Os maiores provedores de nuvem em hiperescala pretendem captar mais de 131 bilhões de dólares (719,6 bilhões de reais) em dívida e capital próprio para financiar a expansão contínua de suas operações em inteligência artificial (IA).

Amazon, Google, Microsoft e Oracle divulgaram planos de financiamento na semana passada. A Amazon lidera o grupo, com uma linha de crédito de 80 bilhões de dólares (439,5 bilhões de reais).

Dollars, money
– Thinkstock / Adam Gault

De acordo com um documento apresentado à SEC, a linha de crédito da Amazon faz parte de seus acordos de financiamento a fornecedores para aquisições de infraestrutura tecnológica e pode ser utilizada entre o primeiro trimestre de 2027 e o terceiro trimestre de 2028.

Segundo o documento, o empréstimo está “sujeito a variações conforme o tamanho e o cronograma dos pedidos de compra e as condições de preço, até um valor máximo de aproximadamente 80 bilhões de dólares (439,5 bilhões de reais), sobre o qual incidem juros a taxas variáveis e que vence cinco anos após a data de cada captação”.

O documento acrescenta que, em 30 de setembro de 2026, a Amazon dispunha de um montante agregado de 20 bilhões de dólares (109,9 bilhões de reais) em linhas de crédito rotativo sem garantia junto a consórcios de credores, formado por uma linha de 15 bilhões de dólares (82,4 bilhões de reais), contratada em 2023, e por um acordo de um ano, no valor de 5 bilhões de dólares (27,5 bilhões de reais), com vencimento em 2025.

No trimestre mais recente, a Amazon gastou mais de 77 bilhões de dólares (423 bilhões de reais) em data centers, servidores de IA, armazéns e outros investimentos de capital, acima das expectativas. Ainda assim, a empresa afirmou acreditar que o total de investimentos de capital do ano deve se manter na casa dos 220 bilhões de dólares (1,2 trilhão de reais), valor divulgado inicialmente em julho.

A Microsoft, por sua vez, anunciou planos para captar 25 bilhões de dólares (137,3 bilhões de reais) em títulos de dívida para financiar a expansão de sua infraestrutura. Em comunicado, a empresa afirmou: “A Microsoft pretende utilizar os recursos líquidos da emissão para fins corporativos gerais, o que pode incluir, entre outras coisas, o financiamento de capital de giro, despesas de capital, recompra de ações, aquisições e pagamento de dívidas existentes. A previsão é que as emissões sejam concluídas em 4 de novembro de 2026.”

Os títulos têm taxas que variam entre 4,85% e 6,35%.

A Microsoft também divulgou seus resultados financeiros trimestrais e anuais na semana passada, com um investimento de 45,2 bilhões de dólares (248,3 bilhões de reais) no trimestre. Para 2027, a empresa prevê gastos de 170 bilhões de dólares (933,9 bilhões de reais), abaixo da estimativa anterior, de 175 bilhões de dólares (961,4 bilhões de reais).

A Oracle revelou seus planos de captar 20 bilhões de dólares (109,9 bilhões de reais) na segunda-feira, 2 de novembro. A empresa está ofertando 10 bilhões de dólares (54,9 bilhões de reais) em ações ordinárias, além de 10 bilhões de dólares (54,9 bilhões de reais) em títulos sênior de taxa variável.

Segundo a Oracle, “as receitas líquidas desta oferta e da oferta simultânea de ações ordinárias, caso sejam concluídas, serão utilizadas para fins corporativos gerais, que podem incluir despesas de capital, pagamento de dívidas, investimentos ou aquisições futuras e pagamento de dividendos em dinheiro ou recompra de nossas ações ordinárias”.

Na comparação com os concorrentes, o capex da Oracle é bem menor: a empresa prevê gastos anuais entre 90 bilhões de dólares (494,4 bilhões de reais) e 95 bilhões de dólares (521,9 bilhões de reais).

Na teleconferência mais recente sobre os resultados do primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, o CEO Clay Magouyrk afirmou que a Oracle havia concluído, no primeiro trimestre de 2027, a emissão de ações no valor de 20 bilhões de dólares (109,9 bilhões de reais) anunciada anteriormente. Antes disso, a empresa havia informado que esperava captar 40 bilhões de dólares (219,7 bilhões de reais) em dívida e capital próprio no ano fiscal de 2027. Com a nova emissão, esse objetivo terá sido alcançado.

Já o Google está ofertando 6 bilhões de euros (36,8 bilhões de reais) em títulos de dívida, com taxas entre 3,7% e 5,25%.

As ações da empresa sofreram um revés recentemente, depois que os resultados trimestrais, publicados no mês passado, mostraram que o fluxo de caixa negativo, previsto em cerca de 2,7 bilhões de dólares (14,8 bilhões de reais), chegou a 9,01 bilhões de dólares (49,5 bilhões de reais). A diretora financeira, Anat Ashkenazi, explicou aos investidores que o valor acima do esperado se deveu “aos nossos investimentos em despesas de capital”. O Google gastou 51,36 bilhões de dólares (282,1 bilhões de reais) em capex no último trimestre e manteve a previsão de gastos anuais de até 205 bilhões de dólares (1,13 trilhão de reais) em 2027 e de 300 bilhões de dólares (1,65 trilhão de reais) em 2028. As ações da empresa chegaram a cair 11% nas negociações após o fechamento da bolsa, depois do anúncio.

Enquanto essas hiperescalas com grau de investimento buscam recursos para financiar a construção de sua infraestrutura de IA, as empresas de “neocloud”, de menor porte, também procuram acessar os mesmos mercados em escala comparável.

A revista Fortune noticiou que essa fonte de financiamento começa a secar. A OpenAI reduziu recentemente seus esforços de captação, e as empresas veem suas classificações de risco serem afetadas à medida que a dívida aumenta e cresce a preocupação com a viabilidade dos investimentos. A CoreWeave viu recentemente os rendimentos de seus títulos chegarem a 15%, depois de terem sido emitidos a 9,67%, o que levou o Financial Times a classificá-los como “dívida em dificuldades”.

O problema parece estar no fato de grande parte da dívida estar ligada a contratos hipotéticos. Existe demanda por capacidade computacional para IA, mas sua implementação é complexa e depende de muitos fatores, como disponibilidade de terrenos e energia, hardware de computação e infraestrutura. E o capital necessário para financiar tudo isso está se mostrando astronômico.

O veterano de Wall Street Ed Yardeni levantou a seguinte questão: “Será que existe capital suficiente para financiar os ambiciosos planos de investimento em IA de todos?”