A Arqia, empresa especializada em conectividade e infraestrutura para a Internet das Coisas (IoT) no Brasil, firmou parceria com a espanhola Sateliot, operadora de conectividade IoT 5G via satélite. O objetivo é desenvolver uma oferta conjunta que integre redes móveis terrestres e conectividade via satélites de órbita baixa (LEO), como parte da estratégia da Arqia em redes não terrestres (NTN, na sigla em inglês).

A proposta é permitir que empresas gerenciem, em uma única estrutura de conectividade, aplicações IoT que transitam entre áreas com cobertura celular e regiões atendidas apenas por satélite. Segundo as companhias, o modelo busca ampliar as alternativas de conexão e oferecer mais flexibilidade e resiliência às operações realizadas dentro e fora do alcance das redes móveis.

A iniciativa visa às deficiências de infraestrutura que ainda persistem no país. De acordo com o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações (PERT) de 2026, da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), cerca de 26,4 mil localidades não têm cobertura 4G nem compromissos de expansão da tecnologia, entre elas, mais de 15 mil setores censitários identificados pelo IBGE. A cobertura móvel também alcança apenas 53% dos 122 mil quilômetros de rodovias federais e 50,7% dos 323 mil quilômetros de rodovias estaduais mapeadas.

Eduardo Resende, diretor de Marketing e Jornada do Cliente da Arqia, afirmou que a conectividade via satélite amplia as possibilidades para operações que precisam alcançar áreas onde as redes terrestres ainda são limitadas. Segundo o executivo, em setores como energia e utilities, a tecnologia pode apoiar o monitoramento e a gestão remota de infraestruturas distribuídas em regiões de difícil acesso. Resende acrescentou que a parceria com a Sateliot visa ampliar as opções disponíveis aos clientes e construir uma oferta mais flexível e resiliente para atender a diferentes necessidades de IoT.

O serviço utilizará a constelação de nove satélites LEO da Sateliot, baseada no padrão 3GPP Release 17 NTN, que orienta a integração entre redes não terrestres e o 5G. Como a rede segue a mesma especificação global do 5G terrestre, os clientes da Arqia poderão conectar diretamente ao satélite dispositivos NB-IoT NTN padronizados e já disponíveis no mercado, sem necessidade de terminais proprietários ou antenas dedicadas. Quando um equipamento sair da área de cobertura celular, a conexão passará a ser feita via satélite, com toda a gestão concentrada em uma única oferta.

Os satélites da Sateliot orbitam a pouco mais de 500 quilômetros da Terra, cerca de 60 vezes mais perto do que os satélites geoestacionários (GEO), posicionados a aproximadamente 36 mil quilômetros. Segundo as empresas, é essa proximidade que viabiliza a IoT via satélite em escala: como o sinal percorre uma distância muito menor, dispositivos pequenos, de baixo consumo e alimentados por bateria conseguem se comunicar com o espaço usando suas antenas convencionais integradas.

As companhias ressaltam que os satélites GEO continuam adequados para instalações fixas com linha de visada permanente para um único ponto no céu. Já os LEO se deslocam continuamente e alcançam os dispositivos a partir de diferentes ângulos, o que permite atender tanto ativos fixos quanto móveis, como sensores em fazendas e em linhas de transmissão, caminhões em rodovias e barcaças em rios. Basta que o dispositivo tenha visibilidade do céu para se conectar.

Além de energia e utilities, a solução é direcionada ao agronegócio, à logística, ao transporte e às operações marítimas e fluviais. Entre as aplicações previstas estão a telemetria, o monitoramento remoto de equipamentos e infraestruturas, o rastreamento de cargas e ativos e outros usos distantes das torres de telefonia celular. No campo, apenas 33,9% da área disponível para uso agrícola no Brasil tem cobertura 4G ou 5G, segundo o Indicador de Conectividade Rural (ICR), desenvolvido pela ConectarAGRO em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), o que tem colocado a conectividade via satélite como alternativa estratégica para empresas em áreas remotas.

Gianluca Redolfi, Chief Commercial Officer (CCO) da Sateliot, avaliou que o Brasil é um dos mercados mais promissores do mundo para IoT via satélite, por se tratar de um território continental em que redes de energia, lavouras, cargas e frotas fluviais operam muito além do alcance das torres de celular. Segundo o executivo, a parceria com a Arqia oferece às empresas brasileiras a possibilidade inédita de manter conectados, em qualquer ponto do país, os mesmos dispositivos IoT padrão que já utilizam. Redolfi afirmou ainda que esse é justamente o propósito para o qual o 5G, a partir do espaço, foi concebido.

O acordo amplia a atuação da Sateliot no Brasil. Em 2025, a empresa recebeu autorização da Anatel para operar conectividade 5G NB-IoT via satélite no país e firmou parceria com a Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC) para impulsionar um modelo híbrido que integra redes terrestres e não terrestres, conforme noticiado pela DCD. A companhia, sediada em Barcelona, também captou 70 milhões de euros em uma rodada Série B para viabilizar uma constelação de 100 satélites 5G-IoT.

O segmento de IoT via satélite vem atraindo outros movimentos no mercado brasileiro, como o acordo entre Allcom Telecom e ORBCOMM para atender áreas remotas, e tem sido debatido no setor de infraestrutura digital, a exemplo do painel “Da órbita à borda: a convergência entre satélites e infraestrutura digital”, promovido pela DCD.

A oferta está na fase final de implementação e de testes e deve ser disponibilizada aos clientes da Arqia até o fim de 2026.