas da China em volume.

Nesse contexto, a ministra mencionou a criação do Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), órgão diretamente vinculado à Presidência da República. A finalidade do CNPM é estabelecer diretrizes para a exploração responsável dos recursos minerais estratégicos, com foco no desenvolvimento científico, na sustentabilidade ambiental e na redução da dependência de insumos importados. A iniciativa também busca assegurar que as reservas nacionais sejam geridas de forma pública e transparente, evitando processos de privatização que possam comprometer o controle sobre esse patrimônio natural.

A Malásia tem buscado consolidar sua posição como um parceiro confiável na indústria global de tecnologia, reforçando sua imagem de resiliência perante investidores internacionais. Com o crescimento acelerado dos setores de inteligência artificial e de automóveis de última geração, o país estabeleceu, em 2024, uma meta de produção de chips de alta tecnologia destinados a aplicações em IA.

No entanto, esse plano enfrenta desafios decorrentes da política comercial dos Estados Unidos. Inicialmente, foi aplicada uma tarifa de 24% sobre todas as exportações da Malásia para o mercado norte-americano. Posteriormente, essas tarifas foram suspensas para o setor de chips, enquanto ocorre uma investigação de segurança nacional nos EUA, com conclusão prevista para dezembro.

A eventual retirada das isenções tarifárias sobre semicondutores pode impactar negativamente a competitividade da Malásia e afetar a estabilidade das cadeias globais de suprimentos.

Negociações formais entre Malásia e Estados Unidos sobre tarifas comerciais estão previstas para ocorrer em breve em Kuala Lumpur, com a participação do presidente Donald Trump. As discussões são consideradas estratégicas, especialmente no que diz respeito ao setor de semicondutores.

Recentemente, empresas do setor de semicondutores na Malásia divulgaram resultados positivos, indicando uma retomada significativa no crescimento do lucro líquido. O setor é atualmente o principal responsável pelas exportações do país. Entre os destaques, está a Vitrox Corp Bhd, fabricante de equipamentos de teste automatizados, que registrou um aumento superior a 50% nos lucros. Esse desempenho foi impulsionado pela alta demanda nos segmentos de inspeção automatizada de placas e de sistemas de visão artificial, levando a empresa a alcançar receita recorde.