A Angola Cables, provedora multinacional de telecomunicações e soluções digitais, anunciou nesta terça-feira (29) a adoção da tecnologia óptica de alta capacidade da Ciena para reforçar sua rede transatlântica nos sistemas de cabos submarinos MONET e South Atlantic Cable System (SACS). A atualização visa o tráfego gerado por hiperescalas, serviços em nuvem e aplicações de inteligência artificial e viabiliza a oferta de serviços de 800 Gbps em rotas que conectam os Estados Unidos, o Brasil e Angola.

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Fernando Capella – Divulgação

O MONET se estende por 10.556 quilômetros entre os Estados Unidos e o Brasil, enquanto o SACS, primeira travessia do Atlântico Sul, liga o Brasil a Angola ao longo de 6.165 quilômetros. Com a combinação dos dois sistemas, os dados podem trafegar diretamente entre Angola e os Estados Unidos com atraso de ida e volta (RTD, na sigla em inglês) de apenas 130 milissegundos. Segundo as empresas, a tecnologia permitirá à operadora atender à crescente demanda por largura de banda, impulsionada por modelos de IA e serviços em nuvem intensivos em dados, além de simplificar as operações da rede por meio de recursos de controle e gerenciamento baseados em software.

Uma ponte digital entre continentes

Para Adriano Caldevilla, CTO da Angola Cables, os sistemas submarinos da companhia funcionam como uma ponte digital crítica entre a África e as Américas, ao oferecer uma rota diversificada e segura entre os continentes em um momento em que a demanda por hiperescalas e provedores de nuvem segue em aceleração. De acordo com o executivo, a parceria com a Ciena vai aprimorar a escala, a flexibilidade e a inteligência da infraestrutura submarina da operadora, ajudando os clientes a construir e expandir redes preparadas para IA e, ao mesmo tempo, a maximizar o desempenho dos ativos de fibra já existentes.

A Angola Cables possui e opera uma rede proprietária de cabos submarinos de 33 mil quilômetros, composta pelos sistemas WACS, SACS e MONET, e estende esse alcance para mais de 50 mil quilômetros por meio de parcerias com cabos como EllaLink, Equiano e 2Africa. Seu backbone se conecta a mais de 30 PoPs, mais de mil data centers e mais de 500 on-ramps de nuvem em todo o mundo, com suporte de 27 pontos de troca de tráfego (IXPs) e mais de 6 mil acordos de peering.

O que muda na rede

A operadora implantará o Waveserver da Ciena, equipado com o WaveLogic 6 Extreme (WL6e), a plataforma 6500 Packet-Optical e o Navigator Network Control Suite, para aumentar a capacidade e o desempenho da rede submarina existente. O projeto inclui interfaces de cliente de 800G no MONET e cria opções de rotas mais flexíveis para clientes de hiperescala, nuvem, atacado, conteúdo e corporativos. A solução permite ofertas que vão de circuitos individuais de 100 Gbps a um par de fibras completo, incluindo também modelos de espectro e MOFN (Managed Optical Fiber Networks, ou redes de fibra óptica gerenciadas). A implantação dá continuidade ao histórico de uso de tecnologia da Ciena em toda a rede submarina da Angola Cables.

Em entrevista à DCD, Fernando Capella, diretor regional para CALA Sul da Ciena, explicou que o WaveLogic 6 oferece a maior capacidade por canal disponível no mercado, de até 1,6 Tbps. A banda efetiva, ressalta, depende de fatores como a distância e a atenuação, calculados caso a caso. Cada nova geração tecnológica da fabricante persegue três objetivos: trafegar mais banda, obter ganho de desempenho óptico e reduzir o custo por bit. A performance óptica diz respeito à capacidade de transmitir mais informação no espectro limitado disponível na fibra, o que amplia a capacidade total do cabo para absorver novas demandas, algo crítico nos sistemas submarinos.

A razão, segundo o executivo, está no próprio mercado. Há um backlog de novos cabos anunciados que serão ativados nos próximos anos, e o investimento para lançar um sistema submarino é elevado. Além disso, quem decide construir um novo cabo hoje enfrenta uma fila que pode levar bons anos até a entrada em operação. Por isso, os provedores buscam extrair o máximo da infraestrutura já disponível para monetizá-la e rentabilizá-la.

No caso da Angola Cables, a atualização amplia a capacidade dos cabos, permitindo a oferta de novos serviços, como circuitos de 800 Gbps. Como já existem roteadores com portas de 800G, a conexão direta reduz o uso de componentes eletrônicos e, consequentemente, o custo geral da conectividade. Outro ganho apontado por Capella é a comunicação direta entre Angola e os Estados Unidos, viabilizada pela integração dos sistemas SACS e MONET. Na visão do executivo, a combinação entre óptica coerente e software estabelece as bases para uma conectividade preparada para IA através do Atlântico, permitindo à operadora atender hiperescalas e provedores de nuvem com conectividade escalável e de alto desempenho.

Mais capacidade na mesma fibra

O WaveLogic 6 é a tecnologia responsável por converter o sinal elétrico em sinal óptico e iluminar a fibra, estabelecendo a conexão entre dois pontos. Em relação à geração anterior, o WaveLogic 5, que permitia até 800 Gbps por canal, a nova versão duplica essa capacidade nas mesmas condições. Capella esclarece que não se trata de dobrar a capacidade de transporte da fibra, mas sim a do serviço: se uma rota suportava 400 Gbps com o WaveLogic 5, passa a suportar 800 Gbps com o WaveLogic 6, na mesma distância.

O ganho tem peso direto na equação econômica das operadoras. O executivo lembra que a receita não acompanha linearmente o crescimento do tráfego, já que o usuário de banda larga recebe mais velocidade, mas o preço do serviço não aumenta na mesma proporção. Daí a preocupação em otimizar ao máximo o custo por bit transportado. A nova tecnologia, segundo ele, usa menos eletrônica, menos energia e menos espaço, o que permite suportar o aumento da demanda mantendo ou melhorando a rentabilidade.

A atualização aproveita a fibra já instalada, sem necessidade de substituição. Capella explica que a fibra é apenas o meio físico e que a tecnologia se aproveita dela. Ele observa que a vida útil de um cabo submarino, estimada em cerca de 25 anos, é determinada menos por fatores técnicos e mais por fatores econômicos: à medida que a fibra se degrada e a capacidade utilizável diminui, chega um momento em que a receita gerada não cobre o custo de manutenção do ativo, que passa a estar condenado, ainda que, tecnicamente, continue a trafegar dados.

Na América do Sul, parte dos cabos foi implantada por volta dos anos 2000 e, em tese, já se aproxima do fim da vida útil. Para os sistemas mais novos, isso não é uma preocupação, mas, para os mais antigos, os operadores começam a colocar a conta na ponta do lápis. Segundo o diretor, tecnologias como o WaveLogic 6 ajudam a prolongar a vida desses ativos ao injetar mais capacidade na mesma fibra, convertendo-a em potencial de receita. Ainda assim, reconhece que chegará o momento em que será inevitável lançar novos cabos para substituí-los.

Brasil no mapa

O projeto se insere em um contexto em que a conectividade submarina deixou de ser um tema restrito aos bastidores das operadoras e passou a ocupar o centro das discussões sobre infraestrutura digital no Brasil e na América do Sul. Na avaliação de Capella, o interesse crescente se baseia em uma condição básica: mais de 95% do tráfego da internet circula por cabos submarinos. Trata-se, portanto, de uma infraestrutura absolutamente crítica para a conectividade dos países, cenário que ganha contornos ainda mais sensíveis diante de um contexto geopolítico por vezes instável e do avanço da inteligência artificial, cujas aplicações exigem cada vez mais capacidade das rotas internacionais.

O executivo destaca que o Brasil ocupa uma posição de relevância significativa nesse mapa global. A localização geográfica faz do país um ponto natural de conexão entre a África e a Europa, como evidenciam os cabos operados pela Angola Cables. O movimento, no entanto, responde sobretudo à necessidade de ampliar a diversidade de rotas e oferecer mais alternativas, garantindo os níveis de resiliência, disponibilidade e proteção que a conectividade atual exige.

O tamanho da economia, a população e a demanda por serviços de telecomunicações e de internet reforçam esse protagonismo. Capella cita um estudo recente de uma consultoria que analisou todos os países do mundo para identificar candidatos naturais a receber data centers dedicados ao treinamento de modelos de IA: estruturas com arquitetura, demanda de conectividade, porte e consumo de energia distintos dos data centers tradicionais. Entre os critérios estavam a oferta de energia (no caso brasileiro, limpa, abundante e a custo competitivo), a disponibilidade de terra, a conectividade e a demanda interna. Ao final, 16 países foram apontados, dos quais apenas dois na América do Sul: Brasil e Argentina.

A IA muda o patamar da demanda

Para o executivo, a inteligência artificial tem sido o principal motor da mudança de patamar na demanda por conectividade. Historicamente, o setor estava acostumado a um crescimento anual de 20% a 25% no tráfego, impulsionado por serviços móveis, banda larga fixa e novas aplicações, como vídeo em 8K. A IA trouxe um impulso adicional com características diferentes. No treinamento de modelos, a complexidade e o volume de dados exigem a distribuição da carga entre vários data centers, interligados por conexões da ordem de petabits por segundo e por centenas de pares de fibra. A cada etapa do treinamento, é preciso sincronizar as bases de dados entre todas as instalações, o que exige tempo e conectividade.

Agora, acrescenta, a inferência começa a ganhar força e, em algum momento, deve superar o tráfego gerado pelo treinamento. Capella cita um estudo segundo o qual, em 2030, a demanda de tráfego será composta por três pilares: 40% de inferência, 30% de treinamento e 30% de serviços sem relação direta com IA. A inferência, diferentemente do treinamento, concentra a demanda nas redes metropolitanas e de acesso regionais, o que fará com que os operadores de serviço também experimentem um crescimento expressivo e se tornem candidatos ao uso de portas de 800G.

Infraestrutura crítica e diversidade de rotas

Questionado sobre se a infraestrutura crítica está preparada para esse crescimento, Capella avalia que é difícil afirmar que as redes estejam prontas para um volume de tráfego ainda não experimentado, o que reforça a necessidade de processos contínuos de modernização. No caso brasileiro, o país conta com uma malha de fibra extensa e bastante capilar, mas os cabos terrestres também têm vida útil e estão sujeitos a mais rupturas do que os submarinos. Cada rompimento exige uma fusão, que acarreta perda de fibra, reduz o desempenho e, com ela, a capacidade de transporte.

Pelo que se observa em países com infraestrutura mais desenvolvida, o executivo considera inevitável modernizar as redes tanto em capacidade quanto em diversidade de rotas. Ele cita o exemplo das cloud zones dos provedores de nuvem, que geralmente interligam três data centers por meio de rotas diversas para atender aos requisitos de disponibilidade exigidos pelos clientes. Na visão de Capella, a América Latina está apenas no início dessa transição, que deve atrair investimentos significativos.

A dimensão geopolítica também pesa. Segundo o diretor, a relevância dos cabos submarinos como meio de conexão com outros continentes e com os data centers onde estão hospedadas aplicações e dados elevou a preocupação de governos e instituições quanto à disponibilidade dessa infraestrutura. Ele cita um dado ilustrativo: a América Latina responde por cerca de 10% da demanda global de cargas de IA, considerando treinamento e inferência, mas menos de 1% é processado na região. Ou seja, a maior parte vem de fora e depende da conectividade internacional. Episódios de ruptura de cabos em outras regiões, como o Oriente Médio, mostram o prejuízo que falhas desse tipo podem causar.

Capella aponta ainda a concentração das estações de chegada no Brasil, hoje centradas em Fortaleza e em Praia Grande, no litoral paulista, e o interesse em diversificar essa infraestrutura. Outro gargalo é a escassez de navios, tanto para a instalação de novos cabos quanto para a manutenção. Em caso de rompimento, a reparação pode levar um longo período, o que motiva a preocupação em desenvolver uma estrutura capaz de responder rapidamente a esses incidentes.

Oportunidades além do fundo do mar

Para além dos cabos submarinos, a Ciena vê o mercado brasileiro com otimismo. Capella menciona os diversos anúncios de projetos de data centers no país e avalia que a sanção do ReData, regime especial de tributação para o setor, deve atrair e acelerar ainda mais esses investimentos. As oportunidades se estendem ao backbone terrestre e, sobretudo, à interconexão entre data centers, segmento em que a companhia atua fortemente.

O executivo também destaca a introdução da tecnologia óptica nos próprios data centers, impulsionada pelas novas gerações de GPUs e pela intensa troca de dados entre servidores. Ele recorre aos três termos adotados pelo mercado: scale across, para a conectividade entre data centers; scale up, para a conexão entre servidores no mesmo rack; e scale out, para a ligação entre racks dentro de um data center. A Ciena afirma que vem desenvolvendo produtos para atender a todas essas frentes.

Entre as novidades da empresa está o DCOM, solução de gerenciamento de elementos da infraestrutura do data center, de servidores a sistemas de energia e de climatização, desenvolvida em conjunto com a Meta. Baseada em tecnologia óptica passiva, a proposta se diferencia do modelo tradicional, apoiado em switches top-of-rack, que implica maior consumo de energia, espaço e cabeamento.

Por fim, Capella reforça que a inferência dependerá do acesso de usuários finais, sejam pessoas físicas ou empresas, à infraestrutura de data centers. Isso exigirá o reforço das redes metropolitanas e de acesso pelos provedores de serviços tradicionais, o que, em sua avaliação, representa uma oportunidade talvez única para que os operadores alavanquem suas receitas ao viabilizar o acesso às aplicações de inteligência artificial.