Falhas em aplicativos ou indisponibilidade de sistemas em nuvem têm impacto que ultrapassa a esfera técnica, interrompendo operações empresariais e o acesso de clientes a serviços essenciais. Nesse contexto, a forma como os dados trafegam entre ambientes digitais torna-se uma questão estratégica para os negócios.
O avanço dos ataques cibernéticos e a crescente complexidade dos ambientes multicloud têm levado as empresas brasileiras a repensar a infraestrutura que conecta sistemas, aplicações e dados. Com operações distribuídas entre provedores como AWS, Microsoft Azure, Google Cloud e Oracle, a conectividade assume um papel central na segurança, no desempenho e na continuidade digital.
Segundo relatório de inteligência de ameaças da Check Point Research (CPR) referente a julho de 2026, o Brasil registrou média de 4 mil tentativas semanais de ciberataques por empresa, alta de 44% em relação ao ano anterior e quase o dobro da média global. Dados da Netscout, por sua vez, apontam que o país concentrou 470.677 ataques DDoS no segundo semestre de 2025, o que equivale a 46% das ofensivas registradas na América Latina.
Os efeitos, contudo, não se limitam à segurança cibernética. De acordo com o Internet Resilience Report 2025, mais da metade das empresas consultadas afirmou perder mais de 1 milhão de dólares (5,2 milhões de reais) por mês em razão de interrupções de conectividade ou degradação do desempenho da rede, o que evidencia a dependência da continuidade dos negócios de uma infraestrutura de internet resiliente.
Para Natália Inácio, Partner Program Manager da DE-CIX Brasil, a evolução dos ambientes de TI demanda uma nova abordagem à conectividade. Segundo ela, à medida que aplicações e dados se distribuem entre diferentes ambientes de nuvem e infraestrutura corporativa, a conectividade deixa de ser apenas uma questão técnica e torna-se um componente estratégico da resiliência dos negócios, exigindo avaliação cuidadosa dos riscos de segurança, desempenho e disponibilidade sempre que essas operações dependem da internet pública.
A executiva pondera ainda que o uso da internet pública para conectar diferentes ambientes pode elevar a latência e reduzir a previsibilidade do tráfego de dados. Ao contrário das conexões privadas, o caminho percorrido pelos dados na internet pública é definido dinamicamente e sujeito a alterações, o que reduz a visibilidade e o controle das empresas sobre as rotas utilizadas. Em operações que dependem de aplicações em tempo real, inteligência artificial, análise de dados e sistemas críticos, esse cenário pode afetar diretamente a continuidade dos negócios.
Nesse cenário, ganha relevância a interconexão privada por meio de Pontos de Troca de Tráfego (Internet Exchanges, IXs). Além de viabilizarem a troca de tráfego, essas plataformas permitem conexões privadas entre redes corporativas, data centers e provedores de nuvem, reduzindo a dependência da internet pública e ampliando o controle sobre o trajeto dos dados.
A estratégia também pode favorecer a gestão de custos. Em ambientes multicloud, a movimentação de grandes volumes de dados entre provedores costuma gerar tarifas de saída (egress fees). Conexões privadas e rotas mais diretas tendem a aumentar a previsibilidade dessas despesas e, a depender da arquitetura e dos contratos com os provedores, podem reduzi-las.
Para simplificar a gestão dessa infraestrutura, a DE-CIX oferece o Cloud ROUTER, serviço de roteamento definido por software (SD-Routing) voltado a conexões diretas entre provedores de nuvem e a infraestrutura local das empresas. Além de manter o tráfego isolado da internet pública, a plataforma centraliza o gerenciamento das conexões, facilita o monitoramento dos fluxos de dados e a administração das rotas, e oferece visibilidade sobre a comunicação entre ambientes de nuvem distintos. A arquitetura permite ainda integrar múltiplos provedores sem gerar dependência de um único fornecedor (vendor lock-in), o que confere maior flexibilidade à evolução da infraestrutura de TI.
A interconexão privada traz benefícios em quatro frentes principais, segundo especialistas. Em termos de resiliência e segurança, reduz a exposição a ameaças da internet pública e amplia o controle sobre os caminhos percorridos pelos dados, diminuindo o risco de sequestro de rotas, ataques DDoS e ataques do tipo man-in-the-middle. Em desempenho, rotas mais controladas tendem a reduzir a latência e aumentar a estabilidade das conexões. Do ponto de vista dos custos, conexões mais diretas entre ambientes podem tornar mais previsíveis — e, em alguns casos, reduzir — as despesas com a transferência de grandes volumes de dados entre nuvens. Já em termos de flexibilidade e governança, a abordagem facilita a integração entre diferentes provedores de nuvem e apoia estratégias relacionadas à conformidade regulatória e à soberania de dados, especialmente em setores mais regulados.
Para Natália Inácio, conectar ecossistemas multicloud de forma direta e privada não se resume a uma otimização técnica, mas constitui uma estratégia de gestão de risco, eficiência operacional e resiliência dos negócios. Segundo ela, à medida que a nuvem se consolida como base da transformação digital, a infraestrutura que conecta esses ambientes ganha importância estratégica equivalente à dos sistemas e aplicações que sustenta.
A executiva avalia que o desafio das empresas brasileiras é ir além da adoção da nuvem e construir uma arquitetura capaz de conectar diferentes ambientes com segurança, desempenho e previsibilidade. Nesse contexto, afirma que a interconexão privada se apresenta como alternativa para organizações que buscam reduzir riscos e custos à medida que suas operações digitais se tornam mais complexas — não apenas conectando redes, mas também preparando a infraestrutura para sustentar a próxima geração de aplicações e serviços digitais.
Comments